Tuesday, January 24, 2017

FUNK – TRAGÉDIA DA PERIFERIA (ou A ADORAÇÃO DOS GRILHÕES)

FUNK – TRAGÉDIA DA PERIFERIA (ou A ADORAÇÃO DOS GRILHÕES)
Resumo: Pior que a pobreza estética, é a mensagem. O supremo ideal de vida é ter carros de luxo e dinheiro para festas. Mas a própria subcultura em que chafurdam os impede de adquirir estas coisas! Que fazem então estas pessoas de poder aquisitivo reduzidíssimo que endeusam o consumismo? Colocam-se de boa-vontade no papel de meliantes (os rapazes) e prostitutas (as moças)! Tornam-se um novo tipo de escravo, que adora seus grilhões! Temos que deter esta doença, parar o contágio e possibilitar uma ressurreição espiritual destes moços e moças.
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ESTÉTICA
Tive uma experiência de “exposição ao funk”. Estava numa situação em que não podia deixar o lugar, e não tive sucesso em impedir a... “coisa”. Digo “coisa” porque realmente me faltam as palavras pra descrever a experiência. Não é música, certamente! O pior nem é a cacofonia de sons sintéticos – e olha que já é horrível! Mas como podem passar por “canto” aqueles guinchos e grunhidos?
 Uma possível explicação é a ignorância, ou seja, eles nunca ouviram boa música! Não me refiro a “música erudita”, harmonias sofisticadas executadas por uma sinfônica. Não! Creio que muitos nunca ouviram um bom samba, um Paulinho da Viola, por exemplo!
Uma explicação mais assustadora é a degeneração: pessoas que uma vez tinham ouvido musical, expostas cotidianamente aos ruídos do funk, habituaram-se a eles e passaram mesmo a apreciá-los. O ser humano se adapta às mais terríveis circunstâncias...
MENSAGEM
Mas o nível estético abaixo de qualquer análise não é o pior do funk que eu ouvi.
 O pior é o que as letras diziam: “Ter um carrão, um motão e dinheiro pra beber champanhe é o supremo ideal da minha vida!”; “Sou bonita e gostosa e transo com qualquer um que tenha dinheiro!”.
Claro, há mensagens “acessórias”, glamorizando o uso de drogas e o sexo. Neste contexto, realmente não vejo diferença entre as drogas e o sexo – ambos são simplesmente ferramentas de alienação, de embrutecimento, a fim de impedir que a realidade da vida vazia e sem futuro que levam se imponha à sua percepção consciente.
Permitam-me alguns esclarecimentos, para que possam contextualizar:
Sou totalmente contra o uso de drogas, acredito que não valem o risco, acredito que faz parte do amadurecimento do ser humano aprender a lidar com as dores e as alegrias da vida sem recorrer a substâncias alteradoras de ânimo. E, sim, considero o álcool uma droga, portanto me abstenho também dele.
 E sou totalmente a favor do sexo! :-) Mas sexo com uma dimensão humana! Não acredito que seja necessário amor eterno e/ou relação estável para fazer sexo com alguém. Mas uma simpatia, um sorriso, uma percepção e um reconhecimento do outro, sim, são essenciais! Senão não é sexo humano, é fazer como faz meu cachorro, “Hum, cadelinha cheirosa, eu quero, eu quero e vou pular em cima!”. Esse é o sexo das letras de funk, meu cachorro podia tê-las escrito! Isso no caso dos rapazes, no caso das moças é pior ainda, pois sequer o instinto sexual animalesco entra em conta, e sim o ideal de que “Meu corpo é uma mercadoria valorizada, os melhores fregueses me procuram, obtenho os melhores negócios!”.
 Deixem-me reafirmar que a mensagem central é “O supremo ideal da minha vida é ter acesso a bens de consumo de luxo; para obtê-los entrego de boa vontade meu corpo e minha alma”. O mantra de uma religião que não chega nem a ser demoníaca, é uma religião do vazio total!
RAÍZES
Não sou sociólogo. Mas arrisco a hipótese de que o funk nasceu de uma degradação cultural, moral e espiritual de uma classe de jovens. Como a degradação chegou a este ponto? Ao longo de sucessivas gerações de pobreza, marginalização e aculturamento. Ausência de cultura popular e ausência de instrução formal; falta de convivência com os pais; creches e escolas deficientes ou inexistentes. Vida em condições que atentam contra a dignidade e falta de perspectivas de melhoria.
Nestas condições, as sementes que a publicidade das grandes empresas joga através da mídia encontra terreno fértil!
ESTADO ESPIRITUAL
Princípios éticos e espirituais costumavam vir da orientação paterna e/ou das religiões.
Os pais já não convivem com os filhos, pobres ou ricos, a regra hoje é "terceirizar" os filhos.
As religiões estão em crise – ou, para contornar a crise, abrem mão de seus dogmas.
Uma outra fonte de valores éticos e espirituais seria a filosofia. Mas esta está fora do alcance da maioria dos brasileiros. Incapazes de interpretar os textos mais simples, que fariam com livros de filosofia?
Temos portanto uma geração com absoluta falta de orientação e de valores éticos e espirituais.
ESTADO INTELECTUAL
Sem exercício, as capacidades se perdem. Temos portanto uma geração incapaz de pensar. Não me refiro apenas ao fato de que não sabem escrever corretamente. O problema é que não sabem expressar idéias! Pior ainda – a maioria parece nem ter idéia alguma para expressar! Tudo o que sabem fazer é, como papagaios, repetir o que ouvem, sem analisar e sem entender.
Temos hoje em nossas cidades uma classe de pessoas muito mais ignorante que os selvagens que vivem como na pré-história. O selvagem é culto: sabe coletar alimentos, sabe rastrear animais de caça, construir habitações, utensílios e ferramentas, conhece a meteorologia e o ritmo das estações... O ignorante urbano moderno é totalmente passivo e indefeso: não sabe cultivar seu alimento ou construir sua casa, não entende como funcionam os equipamentos que lhe fornecem água e energia, sendo incapaz de construí-los ou consertá-los... Não entende nem mesmo os fatos mais elementares do mundo onde vive! Experimentem perguntar a eles “Por que existem as estações do ano?”. Não sabem, nunca pararam para pensar nisso! Não sabem sequer escolher comida adequada, comem o que lhes apresentam - mesmo que sejam os produtos químicos e agrotóxicos dos alimentos fabricados pelas grandes corporações!
Nossa civilização permite a existência nestes termos. Mas isso não é ser um cidadão, não é ser “humano” no sentido lato da palavra. Massa de manobra, escravos, bucha de canhão, é o que nos tornamos quando permitimos que isto aconteça!
INCAPACIDADE E SUBMISSÃO
Não sou psicólogo, não vou tentar psicanalisar pessoas neste estado.
 Mas quero colocar algumas considerações práticas: penso que o “ignorante urbano” médio é incapaz de adquirir uma posição social que permita bons ganhos financeiros. Para os trabalhos bem remunerados, é essencial uma formação, seja técnica ou universitária. É importante ser capaz de se comunicar, se expressar com clareza. Portanto, a tragédia do funkeiro é que, embora esteja disposto a tudo em troca de bens de consumo de luxo, a própria indigência cultural em que chafurda torna estes bens inatingíveis, a não ser através do crime ou da prostituição!
Escravos, é o que sua alienação e sua ânsia de consumo os tornam!
Escravos ainda piores que os do Brasil oitocentista, porque estes eram escravizados pela força, e entre eles sempre houve os que lutavam pela liberdade, tanto individual quanto dos companheiros.
 Estes novos escravos apreciam e louvam sua escravidão, adoram seus grilhões! Não são necessários feitores nem chicotes, eles mesmos se põe de rastos! Que triste e dolorosa visão!
CONTÁGIO
Todos somos assim? Todos os jovens são assim? Não, certamente não, e estão ai centenas de agremiações e movimentos em prol de ideais, da humanidade, do meio ambiente, etc., para comprová-lo.
Mas infelizmente muitos estão neste estado. E – minha opinião pessoal, minha interpretação do que vi – os adeptos do funk não apenas estão num vazio espiritual e mental, estão no fundo-do-poço do vazio espiritual e mental! Sua abominável “música” e “cultura” são sintomas disto.
Mas – alerta! – a exposição aos sintomas pode propagar a doença!
Como eu disse antes, a exposição cotidiana ao funk pode fazer com que nos habituemos, tirar-nos a sensibilidade, achar natural ver jovens gritando palavrão nos ouvidos de nossas famílias...
Esta tese da degeneração cultural tem implicações terríveis: além da degradação do ser humano, individualmente, significa que a sociedade como um todo está exposta ao contágio!
PROVIDÊNCIAS
Eu não posso, como pai, como cidadão, como ser humano, permitir isso!
É meu dever agir!
Bem, na minha casa está tudo em ordem! Minha filha não ouve essa porcaria, as amigas da minha filha não ouvem esta porcaria. Em uma festa em que elas estavam e esses ruídos começaram a se fazer ouvir, ela e as amigas todas pararam de dançar e se sentaram! Isso que as indecências nem eram ditas às claras, eram apenas insinuadas... Quando outra menina veio convidá-las, sabem o que ela disse? “Não, não vou abdicar da minha dignidade!” Ela falou sorrindo, como se estivesse brincando, mas senti que queria expressar exatamente essa idéia! Orgulho da minha menina!
Mas como essa infecção social se fez presente em uma festa de adolescentes? O “DJ” gosta, o “DJ” acha que faz a festa ficar animada!
 Como eu agi? Fui até a mesa de som falar com ele! Encurtando a história: não enfiei-lhe a mão nos beiços nem quebrei-lhe os equipamentos porque era uma festa da escola e as professoras intervieram; também não quis expor a minha filha a ser a “filha do ogro que quebrou tudo e acabou com a festa”. A coisa ficou na troca de palavras (OK, um empurrãozinho, mas foi de leve ;-) ). Mas ele ficou bem avisado, um palavrãozinho nas músicas e enfiava-lhe a mão nos cornos!
E assim farei, sempre que se apresentar a ocasião! Claro, não estou propondo “ações suicidas”. Não dá pra enfrentar uma turma de funkeiros. Mas sempre que for viável, temos que agir! Não posso aceitar que um carinha estacione o carro e fique despejando esse lixo nos ouvidos da minha família! Não é preciso, não é certo, começar a intervenção sendo agressivo. Posso e devo ser cortês, explicar com toda a educação que está invadindo o meu espaço, que não aprecio, que não aceito, que acho ofensivo ele estar me atirando obscenidades. Se a pessoa for compreensiva e desligar a música ou for embora, ótimo. Senão... bem, já dizia o poeta payador Ricardo Güiraldes que “lo que más me gusta en la mano es su capacidad de se convertir em puño”!
E se forem três ou quatro funkeiros? Bem, não dependemos apenas dos punhos! Embora o governo brasileiro tenha desrespeitado o plebiscito e proibido o porte de armas (ora vejam só: agora só quem não respeita as leis porta armas!), existem as armas não-letais, bastante eficazes – gás, eletricidade...
 E existe também a ajuda mútua! Os funkeiros andam em bandos? Se nos unirmos, se nos organizarmos, com meia-dúzia de telefonemas reuniremos também um bando de cidadãos que não aceitam que suas familias sejam ofendidas, prontos a usar um taco de beisebol no botão “desliga” do aparelho de som...
Vejam bem, primeiro o diálogo, a cortesia, o esclarecimento, a ponderação. Mas se isto não funcionar, aceitaremos passivamente que nosso espaço, nossas familias, sejam enxovalhados? Somos homens ou ratos?