Este post não nasceu como um post, foi um e-mail para meu professor de "Leituras e Escritos Etnográficos".
Achei que bem podia vir parar aqui.
Hope you enjoy!
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Sôr,
Me vieram na cabeça umas viagens, e eu resolvi partilhar com o senhor.
Não sei o que vai achar, e nem tenho certeza se vai ter tempo pra ler.
Mas se não partilhar com o senhor, nunca vou saber, não é?
Então,
Sobre as canoas dos trobriandeses, e sobre a mágica envolvida em torná-las velozes e seguras...
e sobre a descrição que Malinowski faz da sensação de navegar nelas, com frases como
"ser levado mar adentro por uma espécie de jangada suspensa que desliza acima das ondas de maneira quase mágica"...
Lindo, não é mesmo?
Mas o que me chamou mais atenção foi a frase
"Na água, ela desliza ... ora ocultando-se entre as cristas, ora flutuando sobre elas".
O senhor já navegou em um barco pequeno, em mar aberto?
Eu já tive essa experiência...
No mar aberto, as ondas não são as ondas pequenas, que se quebram logo, que vemos na praia.
São como colinas. O espaço entre o tôpo de uma onda e outra é dez metros, vinte metros...
E a altura das ondas pode ser três metros, quatro metros...
São colinas. Coxilhas. Navega-se num "pampa marítimo"...
E, quando nossa pequena embarcação está num "vale" entre duas ondas,
o tôpo das ondas é mais alto, muito mais alto, do que nossas cabeças,
e tudo que se vê é água...
Estamos rodeados de paredes de água.
O mundo se reduz a água
e céu!
É uma sensação de estar à mercê dos elementos,
de ser pequeno,
de estar suspenso entre a vida e a morte,
que se repete,
e se repete,
e se repete,
a cada "vale marítimo" em que entramos.
Com certeza essa sensação deve diminuir com o hábito, com a familiaridade.
Mas com certeza, sem uma crença na magia, em uma magia protetora,
uma magia capaz de fazer face às forças da natureza,
seria muito difícil ter a coragem de repetir e repetir e repetir a experiência,
até que venha o hábito e a familiaridade...
"Quem teria a coragem de se aventurar em uma canoa que não tenha sido embebida de mágica?", perguntei-me...
"Eu, com certeza, não!", respondi-me...
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E de repente me veio à cabeça uma analogia com... motocicletas!
Eu tenho uma motocicleta, eu já rodei, sei lá, uns trezentos mil quilômetros pilotando motocicletas.
Tenho cicatrizes de cortes, tenho cicatrizes de queimaduras, já tive uma luxação na cervical, podia ter morrido ou ficado paralítico...
E continuo andando de moto! :-)
Não existe motociclista que nunca tenha caído, eu acho!
Na verdade, eu mesmo já disse várias vezes,
"Cara, se pararmos pra pensar, o cara que inventou a motocicleta e a considerou um veículo 'usável'
era LOUCO,
e os que efetivamente USAM motocicletas
são IDIOTAS!"
:-)
E é difícil contestar essa minha afirmação, se considerarmos que pilotar uma moticicleta consiste em andar a mais de cem quilômetros por hora
praticamente sem proteção - que proteção efetiva oferecem um capacete e uma jaqueta de couro, ou mesmo uma jaqueta com "exoesqueleto",
para o impacto que o corpo vai sofrer num acidente de moto?
E como as pessoas, mesmo assim, desprezam esse raciocínio, e ANDAM de motocicleta?
Será que a "imagem" a "tradição"... a "mágica", associadas às motocicletas
não são o que permite isto?
A imagem do motociclista tipo Hell Angel.
a imagem do motociclista tipo "esportivo",
há vários estereótipos,
mas todos, sem importar a "nuance"
fortes
ousados
invulneráveis, praticamente,
e, sempre, LIVRES!
Não será isso uma variedade de "mágica da canoa"?
Não seria uma jaqueta de couro um "objeto cerimonial"?
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Obrigado por me escutar, professor!
E, não, não fumei nada, não bebo nem uso nenhuma outra substância que altere meu humor nem meu comportamento.
Só viajei nisso, mesmo!