Sunday, May 21, 2017

DIFERENÇA ENTRE DEDUÇÃO E INDUÇÃO (ou, "somos os 'pets' de Deus!")


Durante as minhas aulas de Introdução ao Pensamento Filosófico me tem sido repetido dezenas de vezes que “a diferença entre um argumento dedutivo e um argumento indutivo é que as premissas do argumento dedutivo são tidas como cem por cento verdadeiras, enquanto as premissas do argumento indutivo são resultado de observação[1] e portanto não podem ser tomadas como garantidas”.
Ou assim eu entendi.
Sou um calouro, e portanto posso muito bem ter entendido errado.
De qualquer forma, em dado momento, percebi que
a)       Este conceito não faz sentido para mim
b)      Eu o rejeito como sem utilidade
c)       Eu vim a conceber – incipientemente, ainda – uma outra definição do que é a diferença entre dedução e indução.
E é isto que quero descrever aqui.

A diferença entre dedução e indução é muito mais simples e mais fundamental:
DEDUÇÃO USA LÓGICA
INDUÇÃO NÃO TEM NADA A VER COM LÓGICA!
Entretanto, dedução e indução não formam “reinos” distintos, muito pelo contrário, elas formam, em conjunto, a base para a construção do conhecimento e da ciência!

Passo a fundamentar minhas afirmações.

DEDUÇÃO
Tomemos o exemplo clássico de argumento dedutivo, “Todos os homens são mortais, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal”.  Um modus ponens inatacável de acordo com os princípios da Lógica Proposicional.  Se desenharmos um diagrama de Venn – um grande conjunto de “mortais” contendo um conjunto de “homens” e este por sua vez contendo um elemento “Sócrates”, vemos que a conclusão “Sócrates pertence ao conjunto dos mortais” é inatacável.



Mas ser logicamente inatacável não demonstra que o valor de verdade das premissas é garantidamente verdadeiro!
A validade do argumento é proclamada pelos princípios da Lógica Proposicional, e podemos confirmar a Lógica usando a Teoria dos Conjuntos, como acabamos de fazer.  Podemos obter confirmação também usando a Álgebra Booleana e a Lógica de Predicados – mas isto é assunto para outro post, J .
Mas... quem garante que “todos os homens são mortais”?
Para colocar isto em dúvida, não precisamos sequer entrar no domínio do “espiritual”, alegando que cada homem tem uma alma que sobrevive ao corpo e é imortal – o que já bastaria para tornar não-sólido todo o argumento.
Mesmo sem “esticar” o significado do termo “mortal”, ficando apenas no plano físico, a verdade é que tudo que podemos afirmar é que “todos os homens que conhecemos até hoje morreram”.  Mas não há prova cabal de que não há imortais ocultos entre nós.  Tampouco podemos afirmar que todos os homens vivos hoje irão morrer.  “Muito provavelmente” irão, isto é verdade.   Mas a lógica não pode garantir que a afirmação “todos os homens são mortais” é verdadeira!  Se acha que estou fazendo uma afirmação ousada – ou insana, J - leia o que David Hume escreveu sobre “o problema da indução”;  se não acredita em mim, talvez leve em conta as idéias de um grande filósofo, historiador, economista e ensaísta, que exerceu uma influência fundamental na filosofia.

Mas que as conclusões dedutivas não eram necessariamente verdade, já sabíamos – basta lembrar que os argumentos dedutivos podem ser válidos sem ser sólidos!
E, sempre que as premissas dos nossos argumentos dedutivos forem oriundas de indução (como no exemplo dado) não teremos certeza absoluta da sua solidez!

Acho muito importante salientar que o “exemplo clássico” de “argumento dedutivo”... tem premissas oriundas de indução!

Ouso dizer, então – sou um calouro ousado, holy shit! – que a solidez do clássico argumento “Sócrates é mortal” é adquirida “por transitividade” da probabilidade de valor de verdade de suas premissas, que são resultado de indução!

E quando nossas deduções tem solidez garantida? 
Ora, quando as premissas são garantidamente verdadeiras!
E isto é possível?
Claro que sim...  mas não no “mundo real”.
Temos deduções garantidamente sólidas quando as premissas vem do “mundo das abstrações”, como por exemplo a Geometria e outros ramos da Matemática.   Como os princípios fundamentais destas abstrações são uma criação do nosso intelecto, nada há neles que escape ao nosso controle.

Mas temos de ter em mente – a dedução pode ser – e é, e isto é uma das suas maiores utilidades - aplicada a premissas obtidas por indução, e através desta aplicação podemos nos certificar da validade do nosso raciocínio – embora não da solidez de nossa conclusão!


FINALMENTE, INDUÇÃO!
E o que é então esta “indução” da qual já tanto falei?
Ora, não é nada mais do que a tendência inata de todas as criaturas a “generalizar a partir de observações particulares”.
Um exemplo clássico de argumento indutivo são os célebres cisnes: "Todos os cisnes que já vimos são brancos, portanto todos os cisnes são brancos".  Onde está a lógica neste argumento?  Em lugar algum, porque a lógica nada tem a fazer na indução!  O fundamento lógico da indução é a sua premissa de que "a natureza tem uma regularidade".  E, se quisermos usar indução, temos de aceitá-lo - tal como temos que aceitar os princípios da lógica proposicional se quisermos usá-la!
Dando um exemplo simples, usando uma inteligência simples (e fofa):  Teu cachorro não sabe quando vais sair com ele ou sem ele?  Como ele sabe?  Será que lê tua mente?  Ou será que não aprendeu que quando estás com uma certa roupa, a uma certa hora, e olhas pra ele de um certo jeito, vais leva-lo a passear?  Teu cachorro está usando “indução” – “Uóf, ele fez isto ontem, e anteontem, e no dia antes de anteontem – portanto ele vai fazer isto hoje também! Uóf!  Passeio!”
Não há nada de “lógica” nisto, há apenas a aceitação da premissa de que “há regularidade na natureza” – premissa que partilhamos com os cachorros, e com a maioria dos seres vivos  (talvez todos) [2].
Somos, de certa forma, “os pets de um Poder Superior” – Deus, a Natureza, o Universo, whatever!   “O Sol sempre nasce, portanto continuará a nascer.”  Indução!  “Seres vivos sempre geraram prole semelhante a eles, portanto continuarão a gerar.” Indução!
Mas e se amanhã Deus, ou a Natureza, ou whathever, estiver cansado ou simplesmente indisposto e não levar seus pets a passear?  Quem nos garante que isto não irá acontecer?  Não a lógica, certamente!

Então a indução é simplesmente “ter esperança de que a regularidade continue”?
Certamente que não – porque podemos fortalecer nossas induções entrelaçando-as para formar princípios mais gerais - ou seja, nossas expectativas estariam baseadas em regularidades em tese mais significativas...  Mas o “problema da indução” é assunto para a obra de uma vida, e não tema para um texto de calouro.  Sugiro a leitura do excelente livro “What is This Thing Called Science”, de Alan Chalmers, para uma introdução ao assunto.

Mas, então, a lógica é inútil para a indução?
De forma alguma!
A lógica nos permite identificar “a regularidade correta” (ou a “regularidade que importa”, ou “o tipo certo de regularidade”). 
Por exemplo:  tenho que admitir que, quando tinha uns três ou quatro anos de idade, lembro de ter pensado que “as árvores fazem o vento”.  Porque eu morava num local arborizado, e sempre que havia vento, os ramos das árvores estavam se movimentando.  Logo...  J
Abandonei este paradigma quando constatei que havia vento também em lugares sem árvores.
Um exemplo menos pessoal:  a história de Chantecler, o galo personagem-título da peça de Rostand, que acreditava que seu canto fazia nascer o Sol!  Até o dia em que dormiu demais, e o Sol nasceu sem ele...
Eu, e Chantecler, cometemos um engano grosseiro em uma das questões mais complexas da ciência – o estabelecimento de relações de causalidade entre regularidades observadas.  
A indução, por si, não é capaz de nos dar uma explicação do mundo.
Apesar disto, a indução é a base da ciência.
E para fazermos boa ciência, é preciso que percebamos não só as regularidades, mas também quais regularidades são relevantes, e como elas estão relacionadas.  É preciso que façamos aplicações do nosso paradigma científico para comprová-lo – e na elaboração destas aplicações a dedução desempenha papel fundamental!  É preciso que estabeleçamos correlações de causa e efeito entre as regularidades que observamos, para provar a consistência do nosso modelo de mundo – e aqui também a dedução é um instrumento essencial!

Disse ao início que "dedução usa Lógica, indução nada tem a ver com lógica, entretanto, dedução e indução não formam “reinos” distintos, muito pelo contrário, elas formam, em conjunto, a base para a construção do conhecimento e da ciência!”
QED!






[1][1] Assumo que o meu leitor esteja familiarizado com o conceito de “argumento” “proposição” ou “premissa”, “validade” e “solidez”.  Espero que eu também esteja, ;-) !
[2] Acaba de me ocorrer que uma boa razão para acreditar na regularidade da natureza é a própria evolução dos seres vivos – mutações aleatórias só podem conduzir a seres mais adaptados ao meio ambiente se este meio ambiente possuir uma certa regularidade!  Mas isto é outro assunto!

HUM01861 - INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO - PRIMEIRA AVALIAÇÃO

ESCLARECIMENTO
Porque estou postando a minha prova de Filosofia?  Bem, antes de mais nada porque este blog funciona para mim como um "caderno de anotações" - coloque aqui coisas que quero poder consultar mais tarde.  Também porque acredito que os colegas de turma (HUM01861 - INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO - TURMA D (2017/1)) poderão achar interessante.  Eu certamente gostaria (gostarei?) de ver as provas deles.
E - talvez a melhor razão - porque postei estas respostas e achei que tinha ido bem na prova.  Talvez tenha ido.  Talvez eu tire até, digamos, mais de oito.  Mas o que importa é que, depois de postar a prova, continuei pensando, e cheguei à conclusão de que eu não me daria mais de sete!
Não porque eu sinta que sei pouco do conteúdo que nos foi pedido, mas porque estou pensando que o aprendi a abordagem errada - talvez apenas com a ênfase inapropriada - ao conteúdo que nos foi passado.  Específicamente, a diferença entre argumento dedutivo e argumento indutivo.  Mas isto é assunto para outro post! :-)  (atualização:  este "outro post" saiu, é este aqui: ""Diferença entre Dedução e Indução" )
Por enquanto, espero que a leitura do meu trabalho seja de algum proveito ou entretenimento - e fico no aguardo de poder ler os dos colegas!

Ah, antes gostaria de partilhar com vocês alguns links interessantes com que deparei no proceso de redação:
LINKS CONSULTADOS:
·         What the Tortoise Said to Achilles - Lewis Carroll - http://www.ditext.com/carroll/tortoise.html
·         What the Tortoise Said to Achilles - https://en.wikipedia.org/wiki/What_the_Tortoise_Said_to_Achilles
·         The standard form of rules of inference - https://en.wikipedia.org/wiki/Rule_of_inference


Artigos interessantes encontrados:
·         Introdução ao Pensamento Lógico - Por: Eduardo Chaves - http://www.genismo.com/logicatexto2.htm
·         O que é um argumento bom (ou cogente)? – 2 - http://duvida-metodica.blogspot.com.br/2009/02/o-que-e-um-argumento-bom-ou-cogente-2_08.html
·         Pensar, Una incitación a la filosofía de Simon Blackburn – LIVRO COMPLETO! - https://pt.scribd.com/doc/64329852/Pensar-Una-incitacion-a-la-filosofia-de-Simon-Blackburn






FILOSOFIA – AVALIAÇÃO I – PEDRO FRANCISCO BORGES PEREIRA - 00290300

Questão 1
O principal exemplo da utilização de um argumento lógico é quando procuramos convencer alguém de uma tese – a conclusão; se somos honestos e estamos bem informados, (i) essa conclusão é verdadeira. Para efetuar esse convencimento, apresentamos proposições que (ii) possam ser aceitas também por nosso interlocutor e (iii) que sustentem a conclusão – i.e., que o façam aceitá-la também. Esse é um bom argumento. Por que só um argumento sólido preenche essas três condições?

“...se somos honestos e estamos bem informados, (i) essa conclusão é verdadeira.”
“... e (iii) que sustentem a conclusão...”
Se o nosso argumento for formalmente válido, i.e., estruturado de uma maneira correta em relação à lógica formal, poderemos demonstrar – logicamente – ao nosso interlocutor a sua validade – ou seja, que é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão ser falsa (a não ser que nosso interlocutor seja a tartaruga que conversou com Aquiles, J, mas isto veremos na Questão 2).
Se, ao construirmos o nosso argumento, obedecermos a alguma das formas argumentativas clássicas (primeiro sistematizadas por Aristóteles), como o modus ponendus ponens ou o modus tollens, poderemos usar os recursos da lógica proposicional (por exemplo operadores Booleanos) para demonstrar a validade do nosso argumento.  Se nossas proposições forem verdadeiras, nosso argumento será, além de válido, também sólido.  E sendo nosso argumento válido e sólido, só restará ao nosso interlocutor aceitar que nossa conclusão é verdadeira!

“apresentamos proposições que (ii) possam ser aceitas também por nosso interlocutor”
As razões para aceitar nossas proposições variam conforme o domínio a que elas pertencem.  Pode-se dizer que alguns argumentos, de certa forma, dispensam convencimento do interlocutor, pois as proposições são evidentes “per se” e a conclusão pode ser demonstrada por pura lógica:
Quando aplicamos a lógica proposicional ao domínio das abstrações, o valor de verdade das nossas proposições é binário e depende somente das convenções da abstração.  Por exemplo, tomemos a Geometria Plana:  se digo que “Retas paralelas não tem pontos em comum; as retas r1 e r2 tem um ponto em comum, logo r1 e r2 não são paralelas”, tudo que eu preciso fazer para comprovar minha premissa antecedente é recorrer à definição de “retas paralelas” no universo da geometria euclidiana; para comprovar minha premissa consequente posso recorrer a um gráfico cartesiano mostrando os segmentos de r1 e r2 com o ponto em comum, ou posso aplicar a equação reduzida da reta (y=mx+n) a pontos conhecidos de r1 e r2 para demonstrar que tem um ponto em comum.  QED, o valor de verdade de minhas premissas, no universo abstrato da geometria plana, pode ser provado.   Resta a possibilidade de meu interlocutor não conhecer geometria euclidiana, e eu ter de ensiná-lo – mas então não se tratará propriamente de “convencer”, e sim de “informar”.

Quando lidamos com o mundo real e não com abstrações, é muito difícil, se não impossível, provar cabalmente que uma proposição é verdadeira.  Podemos apenas demonstrar que as proposições são plausíveis ou até mesmo que tem um alto grau de probabilidade de ser verdadeiras. Posso usar estatística, inferência bayesiana, explicações causais (que serão usualmente resultado de outras induções e portanto estarão apenas adiando o problema); podemos também empregar a escrita conceitual criada por Frege, que evoluiu na estrutura quantificacional usada por Leibniz– todos estes recursos poderão demonstrar que minhas proposições são “muito prováveis”, mas não “absolutamente certas”.
Isto não impede que eu use as regras da lógica para verificar a validade do meu raciocínio – apenas, eu não terei certeza da solidez do meu argumento; poderei no máximo demonstrar que “ele é válido assumindo-se que as proposições sejam verdadeiras” e que ele “tem a mesma probabilidade de ser sólido que as minhas proposições têm de ser verdadeiras”.
Mas apesar disto eu posso construir argumentos válidos e sólidos no domínio do “mundo real” – basta que para isto eu use proposições que negam alguma coisa.  Em outras palavras:  o conhecimento do mundo “natural” nos vem por indução, e a indução, intrinsecamente, não pode nos dar certeza absoluta de que alguma regra é verdadeira.  Pode, contudo, nos dar a certeza de que uma regra é falsa – basta encontrarmos uma exceção!  Dando um exemplo extremamente simples e por isto mesmo ilustrativo: tomemos o argumento “todos os cisnes são brancos, a ave que estamos vendo é negra, logo não pode ser um cisne”.  O argumento é válido.  Mas basta que encontremos um cisne negro para que seja provado que não é sólido!

­­ Questão 2
Tartaruga: “Aceito A e B e C e D. Suponhamos que ainda assim recuso aceitar Z; e então?” Aquiles: “Então a Lógica forçar-te-ia a fazê-lo! — Replicou triunfantemente Aquiles. [“O que a Tartaruga disse a Aquiles”]
i) Em que sentido podemos dizer que a Lógica é “coerciva” [dica: relacione com a noção de validade]? Qual o problema com a afirmação de Aquiles: “...a Lógica forçar-te-ia a fazê-lo”? [não, não é o emprego da mesóclise]
ii) Por que seria menos plausível dizer “a indução é coerciva”? O que torna o ceticismo sobre a indução (o “problema da indução”) mais plausível ou atraente que o ceticismo sobre a lógica?

“Qual o problema com a afirmação de Aquiles: ‘... a lógica forçar-te-ia a fazê-lo’?”
A Lógica é coerciva... se aceitarmos os princípios lógicos!  O argumento de Aquiles é um modus ponens, uma forma padronizada de regra de inferência.  Se aceitamos os princípios da lógica proposicional, somos forçados a aceitar que o argumento de Aquiles é válido – e aqui, como Aquiles pressupunha, encerra-se a questão.
O que a Tartaruga está fazendo é negar a validade da lógica proposicional.  E como a Tartaruga, maliciosamente, faz isto no contexto de um argumento seguindo um padrão de lógica proposicional, coloca Aquiles em uma regressão sem fim.
Se a Tartaruga estivesse fazendo isto de boa-fé, melhor seria que fosse jogar futebol, conforme a sugestão de Aquiles.  Mas já que conseguiu colocar nosso herói e – pretenso – lógico em um beco sem saída, creio que a Tartaruga está intencionalmente deixando em evidência que toda a lógica proposicional baseia-se em “princípios dados”, que aceitamos (devemos aceitar) a priori!  Esta aceitação é o que encerra a regressão infinita.
Pode parecer, à primeira vista, que este paradoxo põe em cheque o valor da Lógica.  Se lembrarmos, entretanto, que a validade da lógica proposicional pode ser matematicamente demonstrada, poderemos tranquilamente argumentar que se a Tartaruga não aceita seus postulados, melhor será que vá jogar futebol!

ii) Por que seria menos plausível dizer “a indução é coerciva”? O que torna o ceticismo sobre a indução (o “problema da indução”) mais plausível ou atraente que o ceticismo sobre a lógica?
Quando usamos a dedução, demonstramos que não há maneira de as premissas serem verdadeiras e a conclusão ser falsa
A indução baseia-se na observação.  As nossas ciências ditas “exatas” baseiam-se na observação (na experimentação) para validar (ou falsear) suas proposições.  O problema é que, até que o objeto da Ciência – o Universo – complete o seu ciclo de existência, não poderemos afirmar que observamos tudo.  Tentamos detectar regularidades no que observamos, esforçamo-nos para usar amostras significativas e sem viés em nossas observações, elaboramos nossas proposições de forma que sejam falseáveis – ou seja, de forma que façam uma afirmação sem ambiguidade...  Mas apesar disto tudo, jamais poderemos estar certos de que nossas induções espelhem “a verdade” – não até que observemos tudo em todo o Universo, e até o momento em que ele deixe de existir.
Esta incerteza constitui simultaneamente uma limitação e a maior força da indução.  Senão vejamos: as conclusões da dedução já estavam implícitas nas premissas, portanto na verdade não aprendemos nada de novo com a dedução – no máximo fazemos uma idéia mais clara e completa do que já sabíamos.  Ao contrário, a incerteza da indução deixa-a aberta a novos desdobramentos, trazendo novos conhecimentos.
Um exemplo que comentamos em aula é o do calendário.  O calendário elaborado segundo o geocentrismo funcionava perfeitamente para medir as estações e a passagem dos anos – funcionava baseado numa regularidade real, embora baseada em premissas equivocadas.  À medida que a teoria geocêntrica foi tentando incorporar mais e mais aplicações, inconsistências foram aparecendo – até que a dificuldade de conciliar as inconsistências levou a um novo paradigma: o sistema heliocêntrico.  As aplicações corretas da teoria anterior continuaram válidas, e novas aplicações se tornaram possíveis com o novo paradigma, uma vez que a Ciência havia aprendido a observar o Universo de uma maneira mais acurada – a partir da indução!




Monday, May 01, 2017

ARISTÓTELES ERA UM FILHA DA PUTA!!!


Me senti na obrigação de escrever este post porque Aristóteles é leitura obrigatória para estudantes de Filosofia, Ciëncias Sociais, e outros cursos de Humanidades.
Entendo que é importante conhecer a História da Filosofia.
Mas considero essencial que se faça aos leitores – principalmente aos jovens! – uma séria advertência – ARISTÓTELES ERA UM FILHA DA PUTA!  Além disto, suas idéias não são mais do que um embrião – um aborto? – de Filosofia ou de Sociologia.
O estudo que faz sentido é o estudo de Aristóteles como História, não como Filosofia!

Para ser bem honesto, tenho que esclarecer que não li toda a obra de Aristóteles – nem pretendo, pois como acadêmico de Ciências Sociais, tenho uma agenda extensíssima de leituras, das quais 99.99 por cento é mais valiosa que as obras de Aristóteles!  Mas li sua “Política” (disponível gratuitamente em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bk000426.pdf , em Espanhol). 
Os comentários que faço abaixo baseiam-se nesta obra.
Usei apenas os capítulos iniciais não porque a obra seja excessivamente extensa, mas porque analisar os capítulos iniciais basta para fundamentar a minha afirmação: Aristóteles era um filha da puta, escravagista, machista, xenófobo, nazista.

Vamos ao ponto, então.  Na página 10 da Política, conforme publicada no site DominioPublico.gov.br (ver link acima), Aristóteles declara que

“La naturaleza, teniendo en cuenta la necesidad de la conservación, ha creado a unos seres para mandar y a otros para obedecer. Ha querido que el ser dotado de razón y de previsión mande como dueño, así como también que el ser capaz por sus facultades corporales de ejecutar las órdenes, obedezca como esclavo, y de esta suerte el interés del señor y el del esclavo se confunden. La naturaleza ha fijado, por consiguiente, la condición especial de la mujer y la del esclavo. La naturaleza no es mezquina como nuestros artistas, y nada de lo que hace se parece a los cuchillos de Delfos fabricados por aquéllos. En la naturaleza un ser no tiene más que un solo destino, porque los instrumentos son más perfectos cuando sirven, no para muchos usos, sino para uno solo. Entre los bárbaros, la mujer y el esclavo están en una misma línea, y la razón es muy clara; la naturaleza no ha creado entre ellos un ser destinado a mandar, y realmente no cabe entre los mismos otra unión que la de esclavo con esclava, y los poetas no se engañan cuando dicen: Sí, el griego tiene derecho a mandar al bárbaro, puesto que la naturaleza ha querido que bárbaro y esclavo fuesen una misma cosa .”

Tudo isto é um amontoado de canalhices e absurdos, palavra por palavra.  Vou destacar apenas alguns trechos, ou este post não teria fim.
Neste pequeno trecho, Aristóteles declara-se escravista, machista e xenófobo, senão vejamos:

A natureza quer que o ser dotado de razão mande, e o que o ser capaz de executar as ordens obedeça!  No caso, Aristóteles era o “ser dotado de razão”.  Dotado também de armas e de uma milícia de aristocratas para exterminar qualquer escravo rebelde!  Mas não basta a este aristocrata dominar pela força, viver em ócio às custas do trabalho escravo!  Ele quer também nos convencer de que isto é “uma criação da natureza”.  E como a força não traz a submissão completa – o submetido estará sempre à espera de uma ocasião para revoltar-se – Aristóteles procura, com sua nefasta “filosofia”, a) a justificação, em termos éticos, desta situação de injustiça e b) o convencimento do escravo de que a escravidão é “para o seu próprio bem” – convencimento que, se obtido, materializa a dominação no nível mais profundo, não mais pela submissão do corpo pela força, mas do próprio espírito do dominado pela ideologia do dominante!

A natureza fixou, portanto, a condição especial da mulher e do escravo!  Não sei nem o que comentar disto!  Deixo a quem puder a defesa da tese de que a mulher é intrinsecamente um ser inferior, um “tipo especial de escravo”.

Sim, o grego tem direito a mandar no bárbaro, desde que a natureza quis que o bárbaro e o escravo fossem a mesma coisa!  Tenha-se em conta que “bárbaro” significava “não-grego”, ou seja, estrangeiro.   Que posição poderia ser mais etnocêntrica e xenófoba do que esta, de que todos os não-gregos são inferiores e feitos para a escravidão?!

Defensores de Aristóteles poderão dizer que este posicionamento ideológico era o único possível na época em que ele viveu, ou pelo menos que era generalizado.  Não é verdade, e o próprio Aristóteles nos diz que não.  Vejamos outro trecho.  Na página 12 da publicação citada, temos que
“Se sostiene, por una parte, que hay una ciencia, propia del señor, la cual se confunde con la del padre de familia, con la del magistrado y con la del rey, de que hemos hablado al principio. Otros, por lo contrario, pretenden que el poder del señor es contra naturaleza; que la ley es la que hace a los hombres libres y esclavos, no reconociendo la naturaleza ninguna diferencia entre ellos; y que, por último, la esclavitud es inicua, puesto que es obra de la violencia .”

Ao afirmar que “outros, pelo contrário, defendem a idéia de que o poder do senhor é contrário à natureza” e que “a escravidão é uma injustiça e uma perversidade”, Aristóteles está nos provando que havia oposição à escravidão na Grécia antiga, e que ele, Aristóteles, estava ciente dos argumentos destes opositores.  Apesar disto, não concordava que a escravidão era “obra de violência e uma iniquidade”.  Escravista, e escravista consciente. 
Em que Aristóteles se distingue da repelente grei da escória humana que defendeu a escravidão ao longo dos tempos?  Que fez um Holocausto na África?  Que fez a desgraça da América e do Caribe?  Escória humana, que não sei se me desperta mais ódio, nojo ou horror – e da qual Aristóteles faz, sim, parte!

Alguma dúvida de que Aristóteles era um escravista tão repelente quanto os que mais o possam ser?  Leia então este trecho (que pode ser encontrado mais adiante, na página 13 da obra citada):
Por lo demás, la utilidad de los animales domesticados y la de los esclavos son poco más o menos del mismo género. Unos y otros nos ayudan con el auxilio de sus fuerzas corporales a satisfacer las necesidades de nuestra existencia. La naturaleza misma lo quiere así, puesto que hace los cuerpos de los hombres libres diferentes de los de los esclavos, dando a éstos el vigor necesario para las obras penosas de la sociedad, y haciendo, por lo contrario, a los primeros incapaces de doblar su erguido cuerpo para dedicarse a trabajos duros, y destinándolos solamente a las funciones de la vida civil, repartida para ellos entre las ocupaciones de la guerra y las de la paz.


Mas Aristóteles tem trechos que não são tão obviamente malignos, e cuja leitura é por isto tanto mais perigosa para o leitor desprevenido.  Vejamos o que ele diz nas páginas 12 e 13 da obra citada:
Por lo pronto, el ser vivo se compone de un alma y de un cuerpo, hechos naturalmente aquélla para mandar y éste para obedecer. Por lo menos así lo proclama la voz de la naturaleza, que importa estudiar en los seres desenvueltos según sus leyes regulares y no en los seres degradados. Este predominio del alma es evidente en el hombre perfectamente sano de espíritu y de cuerpo, único que debemos examinar aquí. En los hombres corruptos, o dispuestos a serlo, el cuerpo parece dominar a veces como soberano sobre el alma, precisamente porque su desenvolvimiento irregular es completamente contrario a la naturaleza. Es preciso, repito, reconocer ante todo en el ser vivo la existencia de una autoridad semejante a la vez a la de un señor y a la de un magistrado; el alma manda al cuerpo como un dueño a su esclavo, y la razón manda al instinto como un magistrado, como un rey; porque, evidentemente, no puede negarse que no sea natural y bueno para el cuerpo el obedecer al alma, y para la parte sensible de nuestro ser el obedecer a la razón y a la parte inteligente. La igualdad o la dislocación del poder, que se muestra entre estos diversos elementos, sería igualmente funesta para todos ellos. Lo mismo sucede entre el hombre y los demás animales: los animales domesticados valen naturalmente más que los animales salvajes, siendo para ellos una gran ventaja, si se considera su propia seguridad, el estar sometidos al hombre. Por otra parte, la relación de los sexos es aná- loga; el uno es superior al otro; éste está hecho para mandar, aquél para obedecer.”
Este trecho não apenas mostra a filha-da-putice de Aristóteles; põe também em evidência suas limitações como filósofo.  O que é a alma?  Esta pergunta tão rica e ampla não parece ocorrer ao nosso “filósofo” nem por um segundo, a existência de uma “alma” não é questionada e seus atributos são sequer mencionados.  “Eu sei que a alma existe e como ela é, seus idiotas, e isto me basta”, parece afirmar Aristóteles nas entrelinhas deste texto!

Vamos traduzir esta “alma” como “mente”, para possibilitar alguma análise racional, e veremos então que temos aqui uma série de idéias perniciosas:  a dicotomia entre mente e corpo como um fato dado; a ‘corrupção’ do corpo; a superioridade da razão sobre os sentimentos...  Conceitos que sabemos hoje em dia que são a origem de uma enorme gama de neuroses e doenças mentais, assim como garantia de uma vida desajustada e infeliz.

Vejamos outro trecho que não é obviamente maligno, apenas... estulto!
No puede ponerse en duda que el Estado está naturalmente sobre la familia y sobre cada individuo, porque el todo es necesariamente superior a la parte, puesto que una vez destruido el todo, ya no hay partes, ...
Que magnífica incapacidade de enxergar um mundo diferente da pequena comunidade onde vive!  Para tal grau de etnocentrismo, só posso aventar a hipótese de que foi gerado por uma vida – por gerações – de vida em hegemonia social, que acabaram encerrando nosso “filósofo” em uma “bolha”, um “mundo especial” e mágico onde só ele e sua classe importam!
A coletividade é obrigatoriamente um Estado, sr. Aristóteles?  Tribos são Estados?
Sociedade é uma coisa, Estado é outra!  Matricule-se em Sociologia I, sr. Aristóteles!


Para ser justo, tenho que conceder que Aristóteles tem alguns insights, nem tudo que diz é besteira.  Tem o mérito de ser pioneiro – ou o pioneiro que viemos a conhecer – em obras que versam sobre sociologia.  Mas as besteiras que diz são tantas, e tão desarrazoadas, que me parecem denunciar uma pessoa que intencionalmente evita expor-se a idéias diferentes das suas, que nunca é questionado por evitar discutir com os que dele discordariam – e assim afunda-se cada vez mais nos seus preconceitos e sandices.  O que faz sentido, uma vez que ele era membro de uma elite e muito provavelmente não tinha contato com ninguém fora dela.

Aristóteles pensa como um aristocrata – ou seja, racionaliza verdadeiros absurdos, para justificar os privilégios de que desfruta.
Se faz isto inconscientemente, é um ingênuo – um canalha ingênuo, talvez.
Se tem consciência da situação, e faz propaganda visando conscientemente manter a hegemonia de que desfruta na sociedade grega, então não é melhor que Goebbels[1], o ministro da Propaganda de Hitler!



APÊNDICE
Para ser justo, incluo como “Apëndice” um trecho que me pareceu positivamente interessante, o insight de Aristóteles sobre o “dinheiro”, na pag. 16 da obra citada:
“Esta es la causa de que se suponga muchas veces que la opulencia consiste en la abundancia de dinero, como que sobre el dinero giran las adquisiciones y las ventas; y, sin embargo, este dinero no es en sí mismo más que una cosa absolutamente vana, no teniendo otro valor que el que le da la ley, no la naturaleza, puesto que una modificación en las convenciones que tienen lugar entre los que se sirven de él, puede disminuir completamente su estimación y hacerle del todo incapaz para satisfacer ninguna de nuestras necesidades. En efecto, ¿no puede suceder que un hombre, a pesar de todo su dinero, carezca de los objetos de primera necesidad?, y ¿no es una riqueza ridícula aquella cuya abundancia no impide que el que la posee se muera de hambre?15. Es como el Midas de la mitología, que, llevado de su codicia desenfrenada, hizo convertir en oro todos los manjares de su mesa.”
Aqui temos um bom insight!  Aristóteles se engana ao pensar que “o valor do dinheiro vem da lei”, mas destaca muito bem que ele não tem valor intrínseco – o que, apesar de óbvio, muitas vezes esquecemos por “naturalizarmos” o valor do dinheiro.
O leitor poderá achar interessantes alguns comentários que faço sobre o tema  no meu artigo “Crypto Currency”, que pode ser encontrado em  http://pedropereiraksu.blogspot.com.br/2014/11/crypto-currency.html .





[1] Aliás, Goebbels era Doutor em Filosofia – ver https://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_Goebbels .