Saturday, January 17, 2015

Entrevistas - I

Então, pessoal, o Dr. Maurício Escobar, que foi meu professor na ULBRA, achou que eu seria um bom assunto para um trabalho dos alunos do curso de Informática do IFSul - Charqueadas.
Eu fiquei muito satisfeito em poder colaborar com o pessoal, até porque o Professor Maurício foi dos melhores professores que eu já tive.
Houve até uma parte "pitoresca" quanto às respostas, eu estava viajando, feriado de Thanksgiving, e parte dos questionários eu respondi dentro do carro, viajando entre New Orleans e Houston;  outra parte foi respondida em hotéis.
Bom, o fato é que nas respostas - em boa parte graças às excelentes perguntas das meninas - eu digo muita coisa relativa à profissão, muita coisa das minhas crenças pessoais, e resolvi guardar isso aqui no blog.
Além de ser útil pra mim, quem sabe não pode ter algum valor pra alguém mais?

Esta entrevista, feita pela Eduarda e pela Gabrieli, é a primeira de uma série de três.

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Olá Pedro, somos duas alunas do primeiro ano, do curso de Informática no Instituto Federal Sul-Rio-Grandense Campus Charqueadas, Eduarda e Gabrielli. O professor Maurício Escobar, nos pediu um trabalho sobre as áreas de informática, e deveríamos entrevistar uma das pessoas que ele nos indicou. Escolhemos fazer a entrevista com o senhor, pois temos muito interesse na área de programação. Ficaremos muito gratas, se o senhor poder nos ajudar respondendo 11 perguntas. Segue em anexo o questionário.

 

Gurias, eu respondi as perguntas de vocês e, se vocês olharem depois do fim do questionário, vâo ver que eu coloquei um monte de coisa mais lá.  Leiam se quiserem, se tiverem tempo.  Provávelmente coloquei coisa demais, que vocês não precisam nem querem.  É que eu, como a maioria dos velhos, gosto de contar “causos”...

1-      Viajar para um lugar diferenciado em que não se conhece ninguém é algo um tanto complicado, isso te prejudicou de alguma forma nos estudos?
É uma dificuldade a mais, sim. 
O sistema de ensino é diferente.  É muito homework (o velho “tema pra casa”).  É esperado que o aluno trabalhe duas horas  em casa pra cada hora que passa em aula.  E eles passam tarefas de acordo com isso.   Eu assisto aula doze horas por semana;  isso me faz trabalhar no minimo 40 horas por semana, entre aula e homework.
Eu achei as aulas muito mais interativas que no Brasil.  O professor explica alguma coisa e começa a perguntar.  Ele não está querendo que repiram o que ele disse, ele quer que a turma construa interpretações e apresente idéias originais em cima do que ele disse.  E alguns dos estudantes americanos são muito bons nisso, eles pensam rápido, eles apresentam idéias criativas. 
Outra diferença muito grande é que tudo tem “projeto prático”.  Não existe cadeira em que tu lês alguns livros, aprende a resposta correta segundo a teoria, marca as cruzes nos lugares certos na prova e pronto, tirou nota boa!  Pra vocês fazerem uma idéia, uma cadeira “fácil”, Introdução às Ciências da Computação, tem trabalhos de pesquisa (é para essa cadeira que eu tenho que manter o blog, o professor dá um tema por semana), tem um projeto de pesquisa em um assunto para cada grupo (são 4 ou 5 em cada grupo) e este projeto de pesquisa inclui fazer um vídeo, uma apresentação Power Point e um “Trecho de Livro Didático” sobre o assunto designado.  Não bastasse isso tudo, ainda tem exercícios de programação com uma ferramenta chamada “Scratch”, criada pelo MIT, e o trabalho final de programação vai ser criar um video game.  Pode ser simples, mas tem que funcionar.  A cadeira de Engenharia de Sistemas é construir um sistema usando Metodologia Ágil – sistemas reais, com clientes reais, para ajudar ONGs aqui da cidade. É tudo assim.  Tem saber fazer.
A língua também é uma dificuldade.  Eu vim com boa nota no TOEFL.  Mas mesmo assim, na minha primeira terça-feira (terças-feiras eu tenho aula das 09:00 às 12:30 e depois das 14:30 às 15:45), eu saí da última aula, fui me encaminhando pra Biblioteca pra ver se tinham os livros que eu ia precisar, e antes de chegar lá mudei o rumo, fui pro apartamento, me joguei na cama de roupa e tudo e fiquei lá deitado umas três horas, como se tivessem me dado uma paulada na cabeça – tal foi o cansaço de quase seis horas de aula em inglês.  Isso melhorou em seguida, tipo 15 dias depois eu já saía da última aula “normal”, em condições de ir pra Biblioteca estudar.
Mas uma coisa é ficar fácil entender o professor, outra coisa é participar de discussões de grupo – quando além de todos falarem ao mesmo tempo, a sala está cheia de gente falando.  Nessas condições, eu às vezes ainda tenho que pedir pras pessoas repetirem as coisas. 
E nem sempre é fácil entender o professor, porque nem todos são americanos.  Eu tenho aula com um chinês que é bem difícil de entender, e com um francês que tem um sotaque carregado e no início era muito difícil entender, agora eu já me acostumei.  Acho que agora é mais fácil pra mim entender o professor francês que pros americanos.
E (quase) todo mundo estuda muito aqui.  As salas de estudo ficam abertas 24 horas, 7 dias por semana. E sempre tem gente.  Eu já fui na Biblioteca domingo de noite e tava lotada, bombando!  Negadinha esfregando os olhos, cansada, e dê-lhe a estudar.  Quem quer tirar nota boa tem que fazer assim, a não ser que seja gênio.  Também se vê gente dormindo nos sofás da Biblioteca, até nas mesas dos laboratórios de computação.  Eu pensava que eram vagabundos, até que eu mesmo fiquei tão cansado que entre uma aula e outra ia pra Biblioteca estudar e dormia em cima do computador.
Livro.  Livro é caro aqui!  E tem muita leitura obrigatória que não tem na Biblioteca – na boa e velha ULBRA, no Brasil, isso quase nunca acontecia.  Se tu não comprares livro on-line, nem de segunda mão, pode-se fácilmente gastar 400 ou 500 dólares em livros num semestre.  Se comprar de segunda mão, o valor cai pra menos da metade.  E se tiver on-line, aí é bem acessível.  Mas TEM que ter os livros e TEM que ler os livros.  Se não ler, vai chegar na aula e vai ficar “boiando”, porque o professor presumindo que tu estás a par do conteúdo do livro.
Por outro lado, também se tem facilidades que não tem no Brasil.  Os professores tem “office hours” – horários em que ficam à disposição dos alunos para tirarem dúvidas.  Quando nos receberam aqui, salientaram que a gente ficasse bem à vontade pra procurá-los e pedir ajuda, porque eles são pagos e bem pagos pra ficar à disposição.  Os professores também tem “assistentes”, que ajudam quando a demanda é grande.  E tem também “monitoria” gratuita – alunos que ajudam alunos – pras matérias que são tradicionalmente mais difíceis – Cálculo, essas coisas.  Infelizmente pra maioria dos cursos (eles chamam de “course” o que nós chamamos no Brasil de “cadeira” ou “matéria”, isso me confundiu muito quando cheguei) de Sistemas de Informação não tem monitoria.  Mas eu já sou membro do Núcleo da Association for Computing Machinery que tem aqui na Universidade, e tem sessões de ajuda todas as terças.
Isso é outra coisa que “bomba” aqui – as Associações de Estudantes e os Grupos de Estudo e Debate.  Tem grupo de Robótica, de Games, de Cybersecurity, tem Mulheres na TI, vários, vários.  E os professores apoiam, mas quem faz a coisa funcionar são os alunos mesmo.  Gente que se organiza, gerencia o grupo, gente que trabalha, pesquisa, apresenta trabalhos interessantes...
Também tem MUITA interação com empresas, GRANDES empresas.  Eu fui “fiscal” de um concurso de programação que aconteceu aqui.  Bagulho punk!  Dez problemas foram apresentados, tinham um dia pra resolver.  Trabalho em grupos de três, mas só um computador por grupo.  Nenhum grupo resolveu todos os problemas, na verdade nenhum grupo resolveu mais de cinco problemas, e muitos não resolveram nenhum!  Difíceis mesmo, o bagulho era islâmico, como dizem uns coleguinhas aí no Brasil! J
Mas sabem qual era o prêmio?  Bolsas pra dois anos de pós-graduação!  E o concurso era patrocinado por empresas como Phillips 66, Garmin, Cerner, Koch... empresas grandes, excelentes empregadores em potencial, todas de olho no pessoal que estava concorrendo.
Isso acontece o tempo todo aqui, empresas visitando.  Na minha sala de aula já esteve o pessoal da Google!  Eles vem, fazem palestras, conversam com a gente, é contigo conseguir se destacar e chamar a atenção deles!
Mas se tu não conseguires chamar a atenção destas grandes empresas, não tem problema, tem duas vezes por ano a “Career Fair”.  Empresas de todos os portes, de todas as áreas de atuação, vem aqui, montam stands dentro do estádio de futebol, e os estudantes (todos de terno e gravata, com um bolinho de curriculuns embaixo do braço) passam dois dias visitando os stands, deixando curriculum, conversando com os recrutadores.  Eu já fui, a gente tem que fazer estágio, e é normal aqui começar a procurar estágio quase um ano antes do momento de realmente fazer.   Detalhe: o terno que eu usei era doado, eles fazem uma “feira de doações” na Union (o DCE aqui deles) pra quem não tem dinheiro pra comprar roupa.  Também tem um setor da Faculdade onde te ajudam a montar o teu curriculum (curriculum americano é diferente de como se usa no Brasil) e orientam como se portar nas entrevistas.

2-      O que te motivou a realizar o intercâmbio?
 Pois então, gurias, o fato é que eu trabalho com TI há 40 anos e só consegui ser Diretor na minha própria empresa!  J   Eu me considero um profissional bem bom, já cheguei na ULBRA em 2009 com bastante conhecimento técnico, e de lá pra cá aprendi bastante sobre os conceitos teóricos da profissão também.  Mas sem ser bacharel, ninguém dá bola pras minhas idéias.  Em Desenvolvimento de Sistemas, os resultados que a maioria das grandes companhias obtém é MUITO ruim.  Sistemas que não funcionam direito, que não fazem o que deviam fazer, que custam muito mais do que foi estimado, que precisam de manutenção constante, que são entregues muito depois do prazo.  Claro que tem alguma coisa MUITO errada com a maneira que elas trabalham!  E eu tenho idéias pra obter resultados melhores!  Quero estudar pra poder elaborar, refinar, definir essas idéias.  E quero ter um status acadêmico porque é a única maneira de ser ouvido.
Meu objetivo quando voltar ao Brasil é me formar, fazer uma especialização e ser professor – se possível na boa e velha ULBRA, onde eu estudo.  Se eu puder fazer alguma pesquisa, OK, fico só na Universidade.  Senão, quero ser professor tipo 20 horas e trabalhar com consultoria – Modelagem de Negócios, Análise de Sistemas, Liderança de Equipes de Desenvolvimento...
Mas uma motivação bem forte veio das minhas filhinhas.  A mais moça (15 anos) falava em estudar no Exterior, mas tinha medo.  Eu resolvi mostrar pra ela que não é nenhum bicho de sete cabeças, que não precisa ser gênio, é só se aplicar nos estudos.  Nesse momento, no nosso País, as portas estão abertas pra esse tipo de experiência.  A mais velha (30 e poucos) começou uma faculdade e parou, se formou Técnica em Enfermagem, trabalha com isto.  Depois que eu vim pra cá, ela decidiu que vai voltar pra faculdade! J
Eu vim pra crescer como profissional, pra expandir o meu mundo.  Mas também pra mostrar pra gurizada toda – filhos, amigos, colegas da faculdade – que dá pra fazer.  Que eles podem vir também.

3-      O que você estudou detalhadamente, nos EUA?
Estou fazendo em 4 “courses” – Introduction to Computing Science, Enterprise Information Systems, Software Design Project e Programming Technics with Big Data.
E, como eu já falei pra vocês, tudo isso é visto em profundidade.
Semestre que vem tenho que fazer mais 4 courses.  A minha carga horária semanal tem que ser no mínimo 36 horas de estudo, para manter o meu status de estudante em tempo integral e portanto manter o VISA J-1 que me permite ficar nos States.
 
4-      A profissão de programador te influenciou de algum modo na vida pessoal?
Pôs olhem, gurias, eu digo muitas vezes que “o ferreiro molda o ferro mas o ferro também molda o ferreiro”.  Sim, a minha profissão me influenciou, sem dúvida nenhuma!  Verdade que quando eu comecei a trabalhar com programação, em 1975, eu “me achei”, senti que era feito praquilo mesmo.  Mas sem dúvida a profissão acentuou traços da personalidade e comportamentos.  Por exemplo, eu sempre sei quanto dinheiro tenho no bolso e no banco.  Tenho controles de tudo, anoto os gastos e sei o percentual de tipo de gasto onde uso meu dinheiro.  Estou sempre lendo sobre eficiência, sobre gerenciamento do tempo. Sou meio obcecado por achar a maneira mais eficiente de fazer as coisas – qualquer coisa.  Isso vai até os meus passatempos, como me exercitar – me exercito de acordo com planos que eu monto e controlo.  Eu também sou um bom dono de casa, cozinho, lavo, varro – e numa fase em que, por problemas de doença na familia, eu era o responsável pela casa (trabalhava, estudava e cuidava da casa, até hoje não sei como fiz isso), eu montei um sistema de gerenciar as compras de mantimentos e as refeições – eu e minha filha nos reuníamos, montávamos o cardápio pra semana – planejar pra semana nos permitia ter uma alimentação mais equilibrada – e íamos ao super não com uma lista de compras, mas com uma lista de pratos que íamos preparar.  Comíamos muito bem, comida gostosa e saudável, e gastávamos menos que antes de usar o “sistema”! J  E como eu tinha o cardápio da semana toda, algumas coisas eu podia cozinhar no fim de semana e congelar, depois era só botar no microondas e comer!
Ah, já ia esquecendo de falar – nessa época eu bolei uma rotina que me permitia arrumar a casa e me exercitar poupando tempo!  Tipo, faz 20 apoios, e enquanto eu recupero o fôlego eu varro metade da sala.  Faz 10 barras, e enquanto eu recupero o fôlego termina de varrer a sala.  Eficiência, gerenciamento do tempo!  Funcionava muito bem!  J  Ainda faço isso aqui no apartamento.
Também bolei uma “stand-up workstation” – ou seja, um jeito de trabalhar de pé, pra aliviar minhas costas.  Custo zero – é só botar umas caixas de papelão em cima da escrivaninha e botar o laptop em cima!  Quando eu trabalhei em home-office, trabalhava de pé pela manhã e sentado à tarde.   Alivia a coluna e as pernas!  Se a gente não usar a lógica, se guiar pelo “senso comum”, descarta esse tipo de idéia como “loucura”.  Mas se faz sentido pela lógica, se traz benefícios, pra um programador não importa que pareça estranho!

5-      Se poder, nos explique empresa de desenvolvimento de softwares e consultoria.
Bah, meninas, olhem o site da minha empresa – www.ppai.com.br.
O meu produto principal são “sistemas customizados”.  Sistemas que atendem um nicho de mercado que não tem “pacotes” prontos – ou para o qual os “pacotes” não atendem às necessidades dos meus clientes.
Em um negócio “completo”, em que o cliente compre tudo que eu tenho pra oferecer, a parte de “consultoria” começa com a Modelagem dos Processos de Negócio.  Uso BPMN pra levantar e registrar os processos como são no momento.  Geralmente esse levantamento resulta em possibilidades de otimização dos processos.  Não estamos ainda falando de TI, estamos falando de processos de negócio, então a cultura da empresa tem que ser levada em conta pra qualquer alteração que se cogite.  Uma vez que se tenha definidos os processos de negócios, pode-se pensar em desenvolver um Sistema de Informação que suporte esses processos.  Normalmente faço isso com diagramas UML – Casos de Uso, Atividades, Estados  – para definir lógicamente o sistema.  Para os principais Casos de Uso, deve-se também definir o formato de interface de usuário.  Depois se define qual ferramenta vai ser utilizada.  Isso depende do porte do sistema, de quanto dinheiro o cliente quer gastar, e também da cultura da empresa.  Se os caras só trabalham com software livre, não vamos querer construir um sistema com Microsoft .Net.  O próximo passo é projetar físicamente o sistema – especificação técnica.  Costumo começar por um diagrama E-R e Diagramas de Classes, talvez Diagramas de Sequencia. 
Durante todo esse processo, é ESSENCIAL que o cliente esteja envolvido no processo.  Quem vai usar o sistema tem que estar sendo ouvido o tempo todo, os executivos responsáveis pelo projeto tem de dar e receber feedback constante.  Sem o envolvimento dos usuários não há sistema que funcione!
E temos que aceitar a verdade que a Metodologia Ágil prega – “não é possível levantar TODOS os requisitos”.  Temos que aceitar isso.  Não dá pra esperar saber TUDO sobre o sistema antes de começar a produzir software.  É preciso conviver com alguma incerteza.  Quanta incerteza?  Bom, aí entra, eu acho, o feeling do profissional experiente, que consegue se inteirar de tudo que é importante, de tudo que é relevante para a arquitetura da solução a ser construída, e deixar para depois os detalhes que não afetam a arquitetura, que são só questão de detalhamento de recursos do sistema.
Além da documentação, pode-se ao mesmo tempo construir protótipos da aplicação.  Eu gosto muito do MS-Access pra isso.  Pode-se construir todo o banco de dados – e migrar tudo depois pra Oracle ou SQL Server com a maior facilidade, pode-se criar um interface de usuário funcional, para que os clientes experimentem, analisem e sugiram melhoramentos...  Os clientes entendem muito melhor um protótipo do que qualquer documentação.
Feito isso... é começar os Sprints!  Definir o sprint backlog, construir, testar, homologar, colocar em produção.  O ideal é de 15 em 15 dias entregar novos componentes de software funcionando.
Bom, isso é a parte técnica.  E quanto ao dinheiro?  Bom, meninas, se eu fosse bom no gerenciamento financeiro, eu estaria rico! J  Mas o ideal, o que eu faço com os clientes que me conhecem, é dar uma estimativa geral das horas-homem que o projeto vai tomar, dar um preço por hora-homem, e – aprovado isso – tocar o barco.
Quando o cliente não me conhece, geralmente ele não topa o esquema horas-homem.  Daí eu coloco um valor pra cada tela e um valor pra cada relatório.  À medida que o sistema vai ganhando mais telas e mais relatórios, eu acrescento um “percentual de complexidade” em em cima dos valores – porque eu presumo que “embaixo” de muitas telas e muitos relatórios vai haver um mecanismo cada vez mais complexo pra fazer eles funcionarem harmonicamente.  Assim, se o cliente decidir que não quer mais um relatório, ou que quer uma tela a mais, a gente não tem que renegociar nada – o preço foi definido em relação ao número de objetos que eu vou construir. 
Se a gente não usar a metodologia “cascata” – e ninguém mais usa isso hoje em dia – esse é o único jeito de trabalhar. 

6-      Como é trabalhar com programação nos dias de hoje?
Olha, a base é como sempre foi.  O principal fundamento é lógica de programação, dominar algoritmos.  Tem que entender e dominar o paradigma das linguagens de programação que usa – procedurais, orientadas a objeto, funcionais...  Tem gente que fala que pra começar a usar uma nova linguagem é muito fácil, é só aprender a sintaxe.  Pode ser e pode não ser.  É só aprender a sintaxe quando a gente já conhece o paradigma da nova linguagem.  Tipo, se eu sei Basic, aprender Python é muito fácil.  Mas pra quem trabalha com ASP “clássico”, aprender Java não é só aprender sintaxe, tem que aprender a Orientação a Objetos!  E pra aprender a usar – corretamente – Java Script, tem que entender o paradigma de uma linguagem orientada a funções! 
Essas diferenças eu acho que são muito subestimadas nos dias de hoje.  Tem muita gente programando em meia-dúzia de linguagens, e não sabendo nenhuma a fundo.  SQL, então, é muito mal usado, vejo esquemas de bancos de dados que não seguem as formas normais, a rigor nem são bancos de dados, são “amontoados de tabelas”.  E as consultas então...  Funcionam, funcionam enquanto tem meia dúzia de usuários acessando teu web site, mas não tem performance, não tem escalabilidade...  Bota cem criaturas penduradas no teu site e tu vais ter um “denial of service”!
Nesse ponto eu sou conservador, acho que tem que respeitar as ferramentas, se dedicar a aprender bem algumas, e não tentar usar toda novidade que aparece.  Se tem necessidade, se vai permitir fazer alguma coisa que a ferramenta atual não oferece, OK, vamos pegar a novidade.  Senão, melhor se aprofundar no que está usando, pra usar cada vez melhor.

7-      Como ter sucesso na sua profissão?
O que é sucesso?  Acho que varia de pessoa pra pessoa.   O meu sucesso é resolver os problemas dos meus clientes.  É chegar numa empresa onde todo mundo está stressado, preocupado, e quando eu termino o meu trabalho está todo mundo contente.  E, claro, conseguir ganhar a minha vida com isso.  Eu tenho a maior satisfação no fato de ter um bom relacionamento com todos os meus ex-funcionários e todos os meus ex-clientes.   Isso é essencial pra mim.  Fazer negócios que sejam bons pra todos os envolvidos; eu e minha equipe levamos pra casa o dinheirinho do leite das crianças, dividido entre nós numa base justa, e os clientes tem seus problemas resolvidos.
Sucesso pra mim também é ser técnicamente competente e não parar de aprender nunca.  E fazer isso em grupo, em colaboração com colegas, aprender juntos, forjar laços, ajudar uns aos outros.
Finalmente – ter boa reputação no mercado, pra poder escolher meus clientes.  Não trabalhar pra companhias de cigarros, ou bebidas alcoólicas, ou junk food, por exemplo.  Porque eu não apóio essas coisas, não quero trabalhar pra favorecer uma coisa que eu não apóio. 

8-      Se não for muito pessoal, qual o salário de um programador nos dias de hoje?
Bah, gurias, varia muito.   Tem uns caras-de-pau querendo contratar programador qualificado por 1500 reais.   Não sei bem porque, mas me parece que o pessoal do PHP tá mais exposto a essa exploração.  Não tem sentido, porque a ferramenta é boa!
Eu acredito que esse tipo de exploração tem que ser boicotado, que a gente tem que buscar alternativas, se organizar em cooperativas, trabalhar como autônomo, evitar ao máximo aceitar esses empregos.  Não nos qualificamos pra ficar ganhando salário de fome, ficar usando a nossa capacidade pra encher o bolso de sanguessugas!
Felizmente o normal é bem acima disso.  As melhores empresas pagam mais de 4000.  Creio que se tu tiveres algum tempo de casa numa Dell ou HP da vida, isso dobra ou quase dobra.  Meu último emprego como Consultor dava 6000 por mês.  Mas eu sei que isso era acima da média do mercado. 
Eu “acho” que essa média hoje seria...  entre 3 e 4 mil reais pra desenvolvedores bons em Java ou em C#.

9-      O que fez o senhor se interessar por programação?
Bom, essa história eu conto num dos posts do meu blog.  Vejam lá.  Eu era guri, 18 anos, operador de máquina de contabilidade, e acabei sendo contratado por uma empresa de processamento de dados.

10-   Como foi o seu primeiro contato com a programação?
Olha, com “programação” em geral acho que foi nas máquinas de contabilidade mesmo.  Era uma programação muito primitiva, uma coisa física, a gente trocava partes mecânicas da máquina pra alterar o lugar onde o débito, o crédito e o saldo eram impressos nos nossos livros fiscais.  Quando eu passei a trabalhar com computação mesmo, num Centro de Processamento de Dados, eu fazia uma programação mais avançada nas máquinas que gravavam os diskettes com os dados de entrada dos sistemas.  A gente tinha que ter conhecimento da organização física do disco, trilhas, setores, pra poder preparar a informação.
E nesta mesma empresa o pessoal achou que eu tinha jeito pra coisa, fiz um curso de programação COBOL ministrado pela empresa com apoio da IBM, virei estagiário de programação...  e não parei mais, desde 1975!

11-   Como foi a sua trajetória de estudos, para chegar onde chegou e ser um programador reconhecido?
Olha, o meu primeiro curso foi COBOL, curso interno, da empresa.  Eu tinha Ensino Médio, comecei a trabalhar muito cedo, com 15 anos, na época nem existia faculdade de Computação, os que tinham bacharelado eram engenheiros, administradores, matemáticos...  E eu aprendi a programar e fui burro o bastante pra pensar que não precisava de faculdade.  Quando me dei conta do meu erro, já tinha família pra sustentar; estudar significaria privar-me e privar a familia de vários confortos.  Fiz a escolha errada.
Fui autodidata por 30 anos.  Depois do COBOL, aprendi FORTRAN IV – esse eu fiz curso também.  Basic eu aprendi sozinho.  dBase III e Clipper, também aprendi sozinho.  Depois paguei as contas por muito tempo usando MS-Access com Visual Basic for Applications, que também aprendi sozinho.  Aí foi a vez de aprender Oracle e MS-SQL Server – também autodidata.  Chegou a hora do .Net – primeiro VB.Net, depois C#.  Fiz curso de .Net na Sisnema e tenho Certificação Microsoft, mas quando eu fui fazer o curso eu já trabalhava com .Net há um bom tempo – eu mesmo me ensinei.  Esse foi sofrido.  Virei noites em claro.  Porque tinha mudado o paradigma, né gurias, .Net é orientado a objeto!  Comecei no .Net fazendo aplicações pra Desktop, depois aprendi a usar .Net para aplicações Web – aprendi dando manutenção pra uma aplicação Web!
Mas é como eu disse, eu cansei de ser “o cara que aprendeu na prática”.  Sei que as minhas opiniões vão ser muito mais levadas em conta, vou ser muito mais valorizado, se eu tiver graus acadêmicos pra garantir a minha proficiência.   E é justo que assim seja, porque a faculdade está  me ensinando muito!
Em 2008 eu... “hibernei” a minha empresa e voltei a trabalhar como empregado.  Isso me deu tempo pra, em 2009, começar o bacharelado em Sistemas de Informação.  Mais um ano, no máximo, depois que voltar ao Brasil, e eu me formo.
E eu sempre digo pros mais jovens – não façam como eu fiz, estudar depois de velho não é a melhor coisa, a minha vida foi – e é – cheia de coisas boas, mas teria sido melhor se eu tivesse priorizado os estudos na época certa! 
Mas eu ainda estou em marcha, meninas... Ainda estou em marcha! J



Desde já, agradecemos pela sua colaboração! 
Atenciosamente, Eduarda e Gabrielli .

Gurias, se quiserem saber um pouco mais das coisas que eu tenho feito, olhem a lista dos meus sites no Google.  Está em https://sites.google.com/site/pedropereirasites/ .  Lá tem links pra um site sobre .Net que eu montei quando era instrutor no SENAC, pra um site de “temas pra casa” que eu montei a partir do que cursei na ULBRA... Tem até um “tema de matemática” que eu ajudei minha filhinha a fazer e coloquei num site! J

Tem também um artigo que a ULBRA publicou sobre a minha vinda...

Acho que ver meu Linkedin vai esclarecer vocês bastante!

E o site da minha empresa - http://www.ppai.com.br/ .


Vocês podem olhar também essas coisinhas que eu postei no meu blog (não é um blog pessoal, é um blog de “tema pra casa”, coisa que tem muito muito MUITO aqui):

Trecho: “I shall also say that after 30 years working with Software Development, I started a major in Information Systems at ULBRA (Universidade Luterana do Brasil) in 2009.  I´m in United States for one year to attend some courses related with my major and then I´ll be back to Brazil to graduate.

Trecho: “Or we could think of office applications.  When I was young, I was a very good typist.  My first job (I was 14 or 15 years old) was in a public notary office, and we notary officers were known as top-level typists.  As a matter of fact, we had to restrain our speed to avoid “cramming” the types of our mechanical typewriters!  But now I don’t know if I’d be able to type a letter using a typewriter – so used I am to be able to correct mistakes, re-organize sentences and even the whole text, and all the other resources that text editors made available!
SKYPE
But, as an International Student, I think that an application which started as a “Voice over Internet Protocol using a Peer-to-Peer Communication Network” tool, around 2003, is the technology that I must focus in this article.  Yes, I use it to do business.  Yes, I use it to academic activities.  And, above it all, it allows me to be with my family.  I can not just type messages, not just talk with them, I can see them.  We can kind of “visit” each other, like one of these days when I just put my laptop, with the webcam turned on, in the kitchen and kept chatting with my daughter while cooking my dinner.  Or we can just let the connection open, the webcams turned on, and do our different stuffs, from time to time commenting anything that comes to our heads, feeling as we were together, in the same room.  No, it doesn’t “heals” homesickness, but surely is a lot better than a phone call, or just a letter each week.
I really must be grateful to Janus Friis (he is from Denmark and, coincidentally, I have relatives in Denmark and do use Skype to talk to them!) and Niklas Zennström (Sweden), who, in collaboration with the founders of Kazaa (a peer-to-peer file sharing application), created Skype!  The name of the project derives from the words “sky” and “peer”.

Trecho: “That’s an interesting question, since I’m old, and I’ve lived in a world not just without Internet, but without personal computers!
Well, I´ve lived in a world without computers, period!  J
My first contact with computers was around 1972.  I worked in the accounting department of a large chain of stores in Brazil, and we in the Pelotas (a city near the State´s capital) branch received some reports – inventory position, sales summaries, etc. – from the headquarters in Rio de Janeiro.  “These reports were printed by a computer, ooooh!”   But I had never seen a computer – neither none of my colleagues, I think.
Then in 1975 a new company was established in Pelotas (check the map below, or at Google - https://www.google.com/maps/place/Pelotas+-+RS,+Brazil/@-5.6312841,-102.7326842,3z/data=!4m2!3m1!1s0x95104991ad796447:0x99bab4aec1bd644f ), and it brought an “electronic brain” to the city!  And since accounting machines were the stuff most similar to computers in town, I have been hired.  I was 19, with no formal training in computing, none at all.  I attended an in-house COBOL programming course and became an intern programmer.
Bom, gurias, se tiverem tempo leiam esse post todo.  Creio que pode ser bem proveitoso.  Eu conto histórias lá de 1975, quando comecei a trabalhar com programação, e também coisas do ano passado e retrasado, quando trabalhei remoto, em home-office, pra uma companhia americana.

Vocês também podem dar uma olhada no meu Face - https://www.facebook.com/pedrofrancisco.pereira .
Eu conto muito da minha vida aqui nos meus posts.
Tem muita coisa lá de fotinho, de neve, de frio...  Até fotinho do meu quarto tem!  Muitos dos guris vão pra dormitório, mas eu tive sorte e reparto apartamento com mais três estudantes, dormimos em beliches.  Tem fotinho da comidinha brasileira que eu faço de vez em quando, do meu primeiro (e único, até agora) jogo de futebol americano (eles ficam bem loucos com isso!)...
Também tem muita partilha dos meus sentimentos, que as circunstâncias aqui seguidamente tornam muito intensos...
E também tem coisas da vida acadêmica.
Acho que se browsearem lá vão achar alguma coisa útil – e talvez até se divirtam um pouco!



Por exemplo, esse, do dia 14 de novembro:
Em casa. Estudando, ouvindo música, fazendo uns exerciciozinhos de tempos em tempos pra não ficar sonolento. Feijão e arroz no fogo, não quero gastar tempo indo no refeitório. Mas uso algum tempo pensando, não só nos estudos, na vida em geral. Eu tive uma percepção que o fato de ter assistido filme - em casa, como "diversão" - pela primeira vez aqui, sexta passada, tinha um significado. E hoje comecei a entender esse significado. Primeiro, o contexto: eu vi o meu primeiro filme no computador depois de passar algumas horas chafurdando em saudade, ouvindo a trilha sonora de um filme que eu vi com meu bebezinho Ana Valéria quando ela era pequena, chorando até ficar cansado e com os olhos inchados como se tivesse levado um soco bem dado em cada um. Parece que foi preciso isso pra que eu aceitasse que por agora não posso fazer nada a respeito dessa saudade, dessa distãncia, a não ser aceitar. Só por hoje, tudo que eu posso fazer é aceitar. Tive essa percepção antes mesmo de ter consciência disso. E assisti "Lone Ranger".  Hoje, bem confortável aqui no apartamento, sozinho, ouvindo música alto, cozinhando, estudando com calma e sem stress, estou tendo um bom dia. E percebi a minha resistência em ter um bom dia! Comecei a entender aqueles imigrantes que só falam a lingua do pais natal em casa - como muitos dos imigrantes alemâes, italianos e japoneses fizeram no Brasil, como os latinos fazem aqui. Ou "acho" que comecei a entender. No meu caso, sinto culpa! Eu me sinto culpado quando aprecio as coisas boas daqui! Como se eu estivesse traindo o Brasil, como se eu estivesse traindo os laços com as pessoas que eu amo! Mas estou despertando pra realidade que apreciar um lugar não significa - de forma nenhuma - deixar de amar outro. Fazer novos amigos não significa esquecer os antigos. Sim, eu percebo o dilema - daqui por diante, onde quer que eu esteja, estarei sentindo saudade de alguém. Mas isso não quer dizer que "caí numa armadilha", que tenho uma carga a suportar. Quer dizer sim que a vida está me dando uma grande dádiva, a riqueza de carregar no meu coração amigos e lembranças de várias partes do mundo! Se a saudade é o preço, eu o pago de boa-vontade. E agradeço! 
Eu resolvi o meu problema de me sentir culpado por estar me adaptando aqui, por estar apreciando a vida aqui? Ainda não. Sinto que não é só culpa, é medo. Quando aprecio a vida aqui, em algum lugar do meu coração sinto um medo terrível de me afastar dos meus bebês queridos. E a primeira reação é me voltar pro meu mundo interior, onde estou bem próximo dos meus bebezinhos, e virar as costas ao mundo real que está me rodeando. Mas essa não é a solução! Porque eu estou aqui, afinal? Não é pra mostrar aos bebês - e aos meus colegas de faculdade, a todos os jovens brasileiros, em certa medida - que a vida pode ser mais ampla do que imaginávamos? Que, ao menos só por hoje, neste momento da história do mundo e do nosso país - os portões do mundo estão abertos para nós, mesmo que não sejamos pessoas ricas? Então! Eu não estou aqui pra sofrer! Eu estou aqui pra correr atrás dos meus objetivos - e pra viver! Me adaptar, conhecer, fazer novos amigos! A minha mensagem não precisa ser, não deve ser "se vocês estiverem dispostos a sofrer muito, vocês podem estudar no exterior!". Eu quero que seja "Vocês podem estudar no exterior, vão enfrentar muitos desafios, mas vale a pena, porque vão aprender muito, vão crescer como profissionais e como pessoas, vão ter muitas alegrias!"
Então, queridos, eu renovo minha disposição e minha vontade de me adaptar aqui, de viver bem aqui, conhecer novas pessoas, sentir afeição por muitas delas - em duas palavras, ter sucesso e ser feliz. Eu sei que é isso que vocês meus amores aí no Brasil querem pra mim também. Ficar bem aqui não é traição, não é me afastar de vocês - é ser fiel a vocês.
Amo meu país, amo meus bebezinhos queridos, e é esse amor que vai me manter na direção certa - buscar o sucesso e a felicidade aqui, como faria no Brasil, como farei no Brasil quando voltar.
Obrigado por me ouvir, obrigado por estar comigo! Beijos!

Talvez gostem de um do dia 31 de outubro...
Resultado de meia hora na cama, viajando, naquele estado de "não sei se já acordei ou ainda estou dormindo": levantei e fiz os rabiscos abaixo. Que resumem uma idéia de como construir uma solução heurística e recursiva para um problema proposto: encontrar uma rota de múltiplas (número indeterminado) de conexões entre aeroportos sem voos diretos. Interessante principalmente por ser um tema relacionado ao clássico "Problema do Caixeiro Viajante".

A “Palestra do Tempo”, no dia 23 de outubro, foi divertida também!

Ah, no dia 16 de outubro eu faço um comentário sobre uma aula e incluo um link sobre um site que eu criei há um bom tempo atrás, quando eu era instrutor no SENAC!



11 de agosto eu tava pegando as malas... Cheguei aqui dia 13.  Partilhei no Face alguma coisa das minhas impressões...




Charqueadas, Novembro de 2014.

1 comment:

Daniel Taborda said...

Melhor que ler um livro....hehe...experiência pessoal!