Então, pessoal, o Dr. Maurício Escobar, que foi meu professor na ULBRA, achou que eu seria um bom assunto para um trabalho dos alunos do curso de Informática do IFSul - Charqueadas.
Eu fiquei muito satisfeito em poder colaborar com o pessoal, até porque o Professor Maurício foi dos melhores professores que eu já tive.
Houve até uma parte "pitoresca" quanto às respostas, eu estava viajando, feriado de Thanksgiving, e parte dos questionários eu respondi dentro do carro, viajando entre New Orleans e Houston; outra parte foi respondida em hotéis.
Bom, o fato é que nas respostas - em boa parte graças às excelentes perguntas das meninas - eu digo muita coisa relativa à profissão, muita coisa das minhas crenças pessoais, e resolvi guardar isso aqui no blog.
Além de ser útil pra mim, quem sabe não pode ter algum valor pra alguém mais?
Esta entrevista, feita pela Eduarda e pela Gabrieli, é a primeira de uma série de três.
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Olá Pedro, somos duas alunas do primeiro ano, do curso de
Informática no Instituto Federal Sul-Rio-Grandense Campus Charqueadas, Eduarda
e Gabrielli. O professor Maurício Escobar, nos pediu um trabalho sobre as áreas
de informática, e deveríamos entrevistar uma das pessoas que ele nos indicou.
Escolhemos fazer a entrevista com o senhor, pois temos muito interesse na área
de programação. Ficaremos muito gratas, se o senhor poder nos ajudar
respondendo 11 perguntas. Segue em anexo o questionário.
Gurias, eu
respondi as perguntas de vocês e, se vocês olharem depois do fim do
questionário, vâo ver que eu coloquei um monte de coisa mais lá. Leiam se quiserem, se tiverem tempo. Provávelmente coloquei coisa demais, que
vocês não precisam nem querem. É que eu,
como a maioria dos velhos, gosto de contar “causos”...
1-
Viajar para um lugar
diferenciado em que não se conhece ninguém é algo um tanto complicado, isso te
prejudicou de alguma forma nos estudos?
É uma dificuldade a mais,
sim.
O sistema de ensino é diferente. É muito
homework (o velho “tema pra casa”). É
esperado que o aluno trabalhe duas horas em casa pra cada hora que passa em aula. E eles passam tarefas de acordo com
isso. Eu assisto aula doze horas por semana; isso me faz trabalhar no minimo 40 horas por
semana, entre aula e homework.
Eu achei as aulas muito mais interativas que no Brasil. O professor explica alguma coisa e começa a
perguntar. Ele não está querendo que
repiram o que ele disse, ele quer que a turma construa interpretações e
apresente idéias originais em cima do que ele disse. E alguns dos estudantes americanos são muito
bons nisso, eles pensam rápido, eles apresentam idéias criativas.
Outra diferença muito
grande é que tudo tem “projeto prático”.
Não existe cadeira em que tu lês alguns livros, aprende a resposta
correta segundo a teoria, marca as cruzes nos lugares certos na prova e pronto,
tirou nota boa! Pra vocês fazerem uma
idéia, uma cadeira “fácil”, Introdução às Ciências da Computação, tem trabalhos
de pesquisa (é para essa cadeira que eu tenho que manter o blog, o professor dá
um tema por semana), tem um projeto de pesquisa em um assunto para cada grupo
(são 4 ou 5 em cada grupo) e este projeto de pesquisa inclui fazer um vídeo,
uma apresentação Power Point e um “Trecho de Livro Didático” sobre o assunto
designado. Não bastasse isso tudo, ainda
tem exercícios de programação com uma ferramenta chamada “Scratch”, criada pelo
MIT, e o trabalho final de programação vai ser criar um video game. Pode ser simples, mas tem que funcionar. A cadeira de Engenharia de Sistemas é
construir um sistema usando Metodologia Ágil – sistemas reais, com clientes
reais, para ajudar ONGs aqui da cidade. É tudo assim. Tem saber fazer.
A língua também é uma
dificuldade. Eu vim com boa nota no
TOEFL. Mas mesmo assim, na minha
primeira terça-feira (terças-feiras eu tenho aula das 09:00 às 12:30 e depois
das 14:30 às 15:45), eu saí da última aula, fui me encaminhando pra Biblioteca
pra ver se tinham os livros que eu ia precisar, e antes de chegar lá mudei o
rumo, fui pro apartamento, me joguei na cama de roupa e tudo e fiquei lá
deitado umas três horas, como se tivessem me dado uma paulada na cabeça – tal
foi o cansaço de quase seis horas de aula em inglês. Isso melhorou em seguida, tipo 15 dias depois
eu já saía da última aula “normal”, em condições de ir pra Biblioteca estudar.
Mas uma coisa é ficar
fácil entender o professor, outra coisa é participar de discussões de grupo –
quando além de todos falarem ao mesmo tempo, a sala está cheia de gente
falando. Nessas condições, eu às vezes
ainda tenho que pedir pras pessoas repetirem as coisas.
E nem sempre é fácil
entender o professor, porque nem todos são americanos. Eu tenho aula com um chinês que é bem difícil
de entender, e com um francês que tem um sotaque carregado e no início era
muito difícil entender, agora eu já me acostumei. Acho que agora é mais fácil pra mim entender
o professor francês que pros americanos.
E (quase) todo mundo
estuda muito aqui. As salas de estudo
ficam abertas 24 horas, 7 dias por semana. E sempre tem gente. Eu já fui na Biblioteca domingo de noite e
tava lotada, bombando! Negadinha
esfregando os olhos, cansada, e dê-lhe a estudar. Quem quer tirar nota boa tem que fazer assim,
a não ser que seja gênio. Também se vê
gente dormindo nos sofás da Biblioteca, até nas mesas dos laboratórios de
computação. Eu pensava que eram
vagabundos, até que eu mesmo fiquei tão cansado que entre uma aula e outra ia
pra Biblioteca estudar e dormia em cima do computador.
Livro. Livro é caro aqui! E tem muita leitura obrigatória que não tem
na Biblioteca – na boa e velha ULBRA, no Brasil, isso quase nunca acontecia. Se tu não comprares livro on-line, nem de
segunda mão, pode-se fácilmente gastar 400 ou 500 dólares em livros num
semestre. Se comprar de segunda mão, o
valor cai pra menos da metade. E se
tiver on-line, aí é bem acessível. Mas
TEM que ter os livros e TEM que ler os livros.
Se não ler, vai chegar na aula e vai ficar “boiando”, porque o professor
presumindo que tu estás a par do conteúdo do livro.
Por outro lado, também se
tem facilidades que não tem no Brasil.
Os professores tem “office hours” – horários em que ficam à disposição dos
alunos para tirarem dúvidas. Quando nos
receberam aqui, salientaram que a gente ficasse bem à vontade pra procurá-los e
pedir ajuda, porque eles são pagos e bem pagos pra ficar à disposição. Os professores também tem “assistentes”, que
ajudam quando a demanda é grande. E tem
também “monitoria” gratuita – alunos que ajudam alunos – pras matérias que são
tradicionalmente mais difíceis – Cálculo, essas coisas. Infelizmente pra maioria dos cursos (eles
chamam de “course” o que nós chamamos no Brasil de “cadeira” ou “matéria”, isso
me confundiu muito quando cheguei) de Sistemas de Informação não tem
monitoria. Mas eu já sou membro do
Núcleo da Association for Computing Machinery que tem aqui na Universidade, e
tem sessões de ajuda todas as terças.
Isso é outra coisa que
“bomba” aqui – as Associações de Estudantes e os Grupos de Estudo e
Debate. Tem grupo de Robótica, de Games,
de Cybersecurity, tem Mulheres na TI, vários, vários. E os professores apoiam, mas quem faz a coisa
funcionar são os alunos mesmo. Gente que
se organiza, gerencia o grupo, gente que trabalha, pesquisa, apresenta
trabalhos interessantes...
Também tem MUITA interação
com empresas, GRANDES empresas. Eu fui
“fiscal” de um concurso de programação que aconteceu aqui. Bagulho punk!
Dez problemas foram apresentados, tinham um dia pra resolver. Trabalho em grupos de três, mas só um
computador por grupo. Nenhum grupo
resolveu todos os problemas, na verdade nenhum grupo resolveu mais de cinco
problemas, e muitos não resolveram nenhum!
Difíceis mesmo, o bagulho era islâmico, como dizem uns coleguinhas aí no
Brasil! J
Mas sabem qual era o
prêmio? Bolsas pra dois anos de
pós-graduação! E o concurso era
patrocinado por empresas como Phillips 66, Garmin, Cerner, Koch... empresas
grandes, excelentes empregadores em potencial, todas de olho no pessoal que
estava concorrendo.
Isso acontece o tempo todo
aqui, empresas visitando. Na minha sala
de aula já esteve o pessoal da Google!
Eles vem, fazem palestras, conversam com a gente, é contigo conseguir se
destacar e chamar a atenção deles!
Mas se tu não conseguires
chamar a atenção destas grandes empresas, não tem problema, tem duas vezes por
ano a “Career Fair”. Empresas de todos
os portes, de todas as áreas de atuação, vem aqui, montam stands dentro do
estádio de futebol, e os estudantes (todos de terno e gravata, com um bolinho
de curriculuns embaixo do braço) passam dois dias visitando os stands, deixando
curriculum, conversando com os recrutadores.
Eu já fui, a gente tem que fazer estágio, e é normal aqui começar a
procurar estágio quase um ano antes do momento de realmente fazer. Detalhe: o terno que eu usei era doado, eles
fazem uma “feira de doações” na Union (o DCE aqui deles) pra quem não tem
dinheiro pra comprar roupa. Também tem
um setor da Faculdade onde te ajudam a montar o teu curriculum (curriculum americano
é diferente de como se usa no Brasil) e orientam como se portar nas
entrevistas.
2-
O que te motivou a realizar o
intercâmbio?
Pois então, gurias, o fato é que eu trabalho
com TI há 40 anos e só consegui ser Diretor na minha própria empresa! J Eu me considero um profissional bem bom, já
cheguei na ULBRA em 2009 com bastante conhecimento técnico, e de lá pra cá
aprendi bastante sobre os conceitos teóricos da profissão também. Mas sem ser bacharel, ninguém dá bola pras
minhas idéias. Em Desenvolvimento de
Sistemas, os resultados que a maioria das grandes companhias obtém é MUITO
ruim. Sistemas que não funcionam
direito, que não fazem o que deviam fazer, que custam muito mais do que foi
estimado, que precisam de manutenção constante, que são entregues muito depois
do prazo. Claro que tem alguma coisa
MUITO errada com a maneira que elas trabalham!
E eu tenho idéias pra obter resultados melhores! Quero estudar pra poder elaborar, refinar,
definir essas idéias. E quero ter um
status acadêmico porque é a única maneira de ser ouvido.
Meu objetivo quando voltar
ao Brasil é me formar, fazer uma especialização e ser professor – se possível
na boa e velha ULBRA, onde eu estudo. Se
eu puder fazer alguma pesquisa, OK, fico só na Universidade. Senão, quero ser professor tipo 20 horas e
trabalhar com consultoria – Modelagem de Negócios, Análise de Sistemas, Liderança
de Equipes de Desenvolvimento...
Mas uma motivação bem
forte veio das minhas filhinhas. A mais
moça (15 anos) falava em estudar no Exterior, mas tinha medo. Eu resolvi mostrar pra ela que não é nenhum
bicho de sete cabeças, que não precisa ser gênio, é só se aplicar nos
estudos. Nesse momento, no nosso País,
as portas estão abertas pra esse tipo de experiência. A mais velha (30 e poucos) começou uma
faculdade e parou, se formou Técnica em Enfermagem, trabalha com isto. Depois que eu vim pra cá, ela decidiu que vai
voltar pra faculdade! J
Eu vim pra crescer como
profissional, pra expandir o meu mundo.
Mas também pra mostrar pra gurizada toda – filhos, amigos, colegas da
faculdade – que dá pra fazer. Que eles
podem vir também.
3-
O que você estudou
detalhadamente, nos EUA?
Estou
fazendo em 4 “courses” – Introduction to Computing Science, Enterprise
Information Systems, Software Design Project e Programming Technics with Big
Data.
E, como eu já falei pra
vocês, tudo isso é visto em profundidade.
Semestre que vem tenho que
fazer mais 4 courses. A minha carga
horária semanal tem que ser no mínimo 36 horas de estudo, para manter o meu
status de estudante em tempo integral e portanto manter o VISA J-1 que me
permite ficar nos States.
4-
A profissão de programador te
influenciou de algum modo na vida pessoal?
Pôs olhem, gurias, eu digo
muitas vezes que “o ferreiro molda o ferro mas o ferro também molda o
ferreiro”. Sim, a minha profissão me
influenciou, sem dúvida nenhuma! Verdade
que quando eu comecei a trabalhar com programação, em 1975, eu “me achei”,
senti que era feito praquilo mesmo. Mas
sem dúvida a profissão acentuou traços da personalidade e comportamentos. Por exemplo, eu sempre sei quanto dinheiro
tenho no bolso e no banco. Tenho
controles de tudo, anoto os gastos e sei o percentual de tipo de gasto onde uso
meu dinheiro. Estou sempre lendo sobre
eficiência, sobre gerenciamento do tempo. Sou meio obcecado por achar a maneira
mais eficiente de fazer as coisas – qualquer coisa. Isso vai até os meus passatempos, como me
exercitar – me exercito de acordo com planos que eu monto e controlo. Eu também sou um bom dono de casa, cozinho,
lavo, varro – e numa fase em que, por problemas de doença na familia, eu era o
responsável pela casa (trabalhava, estudava e cuidava da casa, até hoje não sei
como fiz isso), eu montei um sistema de gerenciar as compras de mantimentos e
as refeições – eu e minha filha nos reuníamos, montávamos o cardápio pra semana
– planejar pra semana nos permitia ter uma alimentação mais equilibrada – e
íamos ao super não com uma lista de compras, mas com uma lista de pratos que
íamos preparar. Comíamos muito bem,
comida gostosa e saudável, e gastávamos menos que antes de usar o “sistema”! J E como eu tinha o cardápio
da semana toda, algumas coisas eu podia cozinhar no fim de semana e congelar,
depois era só botar no microondas e comer!
Ah, já ia esquecendo de
falar – nessa época eu bolei uma rotina que me permitia arrumar a casa e me
exercitar poupando tempo! Tipo, faz 20
apoios, e enquanto eu recupero o fôlego eu varro metade da sala. Faz 10 barras, e enquanto eu recupero o
fôlego termina de varrer a sala.
Eficiência, gerenciamento do tempo!
Funcionava muito bem! J Ainda faço isso aqui no
apartamento.
Também bolei uma “stand-up
workstation” – ou seja, um jeito de trabalhar de pé, pra aliviar minhas
costas. Custo zero – é só botar umas
caixas de papelão em cima da escrivaninha e botar o laptop em cima! Quando eu trabalhei em home-office,
trabalhava de pé pela manhã e sentado à tarde.
Alivia a coluna e as pernas! Se a
gente não usar a lógica, se guiar pelo “senso comum”, descarta esse tipo de
idéia como “loucura”. Mas se faz sentido
pela lógica, se traz benefícios, pra um programador não importa que pareça
estranho!
5-
Se poder, nos explique empresa
de desenvolvimento de softwares e consultoria.
O meu produto principal
são “sistemas customizados”. Sistemas
que atendem um nicho de mercado que não tem “pacotes” prontos – ou para o qual
os “pacotes” não atendem às necessidades dos meus clientes.
Em um negócio “completo”,
em que o cliente compre tudo que eu tenho pra oferecer, a parte de
“consultoria” começa com a Modelagem dos Processos de Negócio. Uso BPMN pra levantar e registrar os
processos como são no momento.
Geralmente esse levantamento resulta em possibilidades de otimização dos
processos. Não estamos ainda falando de
TI, estamos falando de processos de negócio, então a cultura da empresa tem que
ser levada em conta pra qualquer alteração que se cogite. Uma vez que se tenha definidos os processos
de negócios, pode-se pensar em desenvolver um Sistema de Informação que suporte
esses processos. Normalmente faço isso
com diagramas UML – Casos de Uso, Atividades, Estados – para definir lógicamente o sistema. Para os principais Casos de Uso, deve-se
também definir o formato de interface de usuário. Depois se define qual ferramenta vai ser
utilizada. Isso depende do porte do
sistema, de quanto dinheiro o cliente quer gastar, e também da cultura da
empresa. Se os caras só trabalham com
software livre, não vamos querer construir um sistema com Microsoft .Net. O próximo passo é projetar físicamente o
sistema – especificação técnica. Costumo
começar por um diagrama E-R e Diagramas de Classes, talvez Diagramas de
Sequencia.
Durante todo esse
processo, é ESSENCIAL que o cliente esteja envolvido no processo. Quem vai usar o sistema tem que estar sendo
ouvido o tempo todo, os executivos responsáveis pelo projeto tem de dar e
receber feedback constante. Sem o
envolvimento dos usuários não há sistema que funcione!
E temos que aceitar a
verdade que a Metodologia Ágil prega – “não é possível levantar TODOS os
requisitos”. Temos que aceitar
isso. Não dá pra esperar saber TUDO
sobre o sistema antes de começar a produzir software. É preciso conviver com alguma incerteza. Quanta incerteza? Bom, aí entra, eu acho, o feeling do
profissional experiente, que consegue se inteirar de tudo que é importante, de
tudo que é relevante para a arquitetura da solução a ser construída, e deixar
para depois os detalhes que não afetam a arquitetura, que são só questão de
detalhamento de recursos do sistema.
Além da documentação,
pode-se ao mesmo tempo construir protótipos da aplicação. Eu gosto muito do MS-Access pra isso. Pode-se construir todo o banco de dados – e
migrar tudo depois pra Oracle ou SQL Server com a maior facilidade, pode-se
criar um interface de usuário funcional, para que os clientes experimentem,
analisem e sugiram melhoramentos... Os
clientes entendem muito melhor um protótipo do que qualquer documentação.
Feito isso... é começar os
Sprints! Definir o sprint backlog,
construir, testar, homologar, colocar em produção. O ideal é de 15 em 15 dias entregar novos
componentes de software funcionando.
Bom, isso é a parte
técnica. E quanto ao dinheiro? Bom, meninas, se eu fosse bom no
gerenciamento financeiro, eu estaria rico! J Mas o ideal, o que eu faço
com os clientes que me conhecem, é dar uma estimativa geral das horas-homem que
o projeto vai tomar, dar um preço por hora-homem, e – aprovado isso – tocar o
barco.
Quando o cliente não me
conhece, geralmente ele não topa o esquema horas-homem. Daí eu coloco um valor pra cada tela e um
valor pra cada relatório. À medida que o
sistema vai ganhando mais telas e mais relatórios, eu acrescento um “percentual
de complexidade” em em cima dos valores – porque eu presumo que “embaixo” de
muitas telas e muitos relatórios vai haver um mecanismo cada vez mais complexo
pra fazer eles funcionarem harmonicamente.
Assim, se o cliente decidir que não quer mais um relatório, ou que quer
uma tela a mais, a gente não tem que renegociar nada – o preço foi definido em
relação ao número de objetos que eu vou construir.
Se a gente não usar a
metodologia “cascata” – e ninguém mais usa isso hoje em dia – esse é o único
jeito de trabalhar.
6-
Como é trabalhar com
programação nos dias de hoje?
Olha, a base é como sempre
foi. O principal fundamento é lógica de
programação, dominar algoritmos. Tem que
entender e dominar o paradigma das linguagens de programação que usa –
procedurais, orientadas a objeto, funcionais...
Tem gente que fala que pra começar a usar uma nova linguagem é muito
fácil, é só aprender a sintaxe. Pode ser
e pode não ser. É só aprender a sintaxe
quando a gente já conhece o paradigma da nova linguagem. Tipo, se eu sei Basic, aprender Python é
muito fácil. Mas pra quem trabalha com
ASP “clássico”, aprender Java não é só aprender sintaxe, tem que aprender a
Orientação a Objetos! E pra aprender a
usar – corretamente – Java Script, tem que entender o paradigma de uma
linguagem orientada a funções!
Essas diferenças eu acho
que são muito subestimadas nos dias de hoje.
Tem muita gente programando em meia-dúzia de linguagens, e não sabendo
nenhuma a fundo. SQL, então, é muito mal
usado, vejo esquemas de bancos de dados que não seguem as formas normais, a
rigor nem são bancos de dados, são “amontoados de tabelas”. E as consultas então... Funcionam, funcionam enquanto tem meia dúzia
de usuários acessando teu web site, mas não tem performance, não tem
escalabilidade... Bota cem criaturas
penduradas no teu site e tu vais ter um “denial of service”!
Nesse ponto eu sou
conservador, acho que tem que respeitar as ferramentas, se dedicar a aprender
bem algumas, e não tentar usar toda novidade que aparece. Se tem necessidade, se vai permitir fazer
alguma coisa que a ferramenta atual não oferece, OK, vamos pegar a
novidade. Senão, melhor se aprofundar no
que está usando, pra usar cada vez melhor.
7-
Como ter sucesso na sua
profissão?
O que é sucesso? Acho que varia de pessoa pra pessoa. O meu
sucesso é resolver os problemas dos meus clientes. É chegar numa empresa onde todo mundo está
stressado, preocupado, e quando eu termino o meu trabalho está todo mundo contente. E, claro, conseguir ganhar a minha vida com
isso. Eu tenho a maior satisfação no
fato de ter um bom relacionamento com todos os meus ex-funcionários e todos os
meus ex-clientes. Isso é essencial pra
mim. Fazer negócios que sejam bons pra
todos os envolvidos; eu e minha equipe levamos pra casa o dinheirinho do leite
das crianças, dividido entre nós numa base justa, e os clientes tem seus
problemas resolvidos.
Sucesso pra mim também é
ser técnicamente competente e não parar de aprender nunca. E fazer isso em grupo, em colaboração com
colegas, aprender juntos, forjar laços, ajudar uns aos outros.
Finalmente – ter boa
reputação no mercado, pra poder escolher meus clientes. Não trabalhar pra companhias de cigarros, ou
bebidas alcoólicas, ou junk food, por exemplo.
Porque eu não apóio essas coisas, não quero trabalhar pra favorecer uma
coisa que eu não apóio.
8-
Se não for muito pessoal, qual
o salário de um programador nos dias de hoje?
Bah, gurias, varia muito. Tem uns caras-de-pau querendo contratar
programador qualificado por 1500 reais. Não sei bem porque, mas me parece que o
pessoal do PHP tá mais exposto a essa exploração. Não tem sentido, porque a ferramenta é boa!
Eu acredito que esse tipo
de exploração tem que ser boicotado, que a gente tem que buscar alternativas,
se organizar em cooperativas, trabalhar como autônomo, evitar ao máximo aceitar
esses empregos. Não nos qualificamos pra
ficar ganhando salário de fome, ficar usando a nossa capacidade pra encher o
bolso de sanguessugas!
Felizmente o normal é bem
acima disso. As melhores empresas pagam
mais de 4000. Creio que se tu tiveres
algum tempo de casa numa Dell ou HP da vida, isso dobra ou quase dobra. Meu último emprego como Consultor dava 6000
por mês. Mas eu sei que isso era acima
da média do mercado.
Eu “acho” que essa média
hoje seria... entre 3 e 4 mil reais pra
desenvolvedores bons em Java ou em C#.
9-
O que fez o senhor se
interessar por programação?
Bom, essa história eu
conto num dos posts do meu blog. Vejam
lá. Eu era guri, 18 anos, operador de
máquina de contabilidade, e acabei sendo contratado por uma empresa de
processamento de dados.
10-
Como foi o seu primeiro contato
com a programação?
Olha, com “programação” em
geral acho que foi nas máquinas de contabilidade mesmo. Era uma programação muito primitiva, uma coisa
física, a gente trocava partes mecânicas da máquina pra alterar o lugar onde o
débito, o crédito e o saldo eram impressos nos nossos livros fiscais. Quando eu passei a trabalhar com computação
mesmo, num Centro de Processamento de Dados, eu fazia uma programação mais
avançada nas máquinas que gravavam os diskettes com os dados de entrada dos
sistemas. A gente tinha que ter
conhecimento da organização física do disco, trilhas, setores, pra poder
preparar a informação.
E nesta mesma empresa o
pessoal achou que eu tinha jeito pra coisa, fiz um curso de programação COBOL
ministrado pela empresa com apoio da IBM, virei estagiário de
programação... e não parei mais, desde
1975!
11-
Como foi a sua trajetória de
estudos, para chegar onde chegou e ser um programador reconhecido?
Olha, o meu primeiro curso
foi COBOL, curso interno, da empresa. Eu
tinha Ensino Médio, comecei a trabalhar muito cedo, com 15 anos, na época nem
existia faculdade de Computação, os que tinham bacharelado eram engenheiros,
administradores, matemáticos... E eu
aprendi a programar e fui burro o bastante pra pensar que não precisava de
faculdade. Quando me dei conta do meu
erro, já tinha família pra sustentar; estudar significaria privar-me e privar a
familia de vários confortos. Fiz a escolha
errada.
Fui autodidata por 30
anos. Depois do COBOL, aprendi FORTRAN
IV – esse eu fiz curso também. Basic eu
aprendi sozinho. dBase III e Clipper,
também aprendi sozinho. Depois paguei as
contas por muito tempo usando MS-Access com Visual Basic for Applications, que
também aprendi sozinho. Aí foi a vez de
aprender Oracle e MS-SQL Server – também autodidata. Chegou a hora do .Net – primeiro VB.Net,
depois C#. Fiz curso de .Net na Sisnema
e tenho Certificação Microsoft, mas quando eu fui fazer o curso eu já
trabalhava com .Net há um bom tempo – eu mesmo me ensinei. Esse foi sofrido. Virei noites em claro. Porque tinha mudado o paradigma, né gurias,
.Net é orientado a objeto! Comecei no
.Net fazendo aplicações pra Desktop, depois aprendi a usar .Net para aplicações
Web – aprendi dando manutenção pra uma aplicação Web!
Mas é como eu disse, eu
cansei de ser “o cara que aprendeu na prática”.
Sei que as minhas opiniões vão ser muito mais levadas em conta, vou ser
muito mais valorizado, se eu tiver graus acadêmicos pra garantir a minha
proficiência. E é justo que assim seja, porque a faculdade
está me ensinando muito!
Em 2008 eu... “hibernei” a
minha empresa e voltei a trabalhar como empregado. Isso me deu tempo pra, em 2009, começar o
bacharelado em Sistemas de Informação.
Mais um ano, no máximo, depois que voltar ao Brasil, e eu me formo.
E eu sempre digo pros mais
jovens – não façam como eu fiz, estudar depois de velho não é a melhor coisa, a
minha vida foi – e é – cheia de coisas boas, mas teria sido melhor se eu
tivesse priorizado os estudos na época certa!
Mas eu ainda estou em
marcha, meninas... Ainda estou em marcha! J
Desde
já, agradecemos pela sua colaboração!
Atenciosamente,
Eduarda e Gabrielli .
Gurias, se quiserem saber um pouco mais das coisas que
eu tenho feito, olhem a lista dos meus sites no Google. Está em https://sites.google.com/site/pedropereirasites/
. Lá tem links pra um site sobre .Net
que eu montei quando era instrutor no SENAC, pra um site de “temas pra casa”
que eu montei a partir do que cursei na ULBRA... Tem até um “tema de
matemática” que eu ajudei minha filhinha a fazer e coloquei num site! J
Tem também um artigo que a ULBRA publicou sobre a
minha vinda...
Acho que ver meu Linkedin vai esclarecer vocês
bastante!
Vocês podem olhar também essas coisinhas que eu postei
no meu blog (não é um blog pessoal, é um blog de “tema pra casa”, coisa que tem
muito muito MUITO aqui):
Trecho: “I
shall also say that after 30 years working with Software Development, I started
a major in Information Systems at ULBRA (Universidade Luterana do Brasil) in
2009. I´m in United States for one year
to attend some courses related with my major and then I´ll be back to Brazil to
graduate.”
Trecho: “Or we
could think of office applications. When
I was young, I was a very good typist.
My first job (I was 14 or 15 years old) was in a public notary office,
and we notary officers were known as top-level typists. As a matter of fact, we had to restrain our
speed to avoid “cramming” the types of our mechanical typewriters! But now I don’t know if I’d be able to type a
letter using a typewriter – so used I am to be able to correct mistakes,
re-organize sentences and even the whole text, and all the other resources that
text editors made available!
SKYPE
But, as an International Student, I think that an application which
started as a “Voice over Internet Protocol using a Peer-to-Peer Communication
Network” tool, around 2003, is the technology that I must focus in this
article. Yes, I use it to do
business. Yes, I use it to academic
activities. And, above it all, it allows
me to be with my family. I can not just
type messages, not just talk with them, I can see them. We can kind of “visit” each other, like one
of these days when I just put my laptop, with the webcam turned on, in the
kitchen and kept chatting with my daughter while cooking my dinner. Or we can just let the connection open, the
webcams turned on, and do our different stuffs, from time to time commenting
anything that comes to our heads, feeling as we were together, in the same
room. No, it doesn’t “heals”
homesickness, but surely is a lot better than a phone call, or just a letter
each week.
I really must be grateful to Janus Friis (he is from Denmark and,
coincidentally, I have relatives in Denmark and do use Skype to talk to them!)
and Niklas Zennström (Sweden), who, in collaboration with the founders of Kazaa
(a peer-to-peer file sharing application), created Skype! The name of the project derives from the
words “sky” and “peer”.”
Trecho: “That’s
an interesting question, since I’m old, and I’ve lived in a world not just
without Internet, but without personal computers!
Well, I´ve lived in a world without computers, period! J
My first contact with computers was around 1972. I worked in the accounting department of a
large chain of stores in Brazil, and we in the Pelotas (a city near the State´s
capital) branch received some reports – inventory position, sales summaries,
etc. – from the headquarters in Rio de Janeiro.
“These reports were printed by a computer, ooooh!” But I had never seen a computer – neither
none of my colleagues, I think.
Then in 1975 a new company was established in Pelotas (check the map
below, or at Google -
https://www.google.com/maps/place/Pelotas+-+RS,+Brazil/@-5.6312841,-102.7326842,3z/data=!4m2!3m1!1s0x95104991ad796447:0x99bab4aec1bd644f
), and it brought an “electronic brain” to the city! And since accounting machines were the stuff
most similar to computers in town, I have been hired. I was 19, with no formal training in
computing, none at all. I attended an
in-house COBOL programming course and became an intern programmer.”
Bom, gurias, se tiverem tempo leiam esse post todo. Creio que pode ser bem proveitoso. Eu conto histórias lá de 1975, quando comecei
a trabalhar com programação, e também coisas do ano passado e retrasado, quando
trabalhei remoto, em home-office, pra uma companhia americana.
Eu conto muito da minha vida aqui nos meus posts.
Tem muita coisa lá de fotinho, de neve, de frio... Até fotinho do meu quarto tem! Muitos dos guris vão pra dormitório, mas eu
tive sorte e reparto apartamento com mais três estudantes, dormimos em beliches. Tem fotinho da comidinha brasileira que eu
faço de vez em quando, do meu primeiro (e único, até agora) jogo de futebol
americano (eles ficam bem loucos com isso!)...
Também tem muita partilha dos meus sentimentos, que as
circunstâncias aqui seguidamente tornam muito intensos...
E também tem coisas da vida acadêmica.
Acho que se browsearem lá vão achar alguma coisa útil
– e talvez até se divirtam um pouco!
Por exemplo, esse, do dia 14 de novembro:
Em casa.
Estudando, ouvindo música, fazendo uns exerciciozinhos de tempos em tempos pra
não ficar sonolento. Feijão e arroz no fogo, não quero gastar tempo indo no
refeitório. Mas uso algum tempo pensando, não só nos estudos, na vida em geral.
Eu tive uma percepção que o fato de ter assistido filme - em casa, como
"diversão" - pela primeira vez aqui, sexta passada, tinha um
significado. E hoje comecei a entender esse significado. Primeiro, o contexto:
eu vi o meu primeiro filme no computador depois de passar algumas horas
chafurdando em saudade, ouvindo a trilha sonora de um filme que eu vi com meu
bebezinho Ana Valéria quando ela era pequena, chorando até ficar cansado e com
os olhos inchados como se tivesse levado um soco bem dado em cada um. Parece
que foi preciso isso pra que eu aceitasse que por agora não posso fazer nada a
respeito dessa saudade, dessa distãncia, a não ser aceitar. Só por hoje, tudo
que eu posso fazer é aceitar. Tive essa percepção antes mesmo de ter
consciência disso. E assisti "Lone Ranger". Hoje, bem confortável aqui no apartamento,
sozinho, ouvindo música alto, cozinhando, estudando com calma e sem stress,
estou tendo um bom dia. E percebi a minha resistência em ter um bom dia!
Comecei a entender aqueles imigrantes que só falam a lingua do pais natal em
casa - como muitos dos imigrantes alemâes, italianos e japoneses fizeram no
Brasil, como os latinos fazem aqui. Ou "acho" que comecei a entender.
No meu caso, sinto culpa! Eu me sinto culpado quando aprecio as coisas boas
daqui! Como se eu estivesse traindo o Brasil, como se eu estivesse traindo os
laços com as pessoas que eu amo! Mas estou despertando pra realidade que
apreciar um lugar não significa - de forma nenhuma - deixar de amar outro.
Fazer novos amigos não significa esquecer os antigos. Sim, eu percebo o dilema -
daqui por diante, onde quer que eu esteja, estarei sentindo saudade de alguém.
Mas isso não quer dizer que "caí numa armadilha", que tenho uma carga
a suportar. Quer dizer sim que a vida está me dando uma grande dádiva, a
riqueza de carregar no meu coração amigos e lembranças de várias partes do
mundo! Se a saudade é o preço, eu o pago de boa-vontade. E agradeço!
Eu resolvi o meu problema de me sentir culpado
por estar me adaptando aqui, por estar apreciando a vida aqui? Ainda não. Sinto
que não é só culpa, é medo. Quando aprecio a vida aqui, em algum lugar do meu
coração sinto um medo terrível de me afastar dos meus bebês queridos. E a
primeira reação é me voltar pro meu mundo interior, onde estou bem próximo dos
meus bebezinhos, e virar as costas ao mundo real que está me rodeando. Mas essa
não é a solução! Porque eu estou aqui, afinal? Não é pra mostrar aos bebês - e
aos meus colegas de faculdade, a todos os jovens brasileiros, em certa medida -
que a vida pode ser mais ampla do que imaginávamos? Que, ao menos só por hoje,
neste momento da história do mundo e do nosso país - os portões do mundo estão
abertos para nós, mesmo que não sejamos pessoas ricas? Então! Eu não estou aqui
pra sofrer! Eu estou aqui pra correr atrás dos meus objetivos - e pra viver! Me
adaptar, conhecer, fazer novos amigos! A minha mensagem não precisa ser, não
deve ser "se vocês estiverem dispostos a sofrer muito, vocês podem estudar
no exterior!". Eu quero que seja "Vocês podem estudar no exterior,
vão enfrentar muitos desafios, mas vale a pena, porque vão aprender muito, vão
crescer como profissionais e como pessoas, vão ter muitas alegrias!"
Então, queridos, eu renovo minha disposição e
minha vontade de me adaptar aqui, de viver bem aqui, conhecer novas pessoas,
sentir afeição por muitas delas - em duas palavras, ter sucesso e ser feliz. Eu
sei que é isso que vocês meus amores aí no Brasil querem pra mim também. Ficar
bem aqui não é traição, não é me afastar de vocês - é ser fiel a vocês.
Amo meu país, amo meus bebezinhos queridos, e é
esse amor que vai me manter na direção certa - buscar o sucesso e a felicidade
aqui, como faria no Brasil, como farei no Brasil quando voltar.
Obrigado por me ouvir, obrigado por estar
comigo! Beijos!
Talvez gostem de um do
dia 31 de outubro...
Resultado de meia hora na cama, viajando, naquele estado de
"não sei se já acordei ou ainda estou dormindo": levantei e fiz os
rabiscos abaixo. Que resumem uma idéia de como construir uma solução heurística
e recursiva para um problema proposto: encontrar uma rota de múltiplas (número
indeterminado) de conexões entre aeroportos sem voos diretos. Interessante
principalmente por ser um tema relacionado ao clássico "Problema do
Caixeiro Viajante".
A “Palestra do Tempo”,
no dia 23 de outubro, foi divertida também!
Ah, no dia 16 de
outubro eu faço um comentário sobre uma aula e incluo um link sobre um site que
eu criei há um bom tempo atrás, quando eu era instrutor no SENAC!
11 de agosto eu tava
pegando as malas... Cheguei aqui dia 13.
Partilhei no Face alguma coisa das minhas impressões...
Charqueadas, Novembro
de 2014.