Monday, January 29, 2024

Galope no Caleidoscópio

 Este post foi... uma mensagem no Whatsapp.

Gostei, e resolvi preservar aqui...  Então vamos: Galope no Caleidoscópio

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Vindo aqui partilhar uma experiência nova - pra partilhar, mesmo, e também pra mim, pra não esquecer o momento:  hoje, pela primeira vez, na flor dos meus sessenta e oito anos, vivi a experiência de estar montado em um cavalo a galope!

"Estar montado" é a expressão, porque meu cavalo estava ligado ao do meu instrutor por uma corda - pra ele poder assumir o controle em caso de necessidade.  O que foi uma excelente ideia da parte dele.

Porque o MEU controle - não digo nem do cavalo, mas de mim mesmo - era praticamente nulo!

"Vamos lá", diz o instrutor, "Vamos", digo eu e...

E começou o galope e começou a minha experiência de estar imerso na quarta - ou quinta, ou sexta! - dimensão do mundo caleidoscópico!

Não dá pra explicar, só sentir.  Mas vou tentar: o mundo, visualmente, se tornou um turbilhão de fragmentos de cor em constante movimento.  Fragmentos desencontrados e um tanto distorcidos.  Um caleidoscópio.  Era como estar dentro de uma tela de Picasso. E esse turbilhão visual vinha acompanhado de uma tempestade de sons vindo dos cascos dos cavalos, da respiração deles, da minha respiração...  E junto com estas visões e sons, a avalanche de impressões físicas produzidas por estar montado em um animal a galope, tentando - não num nível de qualquer pensamento, porque nem seria possível, e sim de uma forma totalmente corporal - harmonizar meus movimentos com os dele...  Ainda não entendi bem como funciona essa coisa de "montar a cavalo" - aliás já tive a percepção de  que não se trata de "entender", mas de "aprender com o corpo" - mas acho que já estou dando os primeiros passos nesse aprendizado de comandar um animal muito mais forte... Um comando que não vem da força física mas de um misto de união harmônica com o animal e domínio pela força da vontade...

Bom, já estou falando demais.  O que eu queria contar era isso: minha excursão pelo mundo caleidoscópico da quarta dimensão! :-) 


Fiz a maior façanha do mundo, sou o melhor aluno de equitação que jamais existiu?  Com certeza não!

Estou sentindo a satisfação de ter vencido algumas limitações? Com certeza que estou!

Basicamente, satisfação de não ter cedido ao medo!

Tive medo? Pode apostar que sim!

Mas não galopamos uma vez, galopamos várias vezes!

E a cada vez que o instrutor dizia "Vamos?", eu consegui resistir à tentação de responder "Por hoje está bom, não quero mais", e em vez disso concordar que "Vamos"!  Que bom que eu consegui isso!

E- mais um triunfo sobre o pavor! - eu não me agarrei na sela!  O instrutor disse que eu poderia, se quisesse - mas em nenhum momento eu me agarrei na sela!


Tchau beijos obrigado por me escutar!

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Friday, January 05, 2024

"O Despertar de Tudo" - ou, "Hay que agitar, hay que agitar"!

 "O Despertar de Tudo"  é o título do livro que estou lendo, um livro que contesta as visões tradicionais sobre a evolução da Humanidade.  E "Hay que agitar, hay que agitar", era uma das falas prediletas de Don Pepe, o anarquista espanhol retratado por Érico Veríssimo em "O Tempo e o Vento".

Este post começou sendo uma conversa no Whatsapp sobre as minhas leituras.  E acabou passando de "Sapiens", de Yuval Harari, e "O Despertar de Tudo", de David Graeber e David Wengrow, para Jessé de Souza e Darcy Ribeiro.

Um pouco por preguiça, um pouco por achar que mais não é necessário, vamos então à transcrição da conversa no Whatsapp:

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Esse eu já terminei.  É uma síntese das teses dominantes na História - e Pré-História; inclui, claro, interpretações do autor sobre estas teses, e conclui com um quase exercício de futurologia.  Boa leitura; bem escrito, bem pensado; para quem conhece História, traz considerações bem interessantes, para quem não é versado em História, pode constituir até mesmo um divisor de águas!




Esse eu comecei a ler agora!  É a antítese do "Sapiens"!  Enquanto "Sapiens" resume as interpretações dominantes da História, este "Despertar de Tudo" as coloca abaixo, sem deixar pedra sobre pedra!  Com certeza eu tenho em mente que é preciso ler "com um grão de sal", mas o pouco que já li me deliciou!  É muito bom ler autores que declaram que tanto as teses de Rousseau quanto as de Hobbes sobre o "estado natural" do ser humano não tem o menor fundamento empírico - coisa que eu tentava dizer em aula aos colegas e professores, e ninguém dava bola!


JESSÉ DE SOUZA

Ao ler a contestação de Hobbes e Rousseau, sinto o mesmo prazer que senti em ler a  entrevista de Jessé de Souza em que ele diz o que transcrevo abaixo:

"Entrevistadora: Como o sr. avalia o legado de Sergio Buarque de Holanda, nesse aniversário de 80 anos de "Raízes do Brasil"?"

"Jessé de Souza: Sérgio Buarque construiu a interpretação do Brasil mais influente até hoje. Em grande medida, ela advém de Gilberto Freyre (1900-87), como a noção de identidade nacional baseada nos afetos e nos sentimentos supostamente trazida de Portugal. Cientificamente, a validade dessa interpretação é, no entanto, nula. E sua celebração até hoje mostra apenas a miséria de nosso debate acadêmico e, por consequência, de nosso debate público."

Entrevista completa em https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/558679-celebracao-de-obra-mostra-miseria-de-nosso-debate-diz-jesse-souza .


DARCY RIBEIRO

É o mesmo prazer que tive ao me ser mostrado um vídeo com um pequeno trecho de uma entrevista de Darcy Ribeiro.  Gostei tanto que não sosseguei até encontrar o ensaio onde ele registrou a declaração que me encantou:

"Minha reclamação que mais zanga provocou em você era de fato uma aspiração meio desastrada, de padrinho enxerido que quer ajudar à força seus afilhados a brilharem.

Disse que não quero vê-los feito “cavalos de santo” de candomblé, por cujas bocas não falam nossos exus e xangós, mas Lévi Strauss, Victor W. Turner, P. Berger, ou até meus amigos Peter Worsley e Eric Hobsbawm que têm, aliás, horror disso.

Você não concorda que um dos piores riscos que ocorrem às nossas ciências sociais esteja na propensão a desvincular jovens de talento da temática brasileira, para os atrelar aos interesses momentâneos de mestres estrangeiros? Tenho visto tanto destes basbaques, convertidos em papagaios que repetem pela vida inteira um saber que, na matriz, já se tornou obsoleto, que não me consolo de ver novos basbaques surgindo. 

Por esse caminho, cada nova geração voltando-se para fora se constitui como um porta-voz ou um vodu do que se diz e do que se faz nos centros estrangeiros, deslumbrada com o último gênio metropolitano. Prosseguindo nessa linha jamais se constituirá no Brasil um saber nosso, edificado geração após geração pela transmissão e herança de um patrimônio cultural próprio através de permanente revisão, cientificamente fundada, de suas interpretações da realidade brasileira. Em lugar disso teremos tão só este pobre cúmulo de tesezinhas que são meras exemplificações episódicas e bizarras, com base em casos locais, das teorias em moda lá fora."

-Trecho de carta aberta a Roberto da Matta, publicada sob o título "Por uma Antropologia Melhor e Mais Nossa".

-Este ensaio e vários outros podem ser encontrados no site da Fundação Darcy Ribeiro, em https://fundar.org.br/wp-content/uploads/2021/06/ensaios-insolitos.pdf .

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Não é uma delícia ouvir essas coisas ditas alto e bom som?!

"O quadro geral predominante da História, adotado pelos seguidores tanto de Hobbes quanto de Rousseau, não tem quase nenhuma relação com os fatos" ("O Despertar de Tudo", pag. 19; ver também pags. 26 e 27).
"Validade científica nula! Miséria do debate acadêmico!"  Dá-lhe, Jessé!
"Basbaques convertidos em papagaios! Cavalos de santo de Lévi-Strauss!"  Senta a pua, Darcy!

Hay que agitar!  Hay que agitar!