HUM05020 –
Antropologia: Fundamentos
AULA 04 –
Apresentação de Artigo
“A Interpretação das Culturas” – Clifford Geertz
Capítulo I – “Uma Descrição Densa – por uma Teoria
Interpretativa da Cultura”
Sumário
O AUTOR
Clifford Geertz (23.ago.1926-30.out.2006) era um
antropologista Americano que é lembrado principalmente pela sua influência na
prática da antropologia simbólica, e
que era considerado “por três décadas o mais influente antropologista nos
Estados Unidos”. Ele atuou até sua morte
como Professor Emérito no Instituto de Estudos Avançados na Universidade de
Princeton.
EXPERIÊNCIA
Geertz graduou-se em Filosofia em 1950, após servir na
Marinha durante a Segunda Guerra Mundial.
Prosseguiu seus estudos na Universidade de Harvard na qual graduou-se no
Departamento de Relações Sociais em 1956.
Geertz recebeu formação como antropologista, e conduziu seu
primeiro trabalho de campo de longo prazo, junto com sua esposa Hildred, em
Java (financiado pela Fundação Ford e pelo MIT). Ele estudou a vida religiosa de uma pequena
cidade por dois anos e meio, vivendo com a família de um trabalhador.
Após concluir sua tese, Geertz retornou a Bali e
Sumatra. Obteve seu Ph.D. com uma
dissertação chamada “Religion em Modjukuto: a Study on Ritual Belief in a
Complex Society”.
Geertz lecionou em diversas universidades, tornando-se
professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago em 1960.
Nos meados da década de 1960, Geertz mudou o curso de seus
estudos e começou uma nova pesquisa no Marrocos, que resultou em diversas
publicações.
Em 1970 Geertz passou a lecionar Ciências Sociais no
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, em New
Jersey. Em 1973, ele publicou “The
Interpretacion of Cultures”, uma coletânea de ensaios que Geertz havia escrito
durante a década de 1960.
Esta se tornou seu trabalho mais conhecido e deu a ele o
status de, não apenas um estudioso da Indonésia, mas um teórico da
Antropologia.
IDÉIAS E CONTRIBUIÇÕES
Geertz era um defensor da Antropologia Simbólica, um enfoque
que dá atenção principalmente ao papel dos símbolos na construção de um
significado público. Em seu trabalho
seminal[1],
“A Interpretação das Culturas”, Geertz definiu cultura como “um sistema de concepções herdadas expresso
em formas simbólicas através do qual os homens comunicam, perpetuam e
desenvolvem seu conhecimento sobre a vida e suas atitudes frente a ela.”
CONCEITOS
ANTROPOLOGIA SIMBÓLICA
“Antropologia Simbólica”, ou, mais amplamente, “Antropologia
Simbólica e Interpretativa”, é o estudo de símbolos culturais e de como estes
símbolos podem ser usados para melhor compreender uma sociedade em
particular. De acordo com Clifford
Geertz, “acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal suspenso em uma
teia de significados que ele mesmo teceu, eu tomo a cultura como sendo estas
teias, e a análise destas é, portanto, não
uma ciência experimental em busca de leis, mas uma ciência interpretativa em
busca de significado”.
DESCRIÇÃO DENSA
Nos campos da Antropologia, Sociologia, estudos religiosos e
desenvolvimento organizacional, uma “descrição densa” do comportamento humano é
aquela que explica não apenas o comportamento, mas também seu contexto, de
forma que estes comportamentos ganhem significado para um observador externo.
O termo foi criado pelo filósofo Gilbert Ryle e
complementado por Geertz como uma forma de descrever seu próprio método de
fazer etnografia[2]. Desde então, o termo e a metodologia que ele
representa se tornaram correntes nas Ciências Sociais e mesmo além delas.
ETNOGRAFIA
“Etnografia” é o estudo sistemático de culturas, através da
exploração dos fenômenos culturais, onde o pesquisador observa a sociedade do
ponto de vista do objeto do estudo. Uma
etnografia é um meio para representar – em descrições e graficamente – a
cultura de um grupo.
A etnografia, como apresentação de dados empíricos sobre
sociedades humanas e suas culturas, foi pioneira nos ramos biológico, social e
cultural da Antropologia, mas se tornou comum nas Ciências Sociais em geral –
Sociologia, História, etc.
SEMIÓTICA
“Semiótica” é o estudo de “construção de significado”[3], o
estudo do processamento de símbolos (semiose) e da comunicação
significativa. Inclui o estudo dos
símbolos e de sua interpretação. A
tradição semiótica explora o estudo dos símbolos como uma parte significativa
da comunicação. Diferentemente da
linguística, entretanto, a semiótica também estuda sistemas simbólicos
não-linguisticos.
A semiótica é vista, frequentemente, como tendo um papel
relevante na Antropologia. Por exemplo,
o semiótico e escritor italiano Umberto Eco propôs que todos os fenômenos
culturais podem ser estudados como comunicações.
SÍMBOLO (SIGN)
Em semiótica, um “símbolo” é “qualquer coisa que comunica um
significado - que não é o próprio símbolo – para o intérprete do símbolo. O significado pode ser intencional, como uma
palavra enunciada, ou não-intencional, como um sintoma clinico significando uma
condição médica particular.
O TEXTO EM ESTUDO
UM CONCEITO SEMIÓTICO DE CULTURA
No “Capítulo I” do seu livro “A Interpretação das Culturas”,
intitulado “Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura”,
Clifford Geertz começa propondo uma nova definição de cultura – ou um novo
enfoque ao estudo das culturas. Cita a
multiplicidade de definições provida (onze!), por exemplo, por Clyde Kluckhohn,
em seu trabalho Mirror for Man, e considera que é necessário um conceito de
cultura que tenha um argumento definido a propor, que represente uma escolha
alternativa a este ecletismo.
A proposta de Geertz é “um conceito de cultura
essencialmente semiótico”. “Acreditando,
como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que
ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e sua análise;
portanto, não como ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência
interpretativa, à procura do significado.
É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões
sociais enigmáticas na sua superfície.”
ETNOGRAFIA – A ANÁLISE ANTROPOLÓGICA COMO FORMA DE
CONHECIMENTO – “DESCRIÇÃO DENSA”
Segundo Geertz, “em antropologia, o que os praticantes fazem
é etnografia”. E, “segundo os livros-texto,
praticar etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever
textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por
diante. Mas não são estas coisas, as técnicas e os processos determinados, que
definem o empreendimento. O que o define
e o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco elaborado para uma “descrição
densa”, tomando emprestada uma noção de Gilbert Ryle.”
GILBERT RYLE – “O QUE `LE PENSEUR` ESTÁ FAZENDO” –
O TIQUE, A PISCADELA, A IMITAÇÃO
Geertz cita o texto de Ryle, descrevendo “dois garotos
piscando rapidamente o olho direito”.
Num deles, esse é um tique involuntário, no outro, é “uma piscadela
conspiratória a um amigo”. Embora os
movimentos sejam idênticos; observados isoladamente, como o faria uma câmara,
ou seja, numa observação “fenomenalista”, não se poderia dizer qual deles seria
um tique nervosa ou uma piscadela ou, na verdade, se ambas eram piscadelas ou
tiques nervosos. No entanto, embora não
retratável, a diferença é grande.
“Quem pisca está se comunicando e, de fato, comunicando-se
de uma forma precisa e especial: (1)
deliberadamente, (2) a alguém em particular, (3) transmitindo uma mensagem
particular, (4) de acordo com um código socialmente estabelecido e (5) sem o
conhecimento dos demais companheiros.”
“Suponhamos que haja um terceiro garoto que, para divertir
os companheiros, imita o piscar do que tem tique nervoso de uma maneira
propositada, grosseira, óbvia.
Naturalmente, ele faz o mesmo movimento.” Mas este garoto não está
piscando nem tendo um tique nervoso, ele está imitando alguém. Não se trata de passar uma mensagem às escondidas,
mas de ridicularizar.
E se o imitador resolver praticar sua imitação em casa,
diante de um espelho, de forma a fazê-la mais super-óbvia, talvez com uma
careta – usando, enfim, os truques dos mímicos?
Neste caso ele não estará tendo um tique nervoso, nem piscando, nem
imitando – estará ensaiando!
Entretanto, para a câmara ou para um behaviorista radical, o
que ficaria registrado é que ele está contraindo rapidamente sua pálpebra –
como quem pisca, ou tem tique, ou imita.
As complexidades são infindáveis.
O OBJETO DA ETNOGRAFIA: UMA HIERARQUIA
ESTRATIFICADA DE ESTRUTURAS SIGNIFICANTES
Entre a “descrição superficial” do ato (contrair a pálpebra)
e a “descrição densa” (ter tique, piscar, imitar, ensaiar), está o objeto da
etnografia: uma hierarquia estratificada
de estruturas significantes em termos das quais o s tiques nervosos, as
piscadelas, as falsas piscadelas, as imitações, os ensaios das imitações, são
produzidos, percebidos e interpretados, e sem as quais eles de fato não
existiriam – não importa o que alguém fizesse ou não com sua pálpebra.
MARROCOS, MARMUSHA, 1912: OS BERBERES, O COMERCIANTE JUDEU, OS SOLDADOS
FRANCESES
Geertz dá um exemplo mais complexo, e concreto, da diferença
entre a “descrição superficial” e o behaviorismo, e a “descrição densa” e a
“antropologia simbólica e interpretativa”, descrevendo um incidente entre os
nativos berberes, um comerciante judeu que tinha relações de comércio mais ou
menos pacíficas com os nativos, e as forças de ocupação francesas.
Geertz mostra que a descrição dos fatos – pitorescos, cheios
de ação, e interessantes por si, sem dúvida – não provê nem de longe qualquer
noção dos significados culturais subjacentes.
Também salienta que a própria contextualização – os fatos ocorreram nas
montanhas do Marrocos, em 1912, e estão sendo narrados em 1968 – já determina
muito da nossa compreensão.
A ATIVIDADE DO ANTROPOLOGISTA
Segundo Geertz, “o
que o etnógrafo enfrenta, de fato (...) é uma multiplicidade de estruturas
conceituais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras,
que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem
que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar.”
“O comportamento
humano é ação simbólica – ações com significado, como a fonação na fala, o
pigmento na pintura, a linha na escrita ou a ressonância na música.”
Devemos indagar além da aparência, buscar o que está sendo
transmitido – “seja um ridículo ou um desafio, uma ironia ou uma zanga, um
deboche ou um orgulho”.
“A cultura não é uma coisa”, uma realidade “super-orgânica”e
auto-contida, com forças e propósitos em si mesma. “A
cultura tampouco é reduzível ao padrão bruto de acontecimentos que podemos
observar nas comunidades”. E
tampouco – conforme afirmou Ward Goodenough – “a cultura está localizada na mente e no coração dos homens”.
“O objetivo da antropologia
é o alargamento do universo do discurso humano.
... Esse é um objetivo ao qual o
conceito de cultura semiótico se adapta especialmente bem. Como sistema entrelaçado de signos
interpretáveis ... a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos
os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos;
ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma
inteligível – isto é, descritos com densidade.”
FONTES:
Descrição Densa - https://pt.wikipedia.org/wiki/Descri%C3%A7%C3%A3o_densa
[1]
Seminal: “que contém as sementes de um desenvolvimento posterior”.
[2] Ver o ensaio “Thick Description: Toward
an Interpretive Theory of Culture”, Geertz, 1973. Geertz explica ter adotado o termo de
Gilbert Ryle, especificamente da palestra ~What is le Penseur doing?”
[3]
“Construção de significado”: tradução livre da expressão inglesa
“Meaning-making”: definida como o processo pelo qual as pessoas constroem,
entendem, ou dão sentido aos acontecimentos da vida, relacionamentos, e à sua
própria identidade. Fonte: “Meaning-making”, https://en.wikipedia.org/wiki/Meaning-making .