Tuesday, March 28, 2017

MILAGRE! UM GAÚCHO DA FRONTEIRA, MACHO, BAGUAL, ENTENDENDO OS MILITANTES LGBT!


Ontem estava assistindo a uma palestra e o palestrante contou um episódio de uma passeata política em que alguns dos manifestantes, ao passar por uma igreja evangélica, picharam na fachada da mesma “Deus está Morto!”.  E comentou “Que burrice!”  Todos entendemos que ele se referia ao fato de os pichadores estarem transformando em inimigos, gratuitamente, os membros daquela congregação religiosa. 
Mas o palestrante teceu outros comentários, bastante interessantes.  Não conseguirei reproduzir palavra por palavra, mas acredito estar reproduzindo fielmente as idéias expressadas:
·         “O Brasil é um país profundamente religioso.”
·         “Real é tudo aquilo que produz efeitos.  Portanto, se a crença em Deus faz multidões de pessoas agirem de determinada forma, Deus é real”.
·         “Eu sou ateu, mas isso não se diz.”
Não concordo com nenhuma das afirmações.

O Brasil é um país profundamente religioso
Acredito, sim, que “o Brasil é um país extremamente supersticioso”.   O que eu vejo – e é claro que posso estar errado – não são práticas religiosas, e sim “simpatias para dar sorte”, rituais de propiciação que pouco tem a ver com religiosidade.  Isto na melhor das hipóteses, pois a chamada “religião” pode também ser simplesmente a adesão fanática a um grupo, sendo seu primeiro e essencial dogma que “somos os escolhidos e todos os outros irão para o inferno".

Deus é real
Concordo com o conceito de que “real é o que produz efeitos na realidade”.  Mas isto não quer dizer, de forma alguma, que Deus é real.  O fato de a crença em um deus fazer as pessoas agirem de determinada maneira significa que a crença delas em Deus é real.  Nada menos, nada mais. 

Sou ateu, mas isto não se diz
Aqui preciso de um emoticon -   :-O  .  Pasmo!
Como assim, “não se diz”?!  O que aconteceu com os ideais de defesa da diversidade, da igualdade de direitos?!   Onde ficam as ações afirmativas?!
“Somos todos iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”, como diziam os personagens de George Orwell?  Se eu for negro, devo defender meus direitos.  Se eu for homossexual, devo defender meus direitos.  Qualquer pessoa que ataque os direitos de um membro de uma destas assim chamadas minorias será um racista e um machista, certo? 
E porque um ateu não pode defender o seu direito a ser ateu e não sofrer discriminação por isto?! 
Será porque os ateus são vistos como sendo, em sua maioria, pessoas com uma certa instrução e consequentemente com algum status social?
Será que devemos fazer ações afirmativas e defender a diversidade – exceto quando o diferente for heterossexual, branco e não-miserável?

Um gaúcho da fronteira, macho, bagual, entendendo os militantes LGBT
Permitam-me partilhar um pouco da minha experiência pessoal.  Sou ateu.  E faz relativamente pouco tempo, em torno de cinco anos, que ganhei coragem para dizer claramente à minha família, especialmente às minhas filhas, “sou ateu”.  Há muitos anos já que sabia que não acreditava em nenhuma religião.  Mas não ousava afirma-lo com todas as letras.   Porque?  Por causa do preconceito!  “Ateus não vão para o céu”, “ateus não tem ética”, “ateus são maus” - são algumas das formas pelas quais o preconceito se expressa.  Por palavras e por atos!  E eu escondia a minha real maneira de pensar e sentir, por medo do preconceito.
Foi um processo longo, e em alguns momentos sofrido, mas cheguei, mais do que à auto-aceitação, ao amor próprio – eu me aceito, eu me respeito, eu me gosto, “mesmo sendo ateu”!  Me respeito, e exijo que me respeitem – “mesmo sendo ateu”!

E foi tendo esta percepção que senti que podia entender os militantes gays!  Imaginei a pessoa se questionando, “Serei mesmo gay?”.   Questionando como lidar com isto,   “OK, sou gay, mas não será melhor manter isso secreto?”   Aprendendo a viver com isto, entre os amigos gays, mas mantendo escondido na família e às vezes no trabalho...  E, finalmente, após “um processo longo e em alguns momentos sofrido”, chegando à auto-aceitação e ao auto-respeito – “Sim, sou gay, e exijo que me respeitem e respeitem minha maneira de ser!”

E daí vem alguém e diz “Olha, se tu queres ser viado, tudo bem, mas guarda isso pra ti, tá?  Não vamos ofender os conservadores, não vamos ofender os religiosos...”

UMA OVA!
A troco de que colocarei os direitos dos outros acima dos meus?!
Não sou gente?  Não sou digno?
Vejam bem, eu jamais picharia “Deus está Morto” na fachada de uma igreja.  Não acredito em agressões gratuitas.
Mas não quero e não vou mentir, não quero e não vou esconder a minha verdade!
Sou ateu!
Sou tão ateu quanto o gay mais gay é gay! 
E exijo que respeitem isso!