Durante as minhas aulas de Introdução ao Pensamento Filosófico
me tem sido repetido dezenas de vezes que “a diferença entre um argumento
dedutivo e um argumento indutivo é que as premissas do argumento dedutivo são
tidas como cem por cento verdadeiras, enquanto as premissas do argumento
indutivo são resultado de observação[1] e
portanto não podem ser tomadas como garantidas”.
Ou assim eu entendi.
Sou um calouro, e portanto posso muito bem ter entendido
errado.
De qualquer forma, em dado momento, percebi que
a)
Este conceito não faz sentido para mim
b)
Eu o rejeito como sem utilidade
c)
Eu vim a conceber – incipientemente, ainda – uma
outra definição do que é a diferença entre dedução e indução.
E é isto que quero descrever aqui.
A diferença entre dedução e indução é muito mais simples e
mais fundamental:
DEDUÇÃO USA LÓGICA
INDUÇÃO NÃO TEM NADA A VER COM LÓGICA!
INDUÇÃO NÃO TEM NADA A VER COM LÓGICA!
Entretanto, dedução e
indução não formam “reinos” distintos, muito pelo contrário, elas formam, em
conjunto, a base para a construção do conhecimento e da ciência!
Passo a fundamentar minhas afirmações.
DEDUÇÃO
Tomemos o exemplo clássico de argumento dedutivo, “Todos os
homens são mortais, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal”. Um modus
ponens inatacável de acordo com os princípios da Lógica Proposicional. Se desenharmos um diagrama de Venn – um grande
conjunto de “mortais” contendo um conjunto de “homens” e este por sua vez
contendo um elemento “Sócrates”, vemos que a conclusão “Sócrates pertence ao
conjunto dos mortais” é inatacável.
Mas ser logicamente
inatacável não demonstra que o valor de verdade das premissas é garantidamente
verdadeiro!
A validade do argumento é proclamada pelos princípios da
Lógica Proposicional, e podemos confirmar a Lógica usando a Teoria dos
Conjuntos, como acabamos de fazer.
Podemos obter confirmação também usando a Álgebra Booleana e a Lógica de
Predicados – mas isto é assunto para outro post, J
.
Mas... quem garante
que “todos os homens são mortais”?
Para colocar isto em dúvida, não precisamos sequer entrar no
domínio do “espiritual”, alegando que cada homem tem uma alma que sobrevive ao
corpo e é imortal – o que já bastaria para tornar não-sólido todo o argumento.
Mesmo sem “esticar” o significado do termo “mortal”, ficando
apenas no plano físico, a verdade é que tudo que podemos afirmar é que “todos
os homens que conhecemos até hoje morreram”.
Mas não há prova cabal de que não há imortais ocultos entre nós. Tampouco podemos afirmar que todos os homens
vivos hoje irão morrer. “Muito provavelmente”
irão, isto é verdade. Mas a lógica não pode garantir que a
afirmação “todos os homens são mortais” é verdadeira! Se acha que estou fazendo uma afirmação ousada
– ou insana, J -
leia o que David Hume escreveu sobre “o problema da indução”; se não acredita em mim, talvez leve em conta
as idéias de um grande filósofo, historiador, economista e ensaísta, que
exerceu uma influência fundamental na filosofia.
Mas que as conclusões dedutivas não eram necessariamente
verdade, já sabíamos – basta lembrar que os argumentos dedutivos podem ser válidos sem ser sólidos!
E, sempre que as
premissas dos nossos argumentos dedutivos forem oriundas de indução (como
no exemplo dado) não teremos certeza
absoluta da sua solidez!
Acho muito importante
salientar que o “exemplo clássico” de “argumento dedutivo”... tem premissas
oriundas de indução!
Ouso dizer, então – sou um calouro ousado, holy shit! – que a
solidez do clássico argumento “Sócrates é mortal” é adquirida “por
transitividade” da probabilidade de valor de verdade de suas premissas, que são
resultado de indução!
E quando nossas deduções tem solidez garantida?
Ora, quando as premissas são garantidamente verdadeiras!
E isto é possível?
Claro que sim... mas não
no “mundo real”.
Temos deduções garantidamente sólidas quando as premissas
vem do “mundo das abstrações”, como por exemplo a Geometria e outros ramos da
Matemática. Como os princípios fundamentais destas
abstrações são uma criação do nosso intelecto, nada há neles que escape ao
nosso controle.
Mas temos de ter em mente – a dedução pode ser – e é, e isto é uma das suas maiores utilidades - aplicada
a premissas obtidas por indução, e através desta aplicação podemos nos
certificar da validade do nosso raciocínio – embora não da solidez
de nossa conclusão!
FINALMENTE, INDUÇÃO!
E o que é então esta “indução” da qual já tanto falei?
Ora, não é nada mais do que a tendência inata de todas as
criaturas a “generalizar a partir de observações particulares”.
Um exemplo clássico de argumento indutivo são os célebres cisnes: "Todos os cisnes que já vimos são brancos, portanto todos os cisnes são brancos". Onde está a lógica neste argumento? Em lugar algum, porque a lógica nada tem a fazer na indução! O fundamento lógico da indução é a sua premissa de que "a natureza tem uma regularidade". E, se quisermos usar indução, temos de aceitá-lo - tal como temos que aceitar os princípios da lógica proposicional se quisermos usá-la!
Dando um exemplo simples, usando uma inteligência simples (e fofa): Teu cachorro não sabe quando vais sair com ele ou sem ele? Como ele sabe? Será que lê tua mente? Ou será que não aprendeu que quando estás com uma certa roupa, a uma certa hora, e olhas pra ele de um certo jeito, vais leva-lo a passear? Teu cachorro está usando “indução” – “Uóf, ele fez isto ontem, e anteontem, e no dia antes de anteontem – portanto ele vai fazer isto hoje também! Uóf! Passeio!”
Um exemplo clássico de argumento indutivo são os célebres cisnes: "Todos os cisnes que já vimos são brancos, portanto todos os cisnes são brancos". Onde está a lógica neste argumento? Em lugar algum, porque a lógica nada tem a fazer na indução! O fundamento lógico da indução é a sua premissa de que "a natureza tem uma regularidade". E, se quisermos usar indução, temos de aceitá-lo - tal como temos que aceitar os princípios da lógica proposicional se quisermos usá-la!
Dando um exemplo simples, usando uma inteligência simples (e fofa): Teu cachorro não sabe quando vais sair com ele ou sem ele? Como ele sabe? Será que lê tua mente? Ou será que não aprendeu que quando estás com uma certa roupa, a uma certa hora, e olhas pra ele de um certo jeito, vais leva-lo a passear? Teu cachorro está usando “indução” – “Uóf, ele fez isto ontem, e anteontem, e no dia antes de anteontem – portanto ele vai fazer isto hoje também! Uóf! Passeio!”
Não há nada de “lógica” nisto, há apenas a aceitação da
premissa de que “há regularidade na natureza” – premissa que partilhamos com os
cachorros, e com a maioria dos seres vivos (talvez todos) [2].
Somos, de certa forma, “os pets de um Poder Superior” –
Deus, a Natureza, o Universo, whatever!
“O Sol sempre nasce, portanto continuará a nascer.” Indução!
“Seres vivos sempre geraram prole semelhante a eles, portanto
continuarão a gerar.” Indução!
Mas e se amanhã Deus, ou a Natureza, ou whathever, estiver
cansado ou simplesmente indisposto e não levar seus pets a passear? Quem nos garante que isto não irá
acontecer? Não a lógica, certamente!
Então a indução é simplesmente “ter esperança de que a
regularidade continue”?
Certamente que não – porque podemos fortalecer nossas
induções entrelaçando-as para formar princípios mais gerais - ou seja, nossas expectativas
estariam baseadas em regularidades em tese mais significativas... Mas o “problema da indução” é assunto para a
obra de uma vida, e não tema para um texto de calouro. Sugiro a leitura do excelente livro “What is
This Thing Called Science”, de Alan Chalmers, para uma introdução ao assunto.
Mas, então, a lógica é inútil para a indução?
De forma alguma!
A lógica nos permite identificar “a regularidade correta”
(ou a “regularidade que importa”, ou “o tipo certo de regularidade”).
Por exemplo: tenho
que admitir que, quando tinha uns três ou quatro anos de idade, lembro de ter
pensado que “as árvores fazem o vento”.
Porque eu morava num local arborizado, e sempre que havia vento, os
ramos das árvores estavam se movimentando.
Logo... J
Abandonei este paradigma quando constatei que havia vento
também em lugares sem árvores.
Um exemplo menos pessoal:
a história de Chantecler, o galo personagem-título da peça de Rostand,
que acreditava que seu canto fazia nascer o Sol! Até o dia em que dormiu demais, e o Sol
nasceu sem ele...
Eu, e Chantecler, cometemos um engano grosseiro em uma das questões
mais complexas da ciência – o estabelecimento de relações de causalidade entre regularidades
observadas.
A indução, por si, não é capaz de nos dar uma explicação do mundo.
Apesar disto, a
indução é a base da ciência.
E para fazermos boa ciência, é preciso que percebamos não só
as regularidades, mas também quais regularidades são relevantes, e como elas
estão relacionadas. É preciso que
façamos aplicações do nosso paradigma
científico para comprová-lo – e na elaboração destas aplicações a dedução desempenha
papel fundamental! É preciso que
estabeleçamos correlações de causa e
efeito entre as regularidades que observamos, para provar a consistência do
nosso modelo de mundo – e aqui também a dedução é um instrumento essencial!
Disse ao início que "dedução usa Lógica, indução nada
tem a ver com lógica, entretanto, dedução e indução não formam “reinos”
distintos, muito pelo contrário, elas formam, em conjunto, a base para a
construção do conhecimento e da ciência!”
QED!
[1][1] Assumo
que o meu leitor esteja familiarizado com o conceito de “argumento” “proposição”
ou “premissa”, “validade” e “solidez”.
Espero que eu também esteja, ;-) !
[2] Acaba
de me ocorrer que uma boa razão para acreditar na regularidade da natureza é a
própria evolução dos seres vivos – mutações aleatórias só podem conduzir a
seres mais adaptados ao meio ambiente se este meio ambiente possuir uma certa
regularidade! Mas isto é outro assunto!

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