"It´s the economy, stupid!" - Parte II. ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TRABALHADOR BRASILEIRO, A CASA PRÓPRIA E O LATIFÚNDIO.
(mais um post do Facebook que migrou pra cá)
Esse pensamento me veio como consequencia da constatação de que os trabalhadores americanos ganham - grosso modo - o dobro do que se ganha no Brasil pra mesma função. Sim, algumas coisas são mais caras aqui - aluguéis, cuidados médicos, faculdade. Mas outras são mais baratas - carro, roupas, comida (proporcionalmente ao salário)... E é inegável que a vida do trabalhador americano, comparada com a do seu equivalente brasileiro, é mais confortável. Fora a diferença econômica do valor do trabalho - o que já é muito significativo - o trabalho, e os trabalhadores, são respeitados. O lixeiro, o faxineiro, o motorista do ônibus, não são "invisíveis" como no Brasil. São pessoas, e são tratados como pessoas, quem não diz "Bom dia" pro faxineiro é considerado grosseiro, assim como quem desce do ônibus sem agradecer ao motorista. OK, não sou especialista em Estados Unidos, tou contando o que vi. O que vi foi isso.
(mais um post do Facebook que migrou pra cá)
Esse pensamento me veio como consequencia da constatação de que os trabalhadores americanos ganham - grosso modo - o dobro do que se ganha no Brasil pra mesma função. Sim, algumas coisas são mais caras aqui - aluguéis, cuidados médicos, faculdade. Mas outras são mais baratas - carro, roupas, comida (proporcionalmente ao salário)... E é inegável que a vida do trabalhador americano, comparada com a do seu equivalente brasileiro, é mais confortável. Fora a diferença econômica do valor do trabalho - o que já é muito significativo - o trabalho, e os trabalhadores, são respeitados. O lixeiro, o faxineiro, o motorista do ônibus, não são "invisíveis" como no Brasil. São pessoas, e são tratados como pessoas, quem não diz "Bom dia" pro faxineiro é considerado grosseiro, assim como quem desce do ônibus sem agradecer ao motorista. OK, não sou especialista em Estados Unidos, tou contando o que vi. O que vi foi isso.
A questão é - porque a diferença? Porque os empregadores brasileiros não pagam bons salários? Porque o trabalho não é valorizado? Porque o trabalhador não é respeitado? Bom, uma parte da resposta é que estamos pagando o preço da escravidão - no sentido de que a escravidão degradou o escravo e degradou o senhor de escravos também, fazendo com que o trabalho - principalmente o trabalho manual - fosse visto como "coisa de gente inferior". Bonito é viver no ócio, ou trabalhar como "bacharel" - não importa que seja um ignorante, bacharel da mula ruça, o essencial é não fazer trabalho manual! Lavrar a terra, construir casas, criar animais, isso é coisa de "gentinha". E "gentinha" quer dinheiro pra que? Pra tomar cachaça, então é melhor nem dar muito dinheiro a eles! Dinheiro é bom na mão de quem é rico, bonito, chique, esses sim sabem aproveitar a vida! Os trabalhadores? Esses sempre viveram de migalhas, que continuem vivendo de migalhas! Esse raciocínio - ou, melhor dizendo, essa racionalização de um absurdo - tem origem na escravidão, continua impregnado na nossa sociedade, e é causa de boa parte das suas distorções. O Brasil, inteirinho, tem os defeitos do Sul americano, escravagista e latifundiário. Só que o Sul foi vencido na guerra, e reconstruído; no Brasil não houve reorganização da sociedade. O Brasil ainda é o Sul dos Estados Unidos - escravagista e latifundiário!
Mas porque o trabalhador se submete aos salários de fome? Ora, porque não tem outra saída! Pra poder negociar, poder escolher se aceita ou não um emprego, um salário, o trabalhador tem de ter - no mínimo - onde morar. E quem é que tem casa própria? Quitada? A grande maioria só consegue quitar casa própria quando já tem certa idade - os que conseguem. (Não, não me venham com "Minha casa minha vida" porque desde que esse programa começou o preço dos imóveis foi pras alturas, eu pessoalmente acho que essa bolha vai estourar e não demora muito!) Esse é um dos principais fatores - se não o principal - que obriga o trabalhador a aceitar qualquer salário!
E pra gente se livrar disso? Olha, eu não tenho planos maravilhosos e detalhados de reforma agrária, reforma urbana, reorganização econômica. Tenho algumas idéias simples - todas girando no sentido de dar aos trabalhadores a opção de aceitar ou não aceitar salários de fome, na maioria relacionadas ao que tenho visto aqui nos Estados Unidos ou ao que tenho lido sobre a História dos Estados Unidos. O conceito básico é simples: se temos uma enorme massa de pessoas que são OBRIGADAS a aceitar QUALQUER emprego, os salários sempre serão salários de fome. Se as pessoas puderem optar por aceitar ou não um emprego, se tiverem meios alternativos de pelo menos se manter vivas - ter comida e um teto - a consequencia inevitável será uma melhoria dos salários. "It´s the economy, stupid!" É a lei do mercado, a lei da oferta e da procura! Vejamos essas idéias:
* O latifúndio é complemento da escravidão. Enquanto houver latifúndio, a massa trabalhadora será de escravos, senão de nome, de fato.
* A pequena propriedade gera uma classe média. A existência de pessoas que não são ricas, mas também não precisam de salário para viver molda não só a vida dessas pessoas como também a sociedade em geral. Não apenas por diminuir a massa de mão-de-obra barata disponível. A existência desses trabalhadores - pobres que sejam, mas livres, sem depender de patrões - dissemina a visão do trabalhador como digno de respeito, como cidadão de valor, como ser humano com direito à felicidade.
* Essa cultura do "trabalhador autônomo" também pode se criar no meio urbano. O trabalhador urbano também pode ser microempresário, pode se organizar em cooperativas. As principais dificuldades são a burocracia e os impostos. O Brasil é um país onde é extremamente caro e complicado abrir e administrar uma empresa, e os impostos são extorsivos. A pequena empresa muitas vezes paga sobre o faturamento, e não sobre o lucro. "Lucro presumido", o governo chama isso. Só que pra ter o lucro que eles presumem que a gente tenha, nem vendendo drogas! Não digo que isso seja uma coisa premeditada, pra dificultar o pobre de trabalhar como autônomo (também não digo que não). O que afirmo é que temos que nos livrar disso, como condição para o nosso progresso social!
Bom, eu já afirmei que temos que nos livrar do latifúndio, temos que nos livrar das restrições que o governo coloca ao nosso direito de empreender, e temos que nos livrar da carga tributária extorsiva e injusta. Há outra grande questão, a questão da moradia.
* A grande maioria da população trabalhadora vive em habitações precárias - de aluguel, em "casas próprias" com financiamentos eternos e/ou em favelas. Precisamos de uma reforma urbana. Precisamos de algum meio - por exemplo, infraestrutura de transporte para que as pessoas possam morar afastadas do local de trabalho, em terrenos mais baratos - de proporcionar aos trabalhadores a compra de casas próprias. Casas, não os "blocos de apartamentos" - pra mim são apenas "favelas verticais" - que estão na moda agora. Casas, com gramado, pátio, numa rua residencial. Um lugar pra viver, não um caixote onde se enfiar! Quem sabe nós, trabalhadores, não podemos nos organizar pra criar lugares assim? Incluindo um tipo de seguro, pra cobrir os período em que a pessoa ficar sem renda? Que tal ter uma hortinha, um jardinzinho, ferramentas num galpão - coisas pra melhorar a qualidade de vida, coisas pra tirar do trabalho manual o estigma de "degradante"? Fundamentos pra viver como gente, como um individuo com personalidade, tendo atividades feitas por prazer e por preferência, e não viver como um autômato que vai do trabalho pra casa e tem como única diversão a TV?
Bom, gente, ficam aí as minhas "reflexões sobre o trabalhador brasileiro, a casa própria e o latifúndio" - certamente bem mais extensas do que eu tinha em mente quando comecei a escrever!
Quem teve paciência de ler até aqui, que me permita um "arremate". O que eu disse pode ser sumarizado como
* Precisamos de uma reforma agrária que crie uma classe de pequenos agricultores.
* Precisamos de uma reforma urbana que permita a cada trabalhador ter a sua própria moradia
* Precisamos que o governo pare de atrapalhar quem quer empreender e precisamos também nos livrar dos impostos extorsivos
* Tudo isso vai levar à redução da massa proletária, ou seja, da quantidade de pessoas que precisam trabalhar como empregados mesmo recebendo salários de fome.
* A consequencia econômica é uma maior valorização do trabalho, tanto dos assalariados como dos autônomos, resultando não só numa distribuição de renda menos desigual e na diminuição da miséria como também numa economia nacional mais próspera e estável, como resultado do aumento do mercado interno.
* A consequencia humana é a extinção da visão de que o trabalhador é um "ser humano de segunda classe", a formação de uma sociedade em que a visão predominante é a de que todos, ricos ou pobres, tem seu valor intrínsico e inalienável, são dignos de respeito e tem direito à buscar ser felizes.
Sim, a influência do que vi e do que li aqui é bem evidente nessa última frase, quem é familiarizado com a cultura americana deve ter sorrido do meu plágio.
Então eu termino com um última proposição, bem americana, bem do Kansas, e com o qual eu concordo plenamente: a de que cada trabalhador deve ter na sua propriedade - rural ou urbana - uma "Beecher´s Bible", uma "Bíblia de Beecher".
Henry Ward Beecher era um ministro religioso, anti-escravagista, membro da Sociedade de Apoio aos Emigrantes da Nova Inglaterra (New England Emigrant Aid Society), que acreditava que "um rifle Sharps é um verdadeiro instrumento moral, e, no que concerne aos proprietários de escravos, tem mais poder moral que uma centena de Bíblias"! Beecher pessoalmente contribuiu para a compra e distribuição de rifles entre os abolicionistas que estavam se instalando no Kansas, um Estado dividido, onde as lutas na Guerra Civil foram particularmente violentas, e onde conflitos sangrentos entre abolicionistas e escravagistas ocorreram antes mesmo do início da guerra. Ele disse que "Ler a Bíblia para um escravista é tão eficaz quanto ler a Bíblia para um búfalo, mas eles tem um supremo respeito pela lógica contida num rifle Sharps!" (A tradução é minha, e é livre.)
Mas porque o trabalhador se submete aos salários de fome? Ora, porque não tem outra saída! Pra poder negociar, poder escolher se aceita ou não um emprego, um salário, o trabalhador tem de ter - no mínimo - onde morar. E quem é que tem casa própria? Quitada? A grande maioria só consegue quitar casa própria quando já tem certa idade - os que conseguem. (Não, não me venham com "Minha casa minha vida" porque desde que esse programa começou o preço dos imóveis foi pras alturas, eu pessoalmente acho que essa bolha vai estourar e não demora muito!) Esse é um dos principais fatores - se não o principal - que obriga o trabalhador a aceitar qualquer salário!
E pra gente se livrar disso? Olha, eu não tenho planos maravilhosos e detalhados de reforma agrária, reforma urbana, reorganização econômica. Tenho algumas idéias simples - todas girando no sentido de dar aos trabalhadores a opção de aceitar ou não aceitar salários de fome, na maioria relacionadas ao que tenho visto aqui nos Estados Unidos ou ao que tenho lido sobre a História dos Estados Unidos. O conceito básico é simples: se temos uma enorme massa de pessoas que são OBRIGADAS a aceitar QUALQUER emprego, os salários sempre serão salários de fome. Se as pessoas puderem optar por aceitar ou não um emprego, se tiverem meios alternativos de pelo menos se manter vivas - ter comida e um teto - a consequencia inevitável será uma melhoria dos salários. "It´s the economy, stupid!" É a lei do mercado, a lei da oferta e da procura! Vejamos essas idéias:
* O latifúndio é complemento da escravidão. Enquanto houver latifúndio, a massa trabalhadora será de escravos, senão de nome, de fato.
* A pequena propriedade gera uma classe média. A existência de pessoas que não são ricas, mas também não precisam de salário para viver molda não só a vida dessas pessoas como também a sociedade em geral. Não apenas por diminuir a massa de mão-de-obra barata disponível. A existência desses trabalhadores - pobres que sejam, mas livres, sem depender de patrões - dissemina a visão do trabalhador como digno de respeito, como cidadão de valor, como ser humano com direito à felicidade.
* Essa cultura do "trabalhador autônomo" também pode se criar no meio urbano. O trabalhador urbano também pode ser microempresário, pode se organizar em cooperativas. As principais dificuldades são a burocracia e os impostos. O Brasil é um país onde é extremamente caro e complicado abrir e administrar uma empresa, e os impostos são extorsivos. A pequena empresa muitas vezes paga sobre o faturamento, e não sobre o lucro. "Lucro presumido", o governo chama isso. Só que pra ter o lucro que eles presumem que a gente tenha, nem vendendo drogas! Não digo que isso seja uma coisa premeditada, pra dificultar o pobre de trabalhar como autônomo (também não digo que não). O que afirmo é que temos que nos livrar disso, como condição para o nosso progresso social!
Bom, eu já afirmei que temos que nos livrar do latifúndio, temos que nos livrar das restrições que o governo coloca ao nosso direito de empreender, e temos que nos livrar da carga tributária extorsiva e injusta. Há outra grande questão, a questão da moradia.
* A grande maioria da população trabalhadora vive em habitações precárias - de aluguel, em "casas próprias" com financiamentos eternos e/ou em favelas. Precisamos de uma reforma urbana. Precisamos de algum meio - por exemplo, infraestrutura de transporte para que as pessoas possam morar afastadas do local de trabalho, em terrenos mais baratos - de proporcionar aos trabalhadores a compra de casas próprias. Casas, não os "blocos de apartamentos" - pra mim são apenas "favelas verticais" - que estão na moda agora. Casas, com gramado, pátio, numa rua residencial. Um lugar pra viver, não um caixote onde se enfiar! Quem sabe nós, trabalhadores, não podemos nos organizar pra criar lugares assim? Incluindo um tipo de seguro, pra cobrir os período em que a pessoa ficar sem renda? Que tal ter uma hortinha, um jardinzinho, ferramentas num galpão - coisas pra melhorar a qualidade de vida, coisas pra tirar do trabalho manual o estigma de "degradante"? Fundamentos pra viver como gente, como um individuo com personalidade, tendo atividades feitas por prazer e por preferência, e não viver como um autômato que vai do trabalho pra casa e tem como única diversão a TV?
Bom, gente, ficam aí as minhas "reflexões sobre o trabalhador brasileiro, a casa própria e o latifúndio" - certamente bem mais extensas do que eu tinha em mente quando comecei a escrever!
Quem teve paciência de ler até aqui, que me permita um "arremate". O que eu disse pode ser sumarizado como
* Precisamos de uma reforma agrária que crie uma classe de pequenos agricultores.
* Precisamos de uma reforma urbana que permita a cada trabalhador ter a sua própria moradia
* Precisamos que o governo pare de atrapalhar quem quer empreender e precisamos também nos livrar dos impostos extorsivos
* Tudo isso vai levar à redução da massa proletária, ou seja, da quantidade de pessoas que precisam trabalhar como empregados mesmo recebendo salários de fome.
* A consequencia econômica é uma maior valorização do trabalho, tanto dos assalariados como dos autônomos, resultando não só numa distribuição de renda menos desigual e na diminuição da miséria como também numa economia nacional mais próspera e estável, como resultado do aumento do mercado interno.
* A consequencia humana é a extinção da visão de que o trabalhador é um "ser humano de segunda classe", a formação de uma sociedade em que a visão predominante é a de que todos, ricos ou pobres, tem seu valor intrínsico e inalienável, são dignos de respeito e tem direito à buscar ser felizes.
Sim, a influência do que vi e do que li aqui é bem evidente nessa última frase, quem é familiarizado com a cultura americana deve ter sorrido do meu plágio.
Então eu termino com um última proposição, bem americana, bem do Kansas, e com o qual eu concordo plenamente: a de que cada trabalhador deve ter na sua propriedade - rural ou urbana - uma "Beecher´s Bible", uma "Bíblia de Beecher".
Henry Ward Beecher era um ministro religioso, anti-escravagista, membro da Sociedade de Apoio aos Emigrantes da Nova Inglaterra (New England Emigrant Aid Society), que acreditava que "um rifle Sharps é um verdadeiro instrumento moral, e, no que concerne aos proprietários de escravos, tem mais poder moral que uma centena de Bíblias"! Beecher pessoalmente contribuiu para a compra e distribuição de rifles entre os abolicionistas que estavam se instalando no Kansas, um Estado dividido, onde as lutas na Guerra Civil foram particularmente violentas, e onde conflitos sangrentos entre abolicionistas e escravagistas ocorreram antes mesmo do início da guerra. Ele disse que "Ler a Bíblia para um escravista é tão eficaz quanto ler a Bíblia para um búfalo, mas eles tem um supremo respeito pela lógica contida num rifle Sharps!" (A tradução é minha, e é livre.)
Mais detalhes sobre "Beecher´s Bibles" aqui -http://en.wikipedia.org/wiki/Beecher%27s_Bibles .
Mais detalhe sobre os rifles Sharps (embora sejam bem famosos) aqui:http://en.wikipedia.org/wiki/Sharps_rifle . Embora hoje em dia a gente tenha opções mais modernas...
Mais detalhes sobre os conflitos no Kansas aqui:http://en.wikipedia.org/wiki/Bleeding_Kansas . Ou no excelente livro "Ordeal by Fire - The Civil War and Reconstruction", de James M. McPherson.
Mais detalhe sobre os rifles Sharps (embora sejam bem famosos) aqui:http://en.wikipedia.org/wiki/Sharps_rifle . Embora hoje em dia a gente tenha opções mais modernas...
Mais detalhes sobre os conflitos no Kansas aqui:http://en.wikipedia.org/wiki/Bleeding_Kansas . Ou no excelente livro "Ordeal by Fire - The Civil War and Reconstruction", de James M. McPherson.
Obrigado por me lerem até aqui. Hasta la vista, babies. I´ll be back... but, probably, not so soon!
Feliz 2015!
Feliz 2015!
1 comment:
Muito bom pai! Eu li tudo ^^
Post a Comment