O que é "Essencialismo Hominal"
Bem, é o nome que eu encontrei - até agora - para a minha proposta de refutação do relativismo, especificamente do relativismo no estudo das Ciências Humanas.
Eu usei o nome "Estruturalismo Antropoide" no post "Trabalho de Epistemologia das Ciências Sociais". Agora falo em "essencialismo hominal". Poderei usar outra designação na próxima vez em que falar disto - como vou saber o melhor nome, se ainda não sei bem o que é? :-)
O que está bem definido é que é uma idéia não-relativista. Afirmo que, no plano da ciência, existe certo e errado. E afirmo que, no plano ético e moral, há não só o certo e o errado como, consequentemente, o bem e o mal. E que o certo e o errado da ciência, assim como o bem e o mal da ética, possuem um núcleo que é verdadeiro independente de cultura ou de época.
E o que é a "constante" do Essencialismo Hominal?
Considerando que as tecnologias que a humanidade empregou mudaram enormemente ao longo do tempo, e diferem significativamente em diferentes culturas em uma mesma época; que as tecnologias(1) moldam estas sociedades, gerando o que chamarei aqui "moral e costumes"(2), variando estes enormemente, como poderemos dizer que uma cultura é melhor que outra? Afinal, os homens não conseguiram viver sob todas estas condições? Se eu quero propor uma teoria como, vamos ser ambiciosos, "E=mc2" - onde está o "c" da minha equação?(3)
A idéia do "imperativo categórico" kantiano resolve o dilema utilitarista - com ele não temos que decidir "quantos inocentes é aceitável que sejam mortos em proveito de um bem maior?", pois nenhuma transigência é aceitável. Belo, mas pouco prático. Por outro lado, com o utilitarismo fatalmente chegaremos a um ponto extremo em que matar um inocente sob tortura é aceitável, porque será em proveito da coletividade - o que me soa como lógico, porém próprio de monstros ou de vermes. Mas com o absoluto kantiano acabaremos na famosa polêmica que ele teve com Benjamin Constant, onde Kant defendia que "se um assassino nos perguntar onde está um amigo nosso, declarando a intenção de matá-lo, devemos dizer a verdade - porque mentir é absolutamente errado, em qualquer circunstância". Isto me parece, mais do que estultície, crueldade e deslealdade. E de onde vem o "valor absoluto" do "absoluto kantiano"? Kant não deixa de tentar explicar isto, mas suas explicações me parecem cair no utilitarismo; suas proposições fundamentais (como por exemplo "Age como se fosses, através de suas máximas, sempre um membro legislador no reino universal dos fins") me parecem nada mais que uma tentativa de "ser utilitarista, mas com extrema sabedoria".
Não, precisamos de uma referência concreta, que nos permita fazer juízo de valor sem cair no terreno arbitrário do idealismo e tampouco no vazio moral do utilitarismo.
O Homem é a Medida de Todas as Coisas
Ora, a "régua" que nos permite avaliar o certo e o errado, o bem e o mal, na sociedade humana é o próprio homem!
Para que essa declaração seja válida, é preciso que aceitemos a premissa de que o homem tem uma natureza definida. Embora diferente dos demais animais no sentido de que evolui socialmente sem precisar mudar biologicamente - em lugar disto usando a tecnologia e transformando o ambiente, minha tese é que embora o homem possa sobreviver em condições quase infinitamente variáveis, não pode ser feliz, não pode ser saudável, em todas as condições em que pode sobreviver.
Vamos a alguns exemplos. Tomemos as condições de vida de um mineiro de carvão no século XIX. Muitos homens viveram assim. No entanto, passar a vida trabalhando dentro de túneis em perpétua escuridão, fazendo um trabalho duríssimo e arriscado, e recebendo em troca um pagamento miserável, que mal permite sobreviver - será isso "bom"? E uma sociedade que gera estas condições de vida, estará "certa"? E quanto ao período da escravidão no Brasil? Poderá em alguma circunstância se dizer que a escravidão não era errada? Como seria possível relativizar essas coisas?
Não posso ainda descrever a minha "régua infalível do bem e do mal". Mas sei o que ela é: é a natureza humana. A natureza humana sadia e integral, a natureza do homem que sabe que é parte do grande organismo que é a Terra. A natureza do homem que, embora abraçando sua inalienável parte animal, não teme avançar pelo caminho que o distingue de todos os outros animais - o caminho do conhecimento.
Paremos por aqui. A verdade é que eu não sei descrever a natureza humana. Afirmo, baseado nos exemplos que citei, que ela existe. O mineiro miserável não pode ser feliz, o escravo não pode ser feliz. Poderia talvez "sentir-se" feliz - mas à custa da deformação de sua personalidade, o que já é um mal.
Conhecer a natureza humana é o primeiro passo para recomeçar a caminhada em direção ao "fim da história".
A Utopia. O Paraíso Terrestre. Quantos filósofos não sonharam com isto - para não mencionar alguns sociólogos? Mas qual é a direção a seguir para a Utopia? "Siga o seu coração", dizem os professores de dança, :-) . E talvez eles estejam certos. Talvez seja uma forma de dizer que se nos conhecermos profundamente, saberemos que tipo de sociedade permitirá o pleno desenvolvimento do nosso potencial!
Nada de "normal" e "anormal", isso não importa. Falemos em "saúde" e "doença".
"Normal" não é nada mais do que "o que todo mundo faz". É um critério para evitar conflitos, mas nunca um critério de valor. Quanto à saúde e à doença, é diferente. Suponhamos que toda uma população sofra de raquitismo, em consequência de alimentação inadequada. Para eles isto seria "normal". Entretanto, a normalidade não muda a realidade - eles estão doentes.
O mesmo se aplica á saúde mental. Os nazistas gritando "Heil Hitler" eram "normais" - milhões de pessoas faziam o mesmo. Estavam, entretanto, doentes, neuróticos.
Sentir-se bem não quer dizer estar saudável
Como em tantas áreas da ciência, os sentidos podem nos enganar também neste terreno. Os nazistas gritando "Sieg Heil" sentiam-se fantasticamente bem! Entretanto, estavam nas garras de uma síndrome sadomasoquista que os levava a adorar a morte e rejeitar a vida.
Como conhecer a natureza humana?
Este primeiro passo, necessário para qualquer progresso social - pois como saber o que é bom para o homem sem saber o que é o homem? - é, evidentemente, uma atividade multidisciplinar. Psicologia, História, Antropologia, Política, etc., tem de dar suas contribuições - assim como a Etologia. Como já disse outras vezes, a Sociologia estuda muito "o que distingue o homem dos outros animais, o que o torna único", e parece esquecer que o homem é um animal! Temos de nos conhecer integralmente, e o fato de sermos mais uma espécie animal é no mínimo tão importante como o que quer que seja que nos faz únicos (o animal racional, o animal que ri, o animal religioso, o animal simbólico, ...). Agimos, em muitas circunstâncias, como animais! Temos de parar de negar este fato, se quisermos efetivamente nos conhecer!
Para um post, está de bom tamanho!
Bem-vindos ao Essencialismo Hominal!
:-)
Notas:
1) Ou a "infraestrutura", para usar uma expressão de Marx; Gerhard Lenski enfatiza as tecnologias propriamente ditas.
2) A "superestrutura" de Marx, ou os "fatos sociais" de Durkheim, ou o "habitus" de Bordieu - preferi usar neste texto uma expressão mais genérica, menos técnica.
3) Para quem não lembra do significado de "c", ver "Significado de E=mc2".
2 comments:
OMG o senhor leu, sôr, e ainda me respondeu!
Leu de verdade!
\o/
1. Não entendi em quê teu "essencialismo hominal" (nome horrível) é radicalmente distinto de alguns exemplos de humanismo - q abrange uma extensa família de teorias e concepções morais e éticas
Ah, sôr, eu quis deixar claro que não estou procurando seguir nenhuma “escola”. Que o que eu proponho – ou tento propor – é uma “coisa” em si mesma. Portanto, tem de ter um nome, não é? O senhor acha “Estruturalismo Antropóide” melhor que “Essencialismo Hominal”? Não gosta de nenhum dos dois? Que tal “Sociologia Krigh-ah-bandolo”?
☺
OK, falando sério: eu estou aware da minha ignorância, sôr. Mas estou querendo aprender. Se quiser citar alguns membros desta extensa família de teorias e concepções humanistas – as que o senhor gosta mais – eu ficaria muito agradecido.
2. Apresentar uma Teoria da Moralidade (A Teoria) é logicamente independente da refutação ao relativismo. Não faltam "refutações" ao relativismo, mais modestas q a pretensão d identificar o princípio moral supremo
Sôr, aqui eu novamente agradeceria algumas indicações de leitura... Tipo “Refutação ao Relativismo for Dummies”... O tempo para leituras que não sejam obrigatórias, no momento, é quase inexistente, mas o assunto me interessa profundamente e mais cedo ou mais tarde vou conseguir o tempo para ler!
Quanto a “apresentar “A” Teoria da Moralidade”... se é pra loquear, vamos loquear em ponto grande, não é mesmo?
☺
3. Pessoalmente, eu ñ vj como o rótulo vago "natureza humana" faz o trabalho de fornecer uma teoria última da moralidade. Até pq eu não vj o q essa natureza, seja qual for, tem de tão valioso per se. Para resumir, cagar no mato ñ tá na minha Lei Moral. Pessoalmente, estou preocupado é com coisas como d q forma contribuir para diminuir, a longo prazo, o sofrimento no mundo, ou me comportar nos diversos relacionamentos (inclusive implícitos, como o q tenho com outros concidadãos) em q se baseiam minhas obrigações. Se vc tiver uma teoria q m explique isso (e a outras pessoas), agradeço.
Ah, sôr, talvez não tenha ficado claro que a minha moralidade abraça e beija na boca o viés de que é humana. Aceita esta limitação. É universal, com este viés. E para o humano, tudo que é humano tem valor – per se! Se fôssemos... tatuíras, por exemplo, a moral seria diferente – e neste caso nossa moral é reduzida ao relativismo. Mas, na prática, não conseguimos pensar como tatuíras, nem como E.T.s, nem como nada a não ser humanos. Portanto, embora consciente de, nestes termos, ser relativista, minha moral que valoriza o humano per se é não relativista para todos os efeitos práticos!
Cagar no mato... muito caguei, quando era escoteiro! Primeira coisa que a gente fazia ao montar acampamento era escolher o lugar de cagar e cavar um buraco lá! ☺ Não entendi bem a moral e a cagança, mas talvez cavar o buraco e jogar terra em cima depois de obrar se encaixe na Lei Moral... ☺
“Diminuir, a longo prazo, o sofrimento no mundo”! “De que forma me comportar nos relacionamentos”! Bingo! Estamos juntos, sôr! Mas para saber como aplicar a Lei Moral, precisamos primeiro saber conceitualmente o que ela é!
Me repetindo: O que é bom para o Homem? O que se harmoniza com a Natureza do Homem! Com a natureza do homem conhecida, teremos o conhecimento do bem e do mal. Isso não quer dizer que aplicar este conhecimento às situações da vida prática seja fácil ou simples. Mas é um caminho definido.
P.S.: se eu tivesse q eleger um "princípio ético supremo", invariante ao contexto... Tvz fosse algo tão abstrato e bizarro qt "minimizar a entropia a longo prazo" - q tb seria de pouca ajuda na hora de definir nossos deveres morais
Agora tocou pra mim, sôr! ☺ O que tem a entropia a ver com a Moral?
Talvez o senhor esteja partindo da premissa – muito humana, ☺ - de que o Homem existir é uma boa coisa... Está vendo? Sua moral já é “Moral Antropóide”!
Humanism: A Very Short Introduction https://g.co/kgs/K1o6ea
Na mesma coleção de VSP, vc tem uma introdução à ética do Thomas Nagel. Cheguei a passar p vcs o Mortal Questions? Esse livro devia ser obrigatório pela constituição
2. Um simples é do Blackburn: https://criticanarede.com/filos_relativismo.html
Mais complicado, Objectivity and Truth, do Ronald Dworkin
3. Meu principal pt é q tem coisas naturais, como cagar no mato, das quais não sinto falta nenhuma. Extrapolando, tem uma pá de vícios bizarros q são naturais; mas vc não pode chama-los de vícios se seu princípio fundamental é a "natureza humana". Para fazer uma distinção entre o q é bom e o q é mau na natureza humana (o "truque humanista" é contrastar nossa "verdadeira natureza", nosso potencial, com os desvios contingentes... Não tenho saco p refutar esse truque no momento, mas m espanta q tantos filósofos o usem d boa-fe), vc vai precisar de um princípio adicional.
4. Estou bastante inseguro sobre isso... Pensar nessa linha m faz sentir meio hippie. Tirei a ideia do Information: very short introduction... Na época não tinha m soado convincente, mas qd parei pra pensar q, fundamentalmente, tvz a melhor definição de inteligência se relacione à ideia de redução de entropia (em oposição a processos aleatórios e caóticos)... E q nada nos impede de pensar a longuíssimo prazo - tvz nossa (ou uma delas) principal preocupação devesse ser com a continua existência de agentes auto-conscientes... Então m convenci da plausibilidade d q, se precisamos de um princípio realmente super-abrangente, esse é o melhor candidato
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