Sunday, May 21, 2017

HUM01861 - INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO - PRIMEIRA AVALIAÇÃO

ESCLARECIMENTO
Porque estou postando a minha prova de Filosofia?  Bem, antes de mais nada porque este blog funciona para mim como um "caderno de anotações" - coloque aqui coisas que quero poder consultar mais tarde.  Também porque acredito que os colegas de turma (HUM01861 - INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO - TURMA D (2017/1)) poderão achar interessante.  Eu certamente gostaria (gostarei?) de ver as provas deles.
E - talvez a melhor razão - porque postei estas respostas e achei que tinha ido bem na prova.  Talvez tenha ido.  Talvez eu tire até, digamos, mais de oito.  Mas o que importa é que, depois de postar a prova, continuei pensando, e cheguei à conclusão de que eu não me daria mais de sete!
Não porque eu sinta que sei pouco do conteúdo que nos foi pedido, mas porque estou pensando que o aprendi a abordagem errada - talvez apenas com a ênfase inapropriada - ao conteúdo que nos foi passado.  Específicamente, a diferença entre argumento dedutivo e argumento indutivo.  Mas isto é assunto para outro post! :-)  (atualização:  este "outro post" saiu, é este aqui: ""Diferença entre Dedução e Indução" )
Por enquanto, espero que a leitura do meu trabalho seja de algum proveito ou entretenimento - e fico no aguardo de poder ler os dos colegas!

Ah, antes gostaria de partilhar com vocês alguns links interessantes com que deparei no proceso de redação:
LINKS CONSULTADOS:
·         What the Tortoise Said to Achilles - Lewis Carroll - http://www.ditext.com/carroll/tortoise.html
·         What the Tortoise Said to Achilles - https://en.wikipedia.org/wiki/What_the_Tortoise_Said_to_Achilles
·         The standard form of rules of inference - https://en.wikipedia.org/wiki/Rule_of_inference


Artigos interessantes encontrados:
·         Introdução ao Pensamento Lógico - Por: Eduardo Chaves - http://www.genismo.com/logicatexto2.htm
·         O que é um argumento bom (ou cogente)? – 2 - http://duvida-metodica.blogspot.com.br/2009/02/o-que-e-um-argumento-bom-ou-cogente-2_08.html
·         Pensar, Una incitación a la filosofía de Simon Blackburn – LIVRO COMPLETO! - https://pt.scribd.com/doc/64329852/Pensar-Una-incitacion-a-la-filosofia-de-Simon-Blackburn






FILOSOFIA – AVALIAÇÃO I – PEDRO FRANCISCO BORGES PEREIRA - 00290300

Questão 1
O principal exemplo da utilização de um argumento lógico é quando procuramos convencer alguém de uma tese – a conclusão; se somos honestos e estamos bem informados, (i) essa conclusão é verdadeira. Para efetuar esse convencimento, apresentamos proposições que (ii) possam ser aceitas também por nosso interlocutor e (iii) que sustentem a conclusão – i.e., que o façam aceitá-la também. Esse é um bom argumento. Por que só um argumento sólido preenche essas três condições?

“...se somos honestos e estamos bem informados, (i) essa conclusão é verdadeira.”
“... e (iii) que sustentem a conclusão...”
Se o nosso argumento for formalmente válido, i.e., estruturado de uma maneira correta em relação à lógica formal, poderemos demonstrar – logicamente – ao nosso interlocutor a sua validade – ou seja, que é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão ser falsa (a não ser que nosso interlocutor seja a tartaruga que conversou com Aquiles, J, mas isto veremos na Questão 2).
Se, ao construirmos o nosso argumento, obedecermos a alguma das formas argumentativas clássicas (primeiro sistematizadas por Aristóteles), como o modus ponendus ponens ou o modus tollens, poderemos usar os recursos da lógica proposicional (por exemplo operadores Booleanos) para demonstrar a validade do nosso argumento.  Se nossas proposições forem verdadeiras, nosso argumento será, além de válido, também sólido.  E sendo nosso argumento válido e sólido, só restará ao nosso interlocutor aceitar que nossa conclusão é verdadeira!

“apresentamos proposições que (ii) possam ser aceitas também por nosso interlocutor”
As razões para aceitar nossas proposições variam conforme o domínio a que elas pertencem.  Pode-se dizer que alguns argumentos, de certa forma, dispensam convencimento do interlocutor, pois as proposições são evidentes “per se” e a conclusão pode ser demonstrada por pura lógica:
Quando aplicamos a lógica proposicional ao domínio das abstrações, o valor de verdade das nossas proposições é binário e depende somente das convenções da abstração.  Por exemplo, tomemos a Geometria Plana:  se digo que “Retas paralelas não tem pontos em comum; as retas r1 e r2 tem um ponto em comum, logo r1 e r2 não são paralelas”, tudo que eu preciso fazer para comprovar minha premissa antecedente é recorrer à definição de “retas paralelas” no universo da geometria euclidiana; para comprovar minha premissa consequente posso recorrer a um gráfico cartesiano mostrando os segmentos de r1 e r2 com o ponto em comum, ou posso aplicar a equação reduzida da reta (y=mx+n) a pontos conhecidos de r1 e r2 para demonstrar que tem um ponto em comum.  QED, o valor de verdade de minhas premissas, no universo abstrato da geometria plana, pode ser provado.   Resta a possibilidade de meu interlocutor não conhecer geometria euclidiana, e eu ter de ensiná-lo – mas então não se tratará propriamente de “convencer”, e sim de “informar”.

Quando lidamos com o mundo real e não com abstrações, é muito difícil, se não impossível, provar cabalmente que uma proposição é verdadeira.  Podemos apenas demonstrar que as proposições são plausíveis ou até mesmo que tem um alto grau de probabilidade de ser verdadeiras. Posso usar estatística, inferência bayesiana, explicações causais (que serão usualmente resultado de outras induções e portanto estarão apenas adiando o problema); podemos também empregar a escrita conceitual criada por Frege, que evoluiu na estrutura quantificacional usada por Leibniz– todos estes recursos poderão demonstrar que minhas proposições são “muito prováveis”, mas não “absolutamente certas”.
Isto não impede que eu use as regras da lógica para verificar a validade do meu raciocínio – apenas, eu não terei certeza da solidez do meu argumento; poderei no máximo demonstrar que “ele é válido assumindo-se que as proposições sejam verdadeiras” e que ele “tem a mesma probabilidade de ser sólido que as minhas proposições têm de ser verdadeiras”.
Mas apesar disto eu posso construir argumentos válidos e sólidos no domínio do “mundo real” – basta que para isto eu use proposições que negam alguma coisa.  Em outras palavras:  o conhecimento do mundo “natural” nos vem por indução, e a indução, intrinsecamente, não pode nos dar certeza absoluta de que alguma regra é verdadeira.  Pode, contudo, nos dar a certeza de que uma regra é falsa – basta encontrarmos uma exceção!  Dando um exemplo extremamente simples e por isto mesmo ilustrativo: tomemos o argumento “todos os cisnes são brancos, a ave que estamos vendo é negra, logo não pode ser um cisne”.  O argumento é válido.  Mas basta que encontremos um cisne negro para que seja provado que não é sólido!

­­ Questão 2
Tartaruga: “Aceito A e B e C e D. Suponhamos que ainda assim recuso aceitar Z; e então?” Aquiles: “Então a Lógica forçar-te-ia a fazê-lo! — Replicou triunfantemente Aquiles. [“O que a Tartaruga disse a Aquiles”]
i) Em que sentido podemos dizer que a Lógica é “coerciva” [dica: relacione com a noção de validade]? Qual o problema com a afirmação de Aquiles: “...a Lógica forçar-te-ia a fazê-lo”? [não, não é o emprego da mesóclise]
ii) Por que seria menos plausível dizer “a indução é coerciva”? O que torna o ceticismo sobre a indução (o “problema da indução”) mais plausível ou atraente que o ceticismo sobre a lógica?

“Qual o problema com a afirmação de Aquiles: ‘... a lógica forçar-te-ia a fazê-lo’?”
A Lógica é coerciva... se aceitarmos os princípios lógicos!  O argumento de Aquiles é um modus ponens, uma forma padronizada de regra de inferência.  Se aceitamos os princípios da lógica proposicional, somos forçados a aceitar que o argumento de Aquiles é válido – e aqui, como Aquiles pressupunha, encerra-se a questão.
O que a Tartaruga está fazendo é negar a validade da lógica proposicional.  E como a Tartaruga, maliciosamente, faz isto no contexto de um argumento seguindo um padrão de lógica proposicional, coloca Aquiles em uma regressão sem fim.
Se a Tartaruga estivesse fazendo isto de boa-fé, melhor seria que fosse jogar futebol, conforme a sugestão de Aquiles.  Mas já que conseguiu colocar nosso herói e – pretenso – lógico em um beco sem saída, creio que a Tartaruga está intencionalmente deixando em evidência que toda a lógica proposicional baseia-se em “princípios dados”, que aceitamos (devemos aceitar) a priori!  Esta aceitação é o que encerra a regressão infinita.
Pode parecer, à primeira vista, que este paradoxo põe em cheque o valor da Lógica.  Se lembrarmos, entretanto, que a validade da lógica proposicional pode ser matematicamente demonstrada, poderemos tranquilamente argumentar que se a Tartaruga não aceita seus postulados, melhor será que vá jogar futebol!

ii) Por que seria menos plausível dizer “a indução é coerciva”? O que torna o ceticismo sobre a indução (o “problema da indução”) mais plausível ou atraente que o ceticismo sobre a lógica?
Quando usamos a dedução, demonstramos que não há maneira de as premissas serem verdadeiras e a conclusão ser falsa
A indução baseia-se na observação.  As nossas ciências ditas “exatas” baseiam-se na observação (na experimentação) para validar (ou falsear) suas proposições.  O problema é que, até que o objeto da Ciência – o Universo – complete o seu ciclo de existência, não poderemos afirmar que observamos tudo.  Tentamos detectar regularidades no que observamos, esforçamo-nos para usar amostras significativas e sem viés em nossas observações, elaboramos nossas proposições de forma que sejam falseáveis – ou seja, de forma que façam uma afirmação sem ambiguidade...  Mas apesar disto tudo, jamais poderemos estar certos de que nossas induções espelhem “a verdade” – não até que observemos tudo em todo o Universo, e até o momento em que ele deixe de existir.
Esta incerteza constitui simultaneamente uma limitação e a maior força da indução.  Senão vejamos: as conclusões da dedução já estavam implícitas nas premissas, portanto na verdade não aprendemos nada de novo com a dedução – no máximo fazemos uma idéia mais clara e completa do que já sabíamos.  Ao contrário, a incerteza da indução deixa-a aberta a novos desdobramentos, trazendo novos conhecimentos.
Um exemplo que comentamos em aula é o do calendário.  O calendário elaborado segundo o geocentrismo funcionava perfeitamente para medir as estações e a passagem dos anos – funcionava baseado numa regularidade real, embora baseada em premissas equivocadas.  À medida que a teoria geocêntrica foi tentando incorporar mais e mais aplicações, inconsistências foram aparecendo – até que a dificuldade de conciliar as inconsistências levou a um novo paradigma: o sistema heliocêntrico.  As aplicações corretas da teoria anterior continuaram válidas, e novas aplicações se tornaram possíveis com o novo paradigma, uma vez que a Ciência havia aprendido a observar o Universo de uma maneira mais acurada – a partir da indução!




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