Friday, July 28, 2017

Bobbio e o Jusnaturalismo, ou "O Jusnaturalismo é uma miragem"

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA
DISCIPLINA – Política I: Fundamentos da Teoria Política (HUM 06029)
PROFESSOR: Hélio Ricardo Alves
AVALIAÇÃO II

ALUNO: Pedro Francisco Borges Pereira
                 Matricula 290300


O modelo que Bobbio apresenta em contraposição ao “modelo jusnaturalista” ou Hobbesiano é o “modelo aristotélico”, ou “modelo grego”.    O tema da prova, “A partir das leituras realizadas daqueles três autores (Hobbes, Locke e Rousseau), elabore um texto comentando as diferenças de suas teorias com o ‘modelo alternativo’ apresentado por Bobbio”.  O modelo alternativo a que Bobbio se refere de Bobbio é o modelo grego ou modelo aristotélico;  porque ele usa este termo não é claro para mim, uma vez que o modelo aristotélico foi o vigente durante séculos.  Também me confunde o fato de o modelo proposto por Hobbes ser chamado "escola do direito natural", uma vez que baseia-se em uma concepção imaginária e nunca concretizada de "natureza".  Enfim, vamos à comparação solicitada pela prova.
Para comentar as diferenças entre os dois modelos, começarei abordando o modelo jusnaturalista, que Bobbio evidentemente considera superior, tanto que se refere a Hobbes, Locke e Rousseau como “os três grandes”).  Mais: em sua obra “O modelo jusnaturalista”, Bobbio declara que “o método [do jusnaturalismo] que une autores tão diversos é o método racional, ou seja, aquele método que deve permitir a redução do direito e da moral [...], pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana, a uma ciência demonstrativa”.
As diferenças entre os dois modelos – aristotélico e jusnaturalista – baseiam-se no fato de que o método aristotélico baseia sua análise do Estado na “sociedade natural originária, a família”; o modelo jusnaturalista parte de um “estado de natureza genérico, no qual os homens teriam vivido antes da constituição do Estado”.
O próprio Bobbio, entretanto, na mesma obra, diz que[1] “Hablo de ‘modelo’, no por vicio o por utilizar uma palavra de fácil uso, sino sólo para expressar de forma inmediata la idea de que uma formación histórico-social como la descrita no ha existido nunca em la realidad”.  O grifo é meu, voltaremos a este ponto.
As diferenças decorrentes desta primeira premissa diferenciada entre os dois modelos são descritas pelo próprio Bobbio no texto objeto da prova; irei apenas resumi-las brevemente aqui pois a tarefa é muito simples; não é necessário conhecer nem interpretar a obra de Bobbio, nem de Aristóteles, nem de Locke, nem de Rousseau: basta consultar o texto passado como tema da prova.  Usarei a forma de uma tabela:
Aspecto do Estado
Modelo jusnaturalista
Modelo aristotélico
a) Origem
Concepção racionalista da origem do Estado
Concepção histórico-sociológica da origem do Estado
b) Natureza
O Estado como antítese do “homem natural”
O Estado como complemento do “homem natural”
c) Estrutura
Concepção individualista atomizante do Estado
Concepção social e orgânica do Estado
d) Finalidade
Concepção idealizada do estado pré-político, de onde se originam as teorias dos direitos naturais
Concepção realista do homem em sociedade, segundo a qual o homem sempre viveu em estado de sujeição e desigualdade
e) Fundamento
Teoria contratualista
Teoria naturalista
f)) Legitimidade
Legitimação através do consenso
Legitimação através da “força das coisas”

Elencadas estas diferenças, peço vênia para tecer alguns comentários.
Sobre a Origem do Estado
Bobbio considera que a “concepção racionalista” do jusnaturalismo é superior à “concepção histórico-sociológica” do modelo aristotélico, apesar de que “uma formação histórico-social como a descrita nunca existiu na realidade”.  Tenho opinião diametralmente oposta, e a fundamento:  se todos os raciocínios e deduções do jusnaturalismo se baseiam em algo que nunca existiu, o jusnaturalismo não passa de uma falácia – a “falácia da falsa premissa”.  Como o “estado de natureza”, conceito no qual se baseiam as idéias de Hobbes e de Rousseau, nunca existiu, qualquer dedução feita a partir deste estado de natureza não se sustenta, é um silogismo!   O apregoado “método racional, que reduz o direito e a moral, bem como a política, a uma ciência demonstrativa”, em nada mais consiste do que em fantasias construídas sobre uma miragem!
A abordagem aristotélica, por outro lado, pode ter seus pontos fracos[2], mas é cientificamente válida, uma vez que aborda a origem do Estado pela perspectiva da obtenção de evidências empíricas – como diz o próprio Bobbio, o modelo aristotélico baseia-se “na sociedade natural originária, a família, que é uma forma específica, concreta, historicamente determinada, de sociedade humana”.  A abordagem aristotélica peca por considerar a cidade-estado como “a forma última e perfeita de estado” (mas não esqueçamos que Rousseau, o “cidadão de Genebra”, não estava longe disso...), assim como na excessiva simplificação das analogias que faz entre o Estado e a família.  Aristóteles, definitivamente, não era um cosmopolita, era um homem do seu tempo, da sua cidade, da sua casta, e isto estreitou bastante sua visão.
Mas como vamos entender o direito, a moral e a política usando um modelo imaginário, um “produto do nosso raciocínio”?  O direito existe mesmo entre as tribos primitivas, consuetudinário embora – e exatamente por ser consuetudinário envolve muito mais do que a razão!  A moral afeta profundamente nossas emoções – que discorde quem nunca sentiu culpa, remorso, vergonha, por ter feito algo que “sabia” que era “errado”.  E política... Ora, a política talvez seja aparentemente racional – votamos no candidato que “promete” fazer coisas que “achamos” que nos beneficiarão.  Mas como explicar, então, a eleição de tantos parlamentares bizarros?  Analfabetos, viciados, seqüelados das drogas, ladrões confessos e notórios... Todos estes tipos conseguem se eleger – e que racionalidade é esta?!  Não, a política, assim como o direito e a moral, envolve muito mais do que a razão pura!  A “razão pura”, portanto, é um instrumento totalmente inadequado para analisar o direito, a moral e a política!  O jusnaturalismo diz abandonar o “modelo grego”; abandona Aristóteles, na verdade, mas aferra-se a Platão, crê no “mito da caverna”, vê o mundo real como uma “sombra” – uma sombra das fantasias que a mente dos jusnaturalistas concebe.  Esta desvinculação do mundo real, no limite, chama-se “alienação mental”.
O modelo aristotélico, em contrapartida, baseia-se (nas próprias palavras de Bobbio) “na sociedade natural originária”.  Há melhor forma de fazer ciência do que observando a Natureza?  Admito que o modelo grego tem falhas.  Mas temos, hoje em dia, as ferramentas para sanar estas falhas.  A sociologia, a psicologia, a antropologia, a arqueologia, a etologia – todos estes ramos da ciência podem contribuir para aprofundar nosso conhecimento da natureza humana, podem nos ajudar não só a entender nossas formações sociais atuais, como a conceber uma sociedade, um mundo, em que o máximo do potencial humano possa se realizar – e digo “humano” tanto no sentido biológico quanto etológico, social e psicológico.  Deixemos, sim, que nossa razão e nosso poder criativo corram soltos – mas orientemos seu vôo pela realidade, e não por fantasias platônicas!
O Estado é legitimado pelo Contrato Social – pelo consenso – pregam os contratualistas
Mas quem disse que há consenso na nossa sociedade?  E quem disse que há Estados legítimos?!
Busquemos alguns dados empíricos, dando uma rápida olhada ao nosso país, no momento atual.  Nosso Governo nos toma em torno de 40% de tudo que é produzido, sob a forma de impostos, taxas e “contribuições” (sic).  Em troca, o Governo nos devolve escolas que literalmente caem aos pedaços e hospitais carentes de tudo, onde os doentes morrem pelo chão – para citar a falência de apenas dois dos serviços públicos mais básicos, pois tudo, literalmente tudo que o Governo deveria providenciar com o dinheiro dos impostos – nosso dinheiro, ganho com nosso trabalho! – não é provido, ou é provido da forma mais deficitária.  Em compensação, castas privilegiadas de “servidores públicos” (juízes e procuradores, por exemplo, assim como os legisladores e mandatários do executivo), vivem como reis, com salários principescos, com privilégios nababescos.  Não contentes com ganharem dez, vinte, trinta vezes o salário de um cidadão comum, ainda nos roubam, descaradamente – e sistematicamente tem escapado à punição pelos roubos.  Quem concorda com isso?  Tu, leitor, concordas com isto?  Que “contrato” é esse?  Que assentimento demos a este descalabro, a esta injustiça?!  Olhemos os fatos, deixemos de sonhos e fantasias – nossa sociedade não se baseia em “contrato” algum e sim em um mecanismo secular de dominação.  Uns poucos, pertencentes ás castas privilegiadas, se repoltreiam no luxo, no fausto.    A maioria da população apenas sobrevive, mourejando de sol a sol, sem nunca melhorar de vida, sem nunca ter um descanso.  Quando ocasionalmente despertamos da letargia e vamos às ruas protestar, aí aparece a polícia.  A mesma polícia que nunca tem efetivos para “servir e proteger” a população aparece em legiões para jogar gás lacrimogêneo, disparar balas de borracha, espancar e pisotear a pata de cavalo o povo que grita por justiça e liberdade!  E isto é um “contrato social”?!
Senhores, mantenhamos nossos pés em solo firme.  A filosofia do direito, da ética e da política são, sim, ciências.  O empirismo, por si, não constrói paradigmas científicos, mas os bons paradigmas não podem estar em contradição com o que é observado na Natureza.
Concedamos a alguns dos jusnaturalistas, dos contratualistas, o mérito de terem nos contado uma bela história, que talvez possa até mesmo suscitar no futuro algumas hipóteses verdadeiramente científicas.
Mas façamos ciência social com o bom-senso aristotélico, atuando em harmonia com a História, a Sociologia e as demais Ciências Humanas!







[1] Cito a versão em espanhol publicada pelo Fondo de Cultura Económica do Mexico, 2ª edição, 1992 – tradução de Manual Escrivá de Romaní.  Pag 3.
[2] Causados principalmente, a meu ver, pelo fato de Aristóteles ser um aristocrata e portanto estar imbuído da idéia de uma sociedade dividida em castas, e da idéia da escravidão, como perfeitamente naturais.

Sunday, July 16, 2017

Comentários sobre Hobbes e Rousseau - ou "Era Hobbes um Neurótico Masoquista?"





Este post é um trabalho da faculdade.
Tive preguiça de "converter" o trabalho para um "artigo de blog", portanto aqui vai ele, com cabeçalho e tudo! :-)

A parte que eu me diverti escrevendo foi o item 3 - "Comentários -  talvez impertinentes, da parte de um calouro de Ciências Sociais".  É nesta parte que eu abordo o tópico do meu "título alternativo", "era Hobbes um neurótico masoquista?".
Espero que vocês se divirtam também!
:-)

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Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Curso de Bacharelado em Ciências Sociais
HUM06029 - Política I: Fundamentos da Teoria Política
Turma D – 2017/1

Professor: HÉLIO RICARDO DO C. ALVES

Aluno:
Pedro Francisco Borges Pereira
Matricula 00290300

ATIVIDADE AUTÔNOMA II
Comparação entre os textos
 “De Cive”, de Hobbes – Capítulo Oito – Do direito dos senhores sobre os servos
e “Do Contrato Social”, de Rousseau – Capítulo IV – Da escravidão

1.      Os Autores.

Para prover algum contexto, revisemos alguns dados sobre os autores.
Hobbes nascem em 5 de abril de 1588, na Inglaterra, e faleceu aos 91 anos em dezembro de 1679;  foi filósofo, historiador e também matemático.  Seus trabalhos mais conhecidos são os que trataram de filosofia política, especialmente o Leviathan (1651).  Filho de um eclesiástico, foi contudo criado por um tio, próspero fabricante de luvas.  Cursou boas escolas, formou-se em Oxford e antes de completar trinta anos já pôde viajar pela Europa (França, Itália e Alemanha) a serviço do Conde William Cavendish – pode-se dizer que a vida de Hobbes foi passada a serviço da família Cavendish, como tradutor, companheiro de viagens, guarda-livros, representante comercial, conselheiro político, colaborador científico.  Outro fato que, a meu ver, tem muita influência no pensamento de Hobbes é ter vivido durante a Guerra dos Trinta Anos – uma série de conflitos entre várias nações europeias entre 1618 e 1648 em torno de disputas religiosas, territoriais e comerciais.  Ter presenciado a mortandade e a anarquia geradas por este conflito talvez seja uma das razões para a crença de Hobbes de que (peço licença para colocar nas minhas palavras) “o estado natural do homem é uma guerra de todos contra todos; a forma de libertar-se desta miséria é submetendo-se a alguma forma de governo; qualquer governo é melhor do que o caos, a violência, a miséria e o medo do estado de natureza”.
Rousseau nasceu em 28 de junho de 1712, em Genebra (hoje na Suiça, em sua época uma cidade-estado), e faleceu em dois de julho de 1778, na França.  Orgulhava-se de ser “de classe média” e de ser “cidadão de Genebra”.   Viveu em Genebra, na França e na Inglaterra.   Na juventude, chegou a estudar para se tornar padre católico, exerceu depois as profissões de músico e professor; foi também o mordomo de sua amante e mentora, Mme. De Warens.  Mudando-se para Lyon como professor, entrou em contato com algumas das grandes figuras do Iluminismo francês.  Poucos anos depois apresentou seu “Primeiro Discurso” (Discurso sobre a Ciência e as Artes) na Academia de Dijon, ganhando o primeiro prêmio e tornando-se conhecido.  Este trabalho introduz a base para suas obras mais conhecidas – e polêmicas, à época (Emile, A Origem da Desigualdade, O Contrato Social, ...).  Tão polêmicas que o fizeram ser perseguido, fugir da França para a Inglaterra e renunciar à cidadania de Genebra.  Retornou à França, onde morreu, em 1767, produzindo nesta fase principalmente textos autobiográficos, de botânica e de música.

2.      Os textos.

Os dois textos têm em comum o fato de abordar a liberdade e a escravidão.  Embora ambos os autores retirem sua noção de “sociedade civil” do conceito de “homem em estado natural”, os dois divergem radicalmente na sua visão deste “homem em estado de natureza”.  Hobbes se fixa na idéia da autoridade – melhor dizendo, do autoritarismo – como essencial à associação humana.  Seu raciocínio é fixado em domínio, em vencedor e vencido, em mais fraco e mais forte – o que é perfeitamente razoável para alguém que acredita que a natureza do homem é intrinsecamente má e que seu estado natural é “uma guerra de todos contra todos”.   Para Hobbes, “a família é um pequeno reino”, e um reino é formado pelo “domínio sobre as pessoas dos homens”.  A partir destas premissas, Hobbes descreve no texto as minúcias dos direitos do senhor sobre o servo.  A “própria força” e as “forças naturais” (?), para Hobbes, são os meios pelos quais “adquire-se direito sobre as pessoas”.  O mundo que Hobbes descreve não só é brutal, imoral e injusto – é evidentemente contrário à nossa noção moderna de direitos humanos e, portanto, tende a tornar impossível uma vida suportável numa sociedade construída conforme suas premissas.
 Rousseau, ao contrário, começa suas colocações postulando que “homem algum tem autoridade natural sobre seus semelhantes e que a força não produz qualquer direito”.  Declara mais adiante que “renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade e até aos próprios deveres”.  Rousseau não se opõe a todos os governos, opõem-se aos governos arbitrários – que são, na sua concepção, ilegítimos.   Para Rousseau, nem mesmo através da guerra alguém pode ser escravizado, uma vez que a guerra ocorre entre Estados, e não entre particulares.  Diz Rousseau que “as palavras escravidão e direito são contraditórias”; é absurdo falar em “direito de escravizar”.  Estes pontos de vista baseiam-se na concepção de Rousseau de que a natureza humana é intrinsecamente boa, de que o homem em “estado de natureza”, possui uma “moral natural”, que o torna “avesso a testemunhar sofrimento” e da qual emergem as noções de compaixão ou empatia.
É preciso admitir que a História mostra que o homem pode ser o animal cruelmente autoritário descrito por Hobbes;  há menos de cem anos o nazismo mostrou o pior da natureza humana e mesmo hoje em dia temos ditaduras cruéis e seguidores fanáticos.
Mas é preciso lembrar também que mesmo nas sociedades ditatoriais o espírito humano encontra espaço para aspirar à liberdade, e para buscá-la.  O movimento da humanidade em direção a sociedades mais livres tem sido constante; as autoridades irracionais, arbitrárias, que ainda existem, não podem mais apresentar-se abertamente assim, precisam inventar fachadas que as tornem aceitáveis.  Esta me parece uma demonstração empírica de que o enfoque de Rousseau é mais realista em relação à natureza de nossa mente – da alma humana, se quiserem usar tais palavras.   

3.      Comentários - talvez impertinentes da parte de um calouro de Ciências Sociais.

Como calouro, estou consciente de que meus conhecimentos são muito limitados.  Mas, calouro ou não, sou um acadêmico, e isto implica, mais do que no direito, na obrigação de declarar o meu entendimento sobre nossos temas de estudo.
Valiosas como são as contribuições dos autores clássicos, eles viveram em outra época, em outra sociedade.  Não podemos colocar de lado suas obras, mas temos a obrigação de interpretá-las no contexto do nosso tempo.  É nesse espírito que faço as considerações a seguir.

4.      “Estado de Natureza”: o estado natural do homem é em sociedade!

Como vimos, tanto Hobbes quanto Rousseau apresentam seu conceito do “contrato social” colocando a sociedade civil em oposição ao “estado de natureza” – que seria um estado do homem “antes que a sociedade organizada existisse”.    Mas, na minha opinião, não há tal coisa!  O homem nasce pertencendo a uma sociedade, isto independente de ser um aborígene perdido em algum sertão ou um habitante de uma grande cidade, independente de tomarmos o homem dos dias atuais ou as sociedades mais antigas e primitivas!
Jared Diamond, em seu livro “The Third Chimpanzee”[1], apresenta o conceito de que o homem é nada mais que uma espécie de chimpanzé.  Mesmo que não aceitemos a hipótese integralmente, é inegável que somos primatas – e os primatas vivem em sociedade, conforme detalhada e amplamente descrito nos trabalhos de Jane Gooddal[2].   O estado de natureza do homem é em sociedade!  Não há notícia, na antropologia nem na sociologia, de alguma população de homens primitivos vivendo isolados uns dos outros.  O homem – e mesmo o proto-homem, como comprovam os trabalhos de Diamond e Gooddal – sempre viveu em grupos.  E não há agrupamento humano, mesmo os que vivem na Idade da Pedra – os yanomâmis, os aborígenes australianos, etc. – que não tenha uma “sociedade civil organizada”.  Sempre há um chefe, sempre há um xamã, sempre há um conselho de anciãos...  Aos que argumentarem que “a organização rudimentar da tribo não pode ser comparada à nossa evoluída e complexa sociedade”, respondo que as razões que poderiam impedir a analogia são apenas o arraigado etnocentrismo e a arrogância intelectual da nossa sociedade. 

 

O Contrato Social

Uma vez que, como vimos acima, o homem nasce em sociedade, a idéia de “contrato social” simplesmente não tem sentido.  É possível a um neonato do sexo feminino recusar-se a ser estrangulado pelos pais, conforme o costume ainda vigente na China?  É possível a um pária indiano recusar-se a pertencer à sua casta?  Ou, no oposto do espectro social, é possível ao filho de um rei (da Inglaterra, da Dinamarca...) negar-se a viver como filho de rei?  Não, o homem nasce dentro de uma sociedade, e dentro desta sociedade em uma determinada condição.  O “contrato social” existe independentemente de sua vontade e do seu consentimento; é intrínseco à condição humana, é inevitável – e, portanto, não se trata de “contrato” algum!  Não sou marxista, mas o conceito de “luta de classes” de Marx, neste ponto, me parece descrever bem melhor os fatos sociais.  Também a filosofia de Aristóteles, neste ponto, estava mais correta do que a dos contratualistas. 

 

Hobbes

Hobbes nasceu em uma classe que hoje seria chamada “burguesia”.  Alcançou celebridade graças aos seus méritos acadêmicos, mas também graças à proteção dos aristocratas.  Na minha humilde opinião, seu vínculo com os nobres Cavendish é o de um servo.  Um servo com privilégios, um servo gozando de certo status – mas ainda assim um servo.  Hobbes é, mutatis mutandis, o que o movimento negro nos Estados Unidos chamava um “Uncle Tom” – um serviçal que é não apenas obediente ao seu senhor, mas verdadeiramente devotado a ele.  Esta devoção não se origina sentimentos de admiração ou afeição verdadeiros, mas é nada mais do que uma forma de sobrevivência psicológica e emocional, um tipo de “Síndrome de Estocolmo”.  Como poderia tal homem defender a liberdade?!   Não, em tal contexto social e psicológico, Hobbes só poderia ter a visão de que a obediência a um senhor – qualquer senhor, em quaisquer condições – é melhor do que o caos que a liberdade inevitavelmente traria, e que a escravidão é lícita.
Todo o seu conceito de “estado natural” – que, como vimos nos parágrafos anteriores, não tem a menor base empírica, muito pelo contrário – é nada mais que uma racionalização destinada a justificar as conclusões, que já estavam definidas de antemão – não pelo raciocínio do “pensador”, mas pelas suas emoções, pela sua psique!   É impressionante ver como um homem que se intitula “cientista” faz tantas afirmações apriorísticas sem que lhe ocorra em momento algum um lampejo de dúvida, de autocrítica!  A explicação que consigo encontrar é que Hobbes sofria de um distúrbio de personalidade autoritária[3] em que sua identidade, seu “eu”, vinha do pertencimento a seus patrões e não de si mesmo; ele portanto necessitava legitimar sua submissão de todas as formas a fim de evitar um colapso desta identidade.  A não ser assim, então Hobbes não era sincero; escrevia como um “marqueteiro” de seus patrões da nobreza.

Rousseau

É dito que o fato de Rousseau ter abandonado cinco – sim, cinco! – filhos na “roda dos órfãos” é um argumento “ad hominem” e nada tem a ver com sua filosofia.  Mas se considerarmos que uma de suas principais obras, Emile, trata da importância da educação, a meu ver o argumento deixa de ser ad hominem e torna-se relevante.  Há aqui, senão uma oposição entre a vida do homem e sua filosofia, no mínimo uma gritante dicotomia.  Entretanto, isto não tira o valor da filosofia.  Mesmo apegando-se ao conceito de Hobbes de “homem no estado natural”, ele defende que "o estado de natureza é observável se olharmos para nós mesmos". Se o argumento é sólido ou não, é outra questão: podemos deduzir um princípio geral da natureza humana observando apenas a nós mesmos?  Mas, pelo menos, é um argumento, o que é uma grande vantagem em relação a Hobbes, que nada mais faz do que apresentar afirmações apriorísticas[4].   

5.      Fontes

·         Encyclopaedia Britannica – Thomas Hobbes, English Philosopher - https://www.britannica.com/biography/Thomas-Hobbes
·         Guerra dos Trinta Anos - https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_dos_Trinta_Anos
·         Stanford Encyclopedia of Philosophy - Jean Jacques Rousseau - https://plato.stanford.edu/entries/rousseau/





[3] Digo “autoritária” e não “masoquista” de acordo com os conceitos que Erich Fromm descreve em sua obra “Análise do Homem”,  que conceituam o sadismo e o masoquismo como faces de um mesmo tipo de personalidade ( ver https://en.wikipedia.org/wiki/Erich_Fromm ).  Saliente-se aqui que não me refiro a sadomasoquismo estritamente no sentido sexual,  embora esta seja uma manifestação frequente deste traço de personalidade.  Refiro-me ao tipo de perfil psicológico improdutivo descrito por Fromm sob esta denominação, quando a pessoa procura fundir-se a outro, parasitariamente, em busca de uma identidade que não consegue encontrar em si mesma.
[4] A propósito, a Declaração de Independência dos Estados Unidos contém declarações apriorísticas – mas as identifica claramente como tais – “São inverdades incontestáveis para nós: todos os homens nascem iguais, ...”.  Não há problema em afirmar princípios fundamentais – o problema é trazê-los, como faz Hobbes, para dentro da argumentação filosófica!

Wednesday, July 12, 2017

Relato de uma Experiência com o Sistema Bancário Americano



Este post estava no Facebook, 12 de julho de 2015.
Resolvi que vale uma entrada no blog.

Tenho que acrescentar um comentário:  todo o relato se aplica à minha experiência com um pequeno banco de uma pequena cidade - o Commerce Bank, de Manhattan, KS.
Mas como não existem pequenos bancos no Brasil, o relato da experiência continua sendo válido e interessante.

Comentários sobre "coisas americanas" - dessa vez tou in the mood pra criticar! 
SISTEMA BANCÁRIO.
Tive que transferir um dinheiro da minha conta pra outra conta, aqui dentro dos Estados Unidos. Outro banco, outra cidade. Coisa que tu vai num ATM no Brasil e faz na hora. Fui no ATM do meu banco, não achei a função de "Transferência". Fui até a minha agência bancária, e descobri que não tinha achado a função... porque o ATM não tem essa função. Mas no caixa é uma coisa simples de fazer, né? Nananinanão! "Por favor aguarde um minutinho que a gerente já vai lhe atender"! What?! Acreditem, pra fazer uma transferência a gerente teve que preencher uns formulários - preencheu no computador, claro - mas teve que imprimir - imprimir! - e eu assinei. Os formulários incluem a Cidade/Estado da agência bancária de destino, e - acreditem! - o ENDERÊÇO da pessoa que vai receber o dinheiro! Eu quase perguntei se iam mandar pelo Pony Express! 
Bizarrice das bizarrices: quem faz a transação pra debitar o dinheiro na minha conta não sou eu, é o funcionário do banco! Eu não conseguia nem ver a tela dela, pra ver se ela estava debitando a quantida que eu tinha pedido, que estava no formulário, ou não!
Custo de uma transferência bancária? 30 dólares, mais ou menos cem reais pelo câmbio de hoje!  
E não termina aí! Tudo feito, a gerente perguntou "O senhor quer um número pra rastrear a transação, no caso de algo dar errado?" Quero, né? Daí a criatura PEGA O TELEFONE (!) e começa uma loooonga conversa com sei lá quem, passando os dados da transferência, e esse sei-lá-quem passou a ela um número, que ela então adicionou ao formulário impresso! "Se o dinheiro não chegar lá entre hoje e amanhã, o senhor pode voltar aqui comigo que com esse número eu posso rastrear a transação"!
Bom, como eu não tinha conseguido ver o que ela tinha feito (o valor realmente transferido), eu pedi pra ela me dar um extrato da minha conta.
Rá! Extrato?! "O seu extrato pode ser acessado pela Internet daqui a uma semana. Na verdade o senhor vai recebê-lo pelo Correio, automaticamente."
Eu não entendi, não tinha caído a minha ficha. Perguntei se não seria mais simples então eu ir num ATM e tirar um extrato. Aí ela me esclareceu direitinho: OS ATMs NÃO DÁO EXTRATO ATUALIZADO! Leva uns dias até os lançamentos aparecerem na tua conta. "Uns dias" significa uma semana ou mais! Os ATMs dão saldo atualizado, mas não extrato!
Gente, inacreditável, parece o Brasil dos anos 1970!