Sunday, July 16, 2017

Comentários sobre Hobbes e Rousseau - ou "Era Hobbes um Neurótico Masoquista?"





Este post é um trabalho da faculdade.
Tive preguiça de "converter" o trabalho para um "artigo de blog", portanto aqui vai ele, com cabeçalho e tudo! :-)

A parte que eu me diverti escrevendo foi o item 3 - "Comentários -  talvez impertinentes, da parte de um calouro de Ciências Sociais".  É nesta parte que eu abordo o tópico do meu "título alternativo", "era Hobbes um neurótico masoquista?".
Espero que vocês se divirtam também!
:-)

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Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Curso de Bacharelado em Ciências Sociais
HUM06029 - Política I: Fundamentos da Teoria Política
Turma D – 2017/1

Professor: HÉLIO RICARDO DO C. ALVES

Aluno:
Pedro Francisco Borges Pereira
Matricula 00290300

ATIVIDADE AUTÔNOMA II
Comparação entre os textos
 “De Cive”, de Hobbes – Capítulo Oito – Do direito dos senhores sobre os servos
e “Do Contrato Social”, de Rousseau – Capítulo IV – Da escravidão

1.      Os Autores.

Para prover algum contexto, revisemos alguns dados sobre os autores.
Hobbes nascem em 5 de abril de 1588, na Inglaterra, e faleceu aos 91 anos em dezembro de 1679;  foi filósofo, historiador e também matemático.  Seus trabalhos mais conhecidos são os que trataram de filosofia política, especialmente o Leviathan (1651).  Filho de um eclesiástico, foi contudo criado por um tio, próspero fabricante de luvas.  Cursou boas escolas, formou-se em Oxford e antes de completar trinta anos já pôde viajar pela Europa (França, Itália e Alemanha) a serviço do Conde William Cavendish – pode-se dizer que a vida de Hobbes foi passada a serviço da família Cavendish, como tradutor, companheiro de viagens, guarda-livros, representante comercial, conselheiro político, colaborador científico.  Outro fato que, a meu ver, tem muita influência no pensamento de Hobbes é ter vivido durante a Guerra dos Trinta Anos – uma série de conflitos entre várias nações europeias entre 1618 e 1648 em torno de disputas religiosas, territoriais e comerciais.  Ter presenciado a mortandade e a anarquia geradas por este conflito talvez seja uma das razões para a crença de Hobbes de que (peço licença para colocar nas minhas palavras) “o estado natural do homem é uma guerra de todos contra todos; a forma de libertar-se desta miséria é submetendo-se a alguma forma de governo; qualquer governo é melhor do que o caos, a violência, a miséria e o medo do estado de natureza”.
Rousseau nasceu em 28 de junho de 1712, em Genebra (hoje na Suiça, em sua época uma cidade-estado), e faleceu em dois de julho de 1778, na França.  Orgulhava-se de ser “de classe média” e de ser “cidadão de Genebra”.   Viveu em Genebra, na França e na Inglaterra.   Na juventude, chegou a estudar para se tornar padre católico, exerceu depois as profissões de músico e professor; foi também o mordomo de sua amante e mentora, Mme. De Warens.  Mudando-se para Lyon como professor, entrou em contato com algumas das grandes figuras do Iluminismo francês.  Poucos anos depois apresentou seu “Primeiro Discurso” (Discurso sobre a Ciência e as Artes) na Academia de Dijon, ganhando o primeiro prêmio e tornando-se conhecido.  Este trabalho introduz a base para suas obras mais conhecidas – e polêmicas, à época (Emile, A Origem da Desigualdade, O Contrato Social, ...).  Tão polêmicas que o fizeram ser perseguido, fugir da França para a Inglaterra e renunciar à cidadania de Genebra.  Retornou à França, onde morreu, em 1767, produzindo nesta fase principalmente textos autobiográficos, de botânica e de música.

2.      Os textos.

Os dois textos têm em comum o fato de abordar a liberdade e a escravidão.  Embora ambos os autores retirem sua noção de “sociedade civil” do conceito de “homem em estado natural”, os dois divergem radicalmente na sua visão deste “homem em estado de natureza”.  Hobbes se fixa na idéia da autoridade – melhor dizendo, do autoritarismo – como essencial à associação humana.  Seu raciocínio é fixado em domínio, em vencedor e vencido, em mais fraco e mais forte – o que é perfeitamente razoável para alguém que acredita que a natureza do homem é intrinsecamente má e que seu estado natural é “uma guerra de todos contra todos”.   Para Hobbes, “a família é um pequeno reino”, e um reino é formado pelo “domínio sobre as pessoas dos homens”.  A partir destas premissas, Hobbes descreve no texto as minúcias dos direitos do senhor sobre o servo.  A “própria força” e as “forças naturais” (?), para Hobbes, são os meios pelos quais “adquire-se direito sobre as pessoas”.  O mundo que Hobbes descreve não só é brutal, imoral e injusto – é evidentemente contrário à nossa noção moderna de direitos humanos e, portanto, tende a tornar impossível uma vida suportável numa sociedade construída conforme suas premissas.
 Rousseau, ao contrário, começa suas colocações postulando que “homem algum tem autoridade natural sobre seus semelhantes e que a força não produz qualquer direito”.  Declara mais adiante que “renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade e até aos próprios deveres”.  Rousseau não se opõe a todos os governos, opõem-se aos governos arbitrários – que são, na sua concepção, ilegítimos.   Para Rousseau, nem mesmo através da guerra alguém pode ser escravizado, uma vez que a guerra ocorre entre Estados, e não entre particulares.  Diz Rousseau que “as palavras escravidão e direito são contraditórias”; é absurdo falar em “direito de escravizar”.  Estes pontos de vista baseiam-se na concepção de Rousseau de que a natureza humana é intrinsecamente boa, de que o homem em “estado de natureza”, possui uma “moral natural”, que o torna “avesso a testemunhar sofrimento” e da qual emergem as noções de compaixão ou empatia.
É preciso admitir que a História mostra que o homem pode ser o animal cruelmente autoritário descrito por Hobbes;  há menos de cem anos o nazismo mostrou o pior da natureza humana e mesmo hoje em dia temos ditaduras cruéis e seguidores fanáticos.
Mas é preciso lembrar também que mesmo nas sociedades ditatoriais o espírito humano encontra espaço para aspirar à liberdade, e para buscá-la.  O movimento da humanidade em direção a sociedades mais livres tem sido constante; as autoridades irracionais, arbitrárias, que ainda existem, não podem mais apresentar-se abertamente assim, precisam inventar fachadas que as tornem aceitáveis.  Esta me parece uma demonstração empírica de que o enfoque de Rousseau é mais realista em relação à natureza de nossa mente – da alma humana, se quiserem usar tais palavras.   

3.      Comentários - talvez impertinentes da parte de um calouro de Ciências Sociais.

Como calouro, estou consciente de que meus conhecimentos são muito limitados.  Mas, calouro ou não, sou um acadêmico, e isto implica, mais do que no direito, na obrigação de declarar o meu entendimento sobre nossos temas de estudo.
Valiosas como são as contribuições dos autores clássicos, eles viveram em outra época, em outra sociedade.  Não podemos colocar de lado suas obras, mas temos a obrigação de interpretá-las no contexto do nosso tempo.  É nesse espírito que faço as considerações a seguir.

4.      “Estado de Natureza”: o estado natural do homem é em sociedade!

Como vimos, tanto Hobbes quanto Rousseau apresentam seu conceito do “contrato social” colocando a sociedade civil em oposição ao “estado de natureza” – que seria um estado do homem “antes que a sociedade organizada existisse”.    Mas, na minha opinião, não há tal coisa!  O homem nasce pertencendo a uma sociedade, isto independente de ser um aborígene perdido em algum sertão ou um habitante de uma grande cidade, independente de tomarmos o homem dos dias atuais ou as sociedades mais antigas e primitivas!
Jared Diamond, em seu livro “The Third Chimpanzee”[1], apresenta o conceito de que o homem é nada mais que uma espécie de chimpanzé.  Mesmo que não aceitemos a hipótese integralmente, é inegável que somos primatas – e os primatas vivem em sociedade, conforme detalhada e amplamente descrito nos trabalhos de Jane Gooddal[2].   O estado de natureza do homem é em sociedade!  Não há notícia, na antropologia nem na sociologia, de alguma população de homens primitivos vivendo isolados uns dos outros.  O homem – e mesmo o proto-homem, como comprovam os trabalhos de Diamond e Gooddal – sempre viveu em grupos.  E não há agrupamento humano, mesmo os que vivem na Idade da Pedra – os yanomâmis, os aborígenes australianos, etc. – que não tenha uma “sociedade civil organizada”.  Sempre há um chefe, sempre há um xamã, sempre há um conselho de anciãos...  Aos que argumentarem que “a organização rudimentar da tribo não pode ser comparada à nossa evoluída e complexa sociedade”, respondo que as razões que poderiam impedir a analogia são apenas o arraigado etnocentrismo e a arrogância intelectual da nossa sociedade. 

 

O Contrato Social

Uma vez que, como vimos acima, o homem nasce em sociedade, a idéia de “contrato social” simplesmente não tem sentido.  É possível a um neonato do sexo feminino recusar-se a ser estrangulado pelos pais, conforme o costume ainda vigente na China?  É possível a um pária indiano recusar-se a pertencer à sua casta?  Ou, no oposto do espectro social, é possível ao filho de um rei (da Inglaterra, da Dinamarca...) negar-se a viver como filho de rei?  Não, o homem nasce dentro de uma sociedade, e dentro desta sociedade em uma determinada condição.  O “contrato social” existe independentemente de sua vontade e do seu consentimento; é intrínseco à condição humana, é inevitável – e, portanto, não se trata de “contrato” algum!  Não sou marxista, mas o conceito de “luta de classes” de Marx, neste ponto, me parece descrever bem melhor os fatos sociais.  Também a filosofia de Aristóteles, neste ponto, estava mais correta do que a dos contratualistas. 

 

Hobbes

Hobbes nasceu em uma classe que hoje seria chamada “burguesia”.  Alcançou celebridade graças aos seus méritos acadêmicos, mas também graças à proteção dos aristocratas.  Na minha humilde opinião, seu vínculo com os nobres Cavendish é o de um servo.  Um servo com privilégios, um servo gozando de certo status – mas ainda assim um servo.  Hobbes é, mutatis mutandis, o que o movimento negro nos Estados Unidos chamava um “Uncle Tom” – um serviçal que é não apenas obediente ao seu senhor, mas verdadeiramente devotado a ele.  Esta devoção não se origina sentimentos de admiração ou afeição verdadeiros, mas é nada mais do que uma forma de sobrevivência psicológica e emocional, um tipo de “Síndrome de Estocolmo”.  Como poderia tal homem defender a liberdade?!   Não, em tal contexto social e psicológico, Hobbes só poderia ter a visão de que a obediência a um senhor – qualquer senhor, em quaisquer condições – é melhor do que o caos que a liberdade inevitavelmente traria, e que a escravidão é lícita.
Todo o seu conceito de “estado natural” – que, como vimos nos parágrafos anteriores, não tem a menor base empírica, muito pelo contrário – é nada mais que uma racionalização destinada a justificar as conclusões, que já estavam definidas de antemão – não pelo raciocínio do “pensador”, mas pelas suas emoções, pela sua psique!   É impressionante ver como um homem que se intitula “cientista” faz tantas afirmações apriorísticas sem que lhe ocorra em momento algum um lampejo de dúvida, de autocrítica!  A explicação que consigo encontrar é que Hobbes sofria de um distúrbio de personalidade autoritária[3] em que sua identidade, seu “eu”, vinha do pertencimento a seus patrões e não de si mesmo; ele portanto necessitava legitimar sua submissão de todas as formas a fim de evitar um colapso desta identidade.  A não ser assim, então Hobbes não era sincero; escrevia como um “marqueteiro” de seus patrões da nobreza.

Rousseau

É dito que o fato de Rousseau ter abandonado cinco – sim, cinco! – filhos na “roda dos órfãos” é um argumento “ad hominem” e nada tem a ver com sua filosofia.  Mas se considerarmos que uma de suas principais obras, Emile, trata da importância da educação, a meu ver o argumento deixa de ser ad hominem e torna-se relevante.  Há aqui, senão uma oposição entre a vida do homem e sua filosofia, no mínimo uma gritante dicotomia.  Entretanto, isto não tira o valor da filosofia.  Mesmo apegando-se ao conceito de Hobbes de “homem no estado natural”, ele defende que "o estado de natureza é observável se olharmos para nós mesmos". Se o argumento é sólido ou não, é outra questão: podemos deduzir um princípio geral da natureza humana observando apenas a nós mesmos?  Mas, pelo menos, é um argumento, o que é uma grande vantagem em relação a Hobbes, que nada mais faz do que apresentar afirmações apriorísticas[4].   

5.      Fontes

·         Encyclopaedia Britannica – Thomas Hobbes, English Philosopher - https://www.britannica.com/biography/Thomas-Hobbes
·         Guerra dos Trinta Anos - https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_dos_Trinta_Anos
·         Stanford Encyclopedia of Philosophy - Jean Jacques Rousseau - https://plato.stanford.edu/entries/rousseau/





[3] Digo “autoritária” e não “masoquista” de acordo com os conceitos que Erich Fromm descreve em sua obra “Análise do Homem”,  que conceituam o sadismo e o masoquismo como faces de um mesmo tipo de personalidade ( ver https://en.wikipedia.org/wiki/Erich_Fromm ).  Saliente-se aqui que não me refiro a sadomasoquismo estritamente no sentido sexual,  embora esta seja uma manifestação frequente deste traço de personalidade.  Refiro-me ao tipo de perfil psicológico improdutivo descrito por Fromm sob esta denominação, quando a pessoa procura fundir-se a outro, parasitariamente, em busca de uma identidade que não consegue encontrar em si mesma.
[4] A propósito, a Declaração de Independência dos Estados Unidos contém declarações apriorísticas – mas as identifica claramente como tais – “São inverdades incontestáveis para nós: todos os homens nascem iguais, ...”.  Não há problema em afirmar princípios fundamentais – o problema é trazê-los, como faz Hobbes, para dentro da argumentação filosófica!

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