Tuesday, April 18, 2017

HUM05020 – Antropologia: Fundamentos AULA 04 – Apresentação de Artigo “A Interpretação das Culturas” – Clifford Geertz Capítulo I – “Uma Descrição Densa – por uma Teoria Interpretativa da Cultura”

HUM05020 – Antropologia: Fundamentos
AULA 04 – Apresentação de Artigo

“A Interpretação das Culturas” – Clifford Geertz
Capítulo I – “Uma Descrição Densa – por uma Teoria Interpretativa da Cultura”

Sumário


O AUTOR

Clifford Geertz (23.ago.1926-30.out.2006) era um antropologista Americano que é lembrado principalmente pela sua influência na prática da antropologia simbólica, e que era considerado “por três décadas o mais influente antropologista nos Estados Unidos”.  Ele atuou até sua morte como Professor Emérito no Instituto de Estudos Avançados na Universidade de Princeton.

EXPERIÊNCIA

Geertz graduou-se em Filosofia em 1950, após servir na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial.  Prosseguiu seus estudos na Universidade de Harvard na qual graduou-se no Departamento de Relações Sociais em 1956.
Geertz recebeu formação como antropologista, e conduziu seu primeiro trabalho de campo de longo prazo, junto com sua esposa Hildred, em Java (financiado pela Fundação Ford e pelo MIT).  Ele estudou a vida religiosa de uma pequena cidade por dois anos e meio, vivendo com a família de um trabalhador.
Após concluir sua tese, Geertz retornou a Bali e Sumatra.  Obteve seu Ph.D. com uma dissertação chamada “Religion em Modjukuto: a Study on Ritual Belief in a Complex Society”.
Geertz lecionou em diversas universidades, tornando-se professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago em 1960.
Nos meados da década de 1960, Geertz mudou o curso de seus estudos e começou uma nova pesquisa no Marrocos, que resultou em diversas publicações.
Em 1970 Geertz passou a lecionar Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, em New Jersey.  Em 1973, ele publicou “The Interpretacion of Cultures”, uma coletânea de ensaios que Geertz havia escrito durante a década de 1960.
Esta se tornou seu trabalho mais conhecido e deu a ele o status de, não apenas um estudioso da Indonésia, mas um teórico da Antropologia.

IDÉIAS E CONTRIBUIÇÕES

Geertz era um defensor da Antropologia Simbólica, um enfoque que dá atenção principalmente ao papel dos símbolos na construção de um significado público.  Em seu trabalho seminal[1], “A Interpretação das Culturas”, Geertz definiu cultura como “um sistema de concepções herdadas expresso em formas simbólicas através do qual os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento sobre a vida e suas atitudes frente a ela.”


CONCEITOS

ANTROPOLOGIA SIMBÓLICA

“Antropologia Simbólica”, ou, mais amplamente, “Antropologia Simbólica e Interpretativa”, é o estudo de símbolos culturais e de como estes símbolos podem ser usados para melhor compreender uma sociedade em particular.   De acordo com Clifford Geertz, “acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal suspenso em uma teia de significados que ele mesmo teceu, eu tomo a cultura como sendo estas teias, e a análise destas é, portanto, não uma ciência experimental em busca de leis, mas uma ciência interpretativa em busca de significado”.

DESCRIÇÃO DENSA

Nos campos da Antropologia, Sociologia, estudos religiosos e desenvolvimento organizacional, uma “descrição densa” do comportamento humano é aquela que explica não apenas o comportamento, mas também seu contexto, de forma que estes comportamentos ganhem significado para um observador externo.
O termo foi criado pelo filósofo Gilbert Ryle e complementado por Geertz como uma forma de descrever seu próprio método de fazer etnografia[2].  Desde então, o termo e a metodologia que ele representa se tornaram correntes nas Ciências Sociais e mesmo além delas. 

ETNOGRAFIA

“Etnografia” é o estudo sistemático de culturas, através da exploração dos fenômenos culturais, onde o pesquisador observa a sociedade do ponto de vista do objeto do estudo.  Uma etnografia é um meio para representar – em descrições e graficamente – a cultura de um grupo.
A etnografia, como apresentação de dados empíricos sobre sociedades humanas e suas culturas, foi pioneira nos ramos biológico, social e cultural da Antropologia, mas se tornou comum nas Ciências Sociais em geral – Sociologia, História, etc. 

SEMIÓTICA

“Semiótica” é o estudo de “construção de significado”[3], o estudo do processamento de símbolos (semiose) e da comunicação significativa.  Inclui o estudo dos símbolos e de sua interpretação.  A tradição semiótica explora o estudo dos símbolos como uma parte significativa da comunicação.  Diferentemente da linguística, entretanto, a semiótica também estuda sistemas simbólicos não-linguisticos.
A semiótica é vista, frequentemente, como tendo um papel relevante na Antropologia.   Por exemplo, o semiótico e escritor italiano Umberto Eco propôs que todos os fenômenos culturais podem ser estudados como comunicações.

SÍMBOLO (SIGN)

Em semiótica, um “símbolo” é “qualquer coisa que comunica um significado - que não é o próprio símbolo – para o intérprete do símbolo.  O significado pode ser intencional, como uma palavra enunciada, ou não-intencional, como um sintoma clinico significando uma condição médica particular. 


O TEXTO EM ESTUDO

UM CONCEITO SEMIÓTICO DE CULTURA

No “Capítulo I” do seu livro “A Interpretação das Culturas”, intitulado “Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura”, Clifford Geertz começa propondo uma nova definição de cultura – ou um novo enfoque ao estudo das culturas.  Cita a multiplicidade de definições provida (onze!), por exemplo, por Clyde Kluckhohn, em seu trabalho Mirror for Man, e considera que é necessário um conceito de cultura que tenha um argumento definido a propor, que represente uma escolha alternativa a este ecletismo.
A proposta de Geertz é “um conceito de cultura essencialmente semiótico”.  “Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e sua análise; portanto, não como ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado.  É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais enigmáticas na sua superfície.”

ETNOGRAFIA – A ANÁLISE ANTROPOLÓGICA COMO FORMA DE CONHECIMENTO – “DESCRIÇÃO DENSA”

Segundo Geertz, “em antropologia, o que os praticantes fazem é etnografia”.  E, “segundo os livros-texto, praticar etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante.  Mas não são estas coisas, as técnicas e os processos determinados, que definem o empreendimento.  O que o define e o tipo de esforço intelectual que ele representa:  um risco elaborado para uma “descrição densa”, tomando emprestada uma noção de Gilbert Ryle.”

GILBERT RYLE – “O QUE `LE PENSEUR` ESTÁ FAZENDO” – O TIQUE, A PISCADELA, A IMITAÇÃO

Geertz cita o texto de Ryle, descrevendo “dois garotos piscando rapidamente o olho direito”.  Num deles, esse é um tique involuntário, no outro, é “uma piscadela conspiratória a um amigo”.  Embora os movimentos sejam idênticos; observados isoladamente, como o faria uma câmara, ou seja, numa observação “fenomenalista”, não se poderia dizer qual deles seria um tique nervosa ou uma piscadela ou, na verdade, se ambas eram piscadelas ou tiques nervosos.  No entanto, embora não retratável, a diferença é grande.
“Quem pisca está se comunicando e, de fato, comunicando-se de uma forma precisa e especial:  (1) deliberadamente, (2) a alguém em particular, (3) transmitindo uma mensagem particular, (4) de acordo com um código socialmente estabelecido e (5) sem o conhecimento dos demais companheiros.”
“Suponhamos que haja um terceiro garoto que, para divertir os companheiros, imita o piscar do que tem tique nervoso de uma maneira propositada, grosseira, óbvia.  Naturalmente, ele faz o mesmo movimento.” Mas este garoto não está piscando nem tendo um tique nervoso, ele está imitando alguém.  Não se trata de passar uma mensagem às escondidas, mas de ridicularizar.
E se o imitador resolver praticar sua imitação em casa, diante de um espelho, de forma a fazê-la mais super-óbvia, talvez com uma careta – usando, enfim, os truques dos mímicos?  Neste caso ele não estará tendo um tique nervoso, nem piscando, nem imitando – estará ensaiando! 
Entretanto, para a câmara ou para um behaviorista radical, o que ficaria registrado é que ele está contraindo rapidamente sua pálpebra – como quem pisca, ou tem tique, ou imita.
As complexidades são infindáveis.

O OBJETO DA ETNOGRAFIA: UMA HIERARQUIA ESTRATIFICADA DE ESTRUTURAS SIGNIFICANTES

Entre a “descrição superficial” do ato (contrair a pálpebra) e a “descrição densa” (ter tique, piscar, imitar, ensaiar), está o objeto da etnografia:  uma hierarquia estratificada de estruturas significantes em termos das quais o s tiques nervosos, as piscadelas, as falsas piscadelas, as imitações, os ensaios das imitações, são produzidos, percebidos e interpretados, e sem as quais eles de fato não existiriam – não importa o que alguém fizesse ou não com sua pálpebra.

MARROCOS, MARMUSHA, 1912:  OS BERBERES, O COMERCIANTE JUDEU, OS SOLDADOS FRANCESES

Geertz dá um exemplo mais complexo, e concreto, da diferença entre a “descrição superficial” e o behaviorismo, e a “descrição densa” e a “antropologia simbólica e interpretativa”, descrevendo um incidente entre os nativos berberes, um comerciante judeu que tinha relações de comércio mais ou menos pacíficas com os nativos, e as forças de ocupação francesas.
Geertz mostra que a descrição dos fatos – pitorescos, cheios de ação, e interessantes por si, sem dúvida – não provê nem de longe qualquer noção dos significados culturais subjacentes.  Também salienta que a própria contextualização – os fatos ocorreram nas montanhas do Marrocos, em 1912, e estão sendo narrados em 1968 – já determina muito da nossa compreensão.

A ATIVIDADE DO ANTROPOLOGISTA

Segundo Geertz, “o que o etnógrafo enfrenta, de fato (...) é uma multiplicidade de estruturas conceituais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar.”
“O comportamento humano é ação simbólica – ações com significado, como a fonação na fala, o pigmento na pintura, a linha na escrita ou a ressonância na música.”
Devemos indagar além da aparência, buscar o que está sendo transmitido – “seja um ridículo ou um desafio, uma ironia ou uma zanga, um deboche ou um orgulho”.
“A cultura não é uma coisa”, uma realidade “super-orgânica”e auto-contida, com forças e propósitos em si mesma.  “A cultura tampouco é reduzível ao padrão bruto de acontecimentos que podemos observar nas comunidades”.  E tampouco – conforme afirmou Ward Goodenough – “a cultura está localizada na mente e no coração dos homens”.

“O objetivo da antropologia é o alargamento do universo do discurso humano.  ...  Esse é um objetivo ao qual o conceito de cultura semiótico se adapta especialmente bem.  Como sistema entrelaçado de signos interpretáveis ... a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos com densidade.”











FONTES:




[1] Seminal: “que contém as sementes de um desenvolvimento posterior”.
[2] Ver o ensaio “Thick Description: Toward an Interpretive Theory of Culture”, Geertz, 1973.  Geertz explica ter adotado o termo de Gilbert Ryle, especificamente da palestra ~What is le Penseur doing?”
[3] “Construção de significado”: tradução livre da expressão inglesa “Meaning-making”: definida como o processo pelo qual as pessoas constroem, entendem, ou dão sentido aos acontecimentos da vida, relacionamentos, e à sua própria identidade.  Fonte: “Meaning-making”, https://en.wikipedia.org/wiki/Meaning-making .

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