Porque estou postando a minha prova de Filosofia? Bem, antes de mais nada porque este blog funciona para mim como um "caderno de anotações" - coloque aqui coisas que quero poder consultar mais tarde. Também porque acredito que os colegas de turma (HUM01861 - INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO - TURMA D (2017/1)) poderão achar interessante. Eu certamente gostaria (gostarei?) de ver as provas deles.
E - talvez a melhor razão - porque postei estas respostas e achei que tinha ido bem na prova. Talvez tenha ido. Talvez eu tire até, digamos, mais de oito. Mas o que importa é que, depois de postar a prova, continuei pensando, e cheguei à conclusão de que eu não me daria mais de sete!
Não porque eu sinta que sei pouco do conteúdo que nos foi pedido, mas porque estou pensando que o aprendi a abordagem errada - talvez apenas com a ênfase inapropriada - ao conteúdo que nos foi passado. Específicamente, a diferença entre argumento dedutivo e argumento indutivo. Mas isto é assunto para outro post! :-) (atualização: este "outro post" saiu, é este aqui: ""Diferença entre Dedução e Indução" )
Por enquanto, espero que a leitura do meu trabalho seja de algum proveito ou entretenimento - e fico no aguardo de poder ler os dos colegas!
Ah, antes gostaria de partilhar com vocês alguns links interessantes com que deparei no proceso de redação:
LINKS CONSULTADOS:
· What the Tortoise Said to Achilles - https://en.wikipedia.org/wiki/What_the_Tortoise_Said_to_Achilles
Artigos interessantes encontrados:
· O que é um argumento bom (ou cogente)? – 2 - http://duvida-metodica.blogspot.com.br/2009/02/o-que-e-um-argumento-bom-ou-cogente-2_08.html
· Pensar, Una incitación a la filosofía de Simon Blackburn – LIVRO COMPLETO! - https://pt.scribd.com/doc/64329852/Pensar-Una-incitacion-a-la-filosofia-de-Simon-Blackburn
FILOSOFIA – AVALIAÇÃO I – PEDRO FRANCISCO BORGES
PEREIRA - 00290300
Questão 1
O principal exemplo da
utilização de um argumento lógico é quando procuramos convencer alguém de uma
tese – a conclusão; se somos honestos e estamos bem informados, (i) essa conclusão
é verdadeira. Para efetuar esse convencimento, apresentamos proposições que
(ii) possam ser aceitas também por nosso interlocutor e (iii) que sustentem a
conclusão – i.e., que o façam aceitá-la também. Esse é um bom argumento. Por
que só um argumento sólido preenche essas três condições?
“...se somos honestos e estamos bem informados, (i)
essa conclusão é verdadeira.”
“... e (iii) que sustentem a conclusão...”
Se o nosso argumento for formalmente válido, i.e., estruturado
de uma maneira correta em relação à lógica formal, poderemos demonstrar –
logicamente – ao nosso interlocutor a sua validade – ou seja, que é impossível as premissas serem verdadeiras
e a conclusão ser falsa (a não ser que nosso interlocutor seja a tartaruga
que conversou com Aquiles, J,
mas isto veremos na Questão 2).
Se, ao construirmos o nosso
argumento, obedecermos a alguma das formas argumentativas clássicas (primeiro
sistematizadas por Aristóteles), como o modus
ponendus ponens ou o modus tollens,
poderemos usar os recursos da lógica proposicional (por exemplo operadores Booleanos) para demonstrar a validade do nosso argumento. Se nossas proposições forem verdadeiras,
nosso argumento será, além de válido, também sólido. E sendo nosso argumento válido e sólido, só
restará ao nosso interlocutor aceitar que nossa conclusão é verdadeira!
“apresentamos proposições que (ii)
possam ser aceitas também por nosso interlocutor”
As razões para aceitar nossas
proposições variam conforme o domínio a que elas pertencem. Pode-se dizer que alguns argumentos, de certa
forma, dispensam convencimento do interlocutor, pois as proposições são
evidentes “per se” e a conclusão pode ser demonstrada por pura lógica:
Quando aplicamos a lógica
proposicional ao domínio das abstrações, o valor de verdade das nossas
proposições é binário e depende somente das convenções da abstração. Por exemplo, tomemos a Geometria Plana: se digo que “Retas paralelas não tem pontos
em comum; as retas r1 e r2 tem um ponto em comum, logo r1 e r2 não são
paralelas”, tudo que eu preciso fazer para comprovar minha premissa antecedente
é recorrer à definição de “retas paralelas” no universo da geometria
euclidiana; para comprovar minha premissa consequente posso recorrer a um
gráfico cartesiano mostrando os segmentos de r1 e r2 com o ponto em comum, ou
posso aplicar a equação reduzida da reta (y=mx+n) a pontos conhecidos de r1 e
r2 para demonstrar que tem um ponto em comum.
QED, o valor de verdade de minhas premissas, no universo abstrato da
geometria plana, pode ser provado. Resta
a possibilidade de meu interlocutor não conhecer geometria euclidiana, e eu ter
de ensiná-lo – mas então não se tratará propriamente de “convencer”, e sim de
“informar”.
Quando lidamos com o mundo
real e não com abstrações, é muito difícil, se não impossível, provar
cabalmente que uma proposição é verdadeira.
Podemos apenas demonstrar que as proposições são plausíveis ou até mesmo
que tem um alto grau de probabilidade de ser verdadeiras. Posso usar
estatística, inferência bayesiana, explicações causais (que serão usualmente
resultado de outras induções e portanto estarão apenas adiando o problema);
podemos também empregar a escrita
conceitual criada por Frege, que evoluiu na estrutura quantificacional usada por Leibniz– todos estes recursos
poderão demonstrar que minhas proposições são “muito prováveis”, mas não
“absolutamente certas”.
Isto não impede que eu use as
regras da lógica para verificar a validade do meu raciocínio – apenas, eu não
terei certeza da solidez do meu argumento; poderei no máximo demonstrar que
“ele é válido assumindo-se que as proposições sejam verdadeiras” e que ele “tem
a mesma probabilidade de ser sólido que as minhas proposições têm de ser
verdadeiras”.
Mas apesar disto eu posso construir argumentos válidos e
sólidos no domínio do “mundo real” – basta que para isto eu use proposições
que negam alguma coisa. Em outras palavras: o conhecimento do mundo “natural” nos vem por
indução, e a indução, intrinsecamente, não pode nos dar certeza absoluta de que
alguma regra é verdadeira. Pode, contudo, nos dar a certeza de que uma
regra é falsa – basta encontrarmos uma exceção!
Dando um exemplo extremamente simples e por isto mesmo ilustrativo:
tomemos o argumento “todos os cisnes são brancos, a ave que estamos vendo é
negra, logo não pode ser um cisne”. O
argumento é válido. Mas basta que
encontremos um cisne negro para que seja provado que não é sólido!
Questão 2
Tartaruga: “Aceito A e B e C
e D. Suponhamos que ainda assim recuso aceitar Z; e então?” Aquiles: “Então a
Lógica forçar-te-ia a fazê-lo! — Replicou triunfantemente Aquiles. [“O que a
Tartaruga disse a Aquiles”]
i) Em que sentido podemos
dizer que a Lógica é “coerciva” [dica: relacione com a noção de validade]? Qual
o problema com a afirmação de Aquiles: “...a Lógica forçar-te-ia a fazê-lo”?
[não, não é o emprego da mesóclise]
ii) Por que seria menos
plausível dizer “a indução é coerciva”? O que torna o ceticismo sobre a indução
(o “problema da indução”) mais plausível ou atraente que o ceticismo sobre a
lógica?
“Qual o problema com a afirmação de
Aquiles: ‘... a lógica forçar-te-ia a fazê-lo’?”
A Lógica é coerciva... se aceitarmos os princípios lógicos! O argumento de Aquiles é um modus ponens, uma forma padronizada de regra de inferência. Se aceitamos os princípios da lógica proposicional, somos forçados a aceitar que o argumento de
Aquiles é válido – e aqui, como Aquiles pressupunha, encerra-se a questão.
O que a Tartaruga está fazendo
é negar a validade da lógica
proposicional. E como a Tartaruga,
maliciosamente, faz isto no contexto de
um argumento seguindo um padrão de lógica proposicional, coloca Aquiles em
uma regressão sem fim.
Se a Tartaruga estivesse
fazendo isto de boa-fé, melhor seria que fosse jogar futebol, conforme a
sugestão de Aquiles. Mas já que
conseguiu colocar nosso herói e – pretenso – lógico em um beco sem saída, creio
que a Tartaruga está intencionalmente deixando em evidência que toda a lógica proposicional baseia-se em
“princípios dados”, que aceitamos (devemos aceitar) a priori! Esta aceitação
é o que encerra a regressão infinita.
Pode parecer, à primeira
vista, que este paradoxo põe em cheque o valor da Lógica. Se lembrarmos, entretanto, que a validade da
lógica proposicional pode ser matematicamente demonstrada, poderemos
tranquilamente argumentar que se a Tartaruga não aceita seus postulados, melhor
será que vá jogar futebol!
ii) Por que seria menos plausível dizer
“a indução é coerciva”? O que torna o ceticismo sobre a indução (o “problema da
indução”) mais plausível ou atraente que o ceticismo sobre a lógica?
Quando usamos a dedução,
demonstramos que não há maneira de as
premissas serem verdadeiras e a conclusão ser falsa.
A indução baseia-se na
observação. As nossas ciências ditas
“exatas” baseiam-se na observação (na experimentação) para validar (ou falsear)
suas proposições. O problema é que, até
que o objeto da Ciência – o Universo – complete o seu ciclo de existência, não
poderemos afirmar que observamos tudo. Tentamos detectar regularidades no que
observamos, esforçamo-nos para usar amostras significativas e sem viés em
nossas observações, elaboramos nossas proposições de forma que sejam falseáveis – ou seja, de forma que façam
uma afirmação sem ambiguidade... Mas
apesar disto tudo, jamais poderemos estar certos
de que nossas induções espelhem “a verdade” – não até que observemos tudo em todo o Universo, e até o momento em que ele deixe de existir.
Esta incerteza constitui
simultaneamente uma limitação e a maior força da indução. Senão vejamos: as conclusões da dedução já estavam implícitas nas premissas,
portanto na verdade não aprendemos nada de novo com a dedução – no máximo
fazemos uma idéia mais clara e completa do que já sabíamos. Ao contrário, a incerteza da indução deixa-a
aberta a novos desdobramentos, trazendo novos conhecimentos.
Um exemplo que comentamos em
aula é o do calendário. O calendário
elaborado segundo o geocentrismo funcionava perfeitamente para medir as
estações e a passagem dos anos – funcionava baseado numa regularidade real,
embora baseada em premissas equivocadas.
À medida que a teoria geocêntrica foi tentando incorporar mais e mais aplicações,
inconsistências foram aparecendo – até que a dificuldade de conciliar as
inconsistências levou a um novo paradigma: o sistema heliocêntrico. As aplicações corretas da teoria anterior
continuaram válidas, e novas aplicações se tornaram possíveis com o novo
paradigma, uma vez que a Ciência havia aprendido a observar o Universo de uma
maneira mais acurada – a partir da indução!
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