Saturday, April 28, 2018

Trabalho de Epistemologia das Ciências Sociais

Este material foi escrito como "atividade não presencial" para a cadeira de Epistemologia das Ciências Sociais.
O nível de qualidade oscila drasticamente ao longo do texto.  É visível que alguns trechos são um (mau) trabalho escolar, com coisas escritas para cumprir a demanda do professor.
Mas em outros eu coloco de maneira bastante clara algumas idéias próprias - o conceito que faço da ciência, por exemplo.  Até mesmo as afirmações a respeito da interação da ciência com a história, as condições sociais, os costumes e a moral não são despropositadas, embora sejam muito limitadas - como não poderia deixar de ser no contexto de um trabalho de graduação.  Mas as proposições são feitas de boa-fé, e não são absurdas.  Já é alguma coisa.

Faço até mesmo o esboço do que eu considero a "minha versão do estruturalismo", ou seja, o conceito de que  uma natureza humana, que a plasticidade do homem, embora imensa, não é infinita.  Que, embora falar do "normal" seja complicado, falar do "saudável" talvez seja um caminho melhor orientado em direção ao conhecimento: o homem pode viver em quase quaisquer condições, mas não pode ser feliz em quaisquer condições.  E sendo homem e sociedade inextricavelmente unidos, tanto o homem quanto a sociedade podem ser saudáveis ou doentes.  Sociedades doentes produzirão massas de neuróticos, enquanto sociedades saudáveis favorecerão a saúde e o bem-estar dos indivíduos.  Não, a idéia não me veio do nada, baseio-me nas obras de Erich Fromm, que considero um gênio, e a cujas idéias ouso esperar algum dia acrescentar algo significativo.  E onde faço estas "declarações do estruturalismo antropóide" (nome provisório, cunhado agora!  :-)  ) no texto abaixo?  Bem, em lugar nenhum, mas se derem uma olhada na questão 5, verão que há algo a respeito de "natureza humana", da mesma forma que em parte da resposta à questão 6.
Aproveitando a oportunidade, comento ainda que meu "estruturalismo antropóide" tem de incluir uma boa dose de etologia.  As Ciências Humanas focam muito "o que torna o homem único entre todos os animais" - e quase não falam no fato de que somos animais!  Acredito que não é possível fazer sociologia ou antropologia sem levar em conta que somos animais, grandes primatas mais precisamente, e muitas vezes nosso comportamento só pode ser explicado a esta luz.  Nesta área o meu paradigma é Jane Goodall, a famosa primatologista e antropologista.  O livro "The Third Chimpanzee", de Jared Diamond, também foi uma grande influência.

E, na questão 7, faço minha "declaração de fé" não-relativista.  :-)
Esclareço que sei que há um viés no meu "absoluto"; este viés é inerente à circunstância de ser humano.  Mas não posso esperar, para me posicionar perante a vida, pela certeza de ser detentor da verdade última.  A verdade é um ideal, e a vida tem demandas imediatas!  Tampouco posso aceitar a posição relativista de que "não há certo nem errado, não há bem nem mal, tudo é uma questão de ponto de vista".  Se assim fosse, nós mesmos nada seríamos, e a história da humanidade se reduziria a uma piada de humor negro.
Não, acredito que devemos agir cientificamente e nortear nossas ações em função do melhor conhecimento que temos até o momento.
Acredito também que temos com  nossos antepassados, que conduziram e passaram às nossas mãos a chama da existência e da evolução da espécie, a responsabilidade de encarar os desafios que a vida nos coloca, como indivíduos e como espécie, com assertividade, com coragem e com sabedoria - com a melhor sabedoria que a limitação humana permitir; errando e acertando, mas sem nunca perder de vista que há certo e errado, bem e mal, e que, mesmo que a verdade não possa ser alcançada, jamais deve deixar de ser buscada!

Bem, vamos então ao bendito "Trabalho de Epistemologia das Ciências Sociais".
(editado: talvez queiram também dar uma olhada no post "A Constante do Essencialismo Hominal"...)

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UFRGS
IFCH
HUM04052 – EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
2018/1
Professora Lorena C. Fleury

ATIVIDADE NÃO PRESENCIAL
25.abril.2018

Aluno: Pedro Francisco B. Pereira – 00290300


1.   De maneira recorrente, afirma-se que o método científico começa com "a observação fiel da realidade" (Bernard, 1856). Você concorda com essa afirmação? 
O texto referenciado usa a expressão “o método científico parte da observação fiel ...”.  Se usarmos a expressão “parte da observação”, em lugar de “começa na observação”, concordo com a afirmação, uma vez que a indução e a dedução interagem, em ciclos infinitos, na construção da ciência.


2.   Qual a relação entre ciência e senso comum? 
O senso comum se assemelha à ciência – pelo menos à “ciência aplicada” – no seu sentido utilitário, de resolução de questões da vida diária.
Mas são radicalmente diferentes no que se refere à validação.  O senso comum, caracteristicamente, não é questionado, pois é “o que todo mundo sabe” e portanto é assumido como evidente.  De uma forma geral, o senso comum nunca será questionado enquanto não falhar em resolver as questões práticas do dia-a-dia, e mesmo que falhe, não se segue que seja inevitavelmente e imediatamente questionado.  Essa é sua natureza.
A ciência, entretanto, na visão do racionalismo crítico conforme proposto por Popper, avança através de tentativas sistemáticas de falsear as afirmações que faz.  Neste sentido, ciência e senso comum são opostos.
Pode-se dizer também que “a ciência se propõe a investigar a verdade e o senso comum se dedica apenas à resolução de casos práticos”.  E, acrescento eu, como consequência desta ambição limitada, o senso comum muitas vezes falha até mesmo na sua modesta proposta de resolução dos casos práticos. 

E entre ciência, erro e verdade?
Apesar de modesto acadêmico sem graduação, ouso tentar uma definição de ciência em poucas palavras: a ciência é um método epistemológico; é um processo de obtenção e validação de conhecimento.
A verdade... essa é um ideal que não existe – ou que ainda não foi nunca atingido - no mundo real.  Seria o conhecimento último, absoluto, que prescinde de aprofundamento, de acréscimo, de evolução, porque já chegou à perfeição.  A verdade, entretanto, pode ser vista como um norte para a ciência; um ideal na direção do qual a ciência avança, sem entretanto jamais tê-lo atingido; um horizonte, que se move à medida que avançamos...
E o erro é parte não só inevitável como desejável desta caminhada de avanço do conhecimento.  São os erros constatados na aplicação dos conceitos teóricos da ciência, na experimentação baseada nestes conceitos, que permitem a depuração das teorias científicas e a evolução do conhecimento.


3.   Qual é, para Karl Popper, o "problema da demarcação"? 
O “problema da demarcação”, para Popper, consiste em encontrar um critério de avaliação que permita definir o que é ciência – ou seja, definir a fronteira, ou demarcação, entre ciência e não-ciência, entre ciência e pseudociência, entre ciência e filosofia, entre ciência e religião.  

Como o solucionou? 
O requisito básico de Popper para que uma teoria seja científica é a falseabilidade.  Ou seja, é característica intrínseca da ciência fazer afirmações que sejam falseáveis.  Estas afirmações, portanto, devem fazer declarações positivas que possam ser demonstradas como falsas por experimentos – sejam estes exequíveis e viáveis ou apenas concebíveis.

Você vê limites nessa solução? Se sim, quais?
As ciências biológicas, em função da constante transformação dos seus objetos de estudo e da complexidade da interação dos seres vivos uns com os outros e com o ambiente, coloca desafios especialmente complexos à experimentação.
Tratando-se de seres vivos, temos também os limites da ética.
E quanto às Ciências Sociais, à Psicologia e outras ciências “humanas”, além dos limites mencionados acima temos o fato de que o cientista estará fatalmente sendo “reflexivo”, ou seja, estudando a si mesmo, e isto torna a objetividade, a ausência de viés – ou melhor: a consciência de que forçosamente um viés - ainda mais difícil do que em outros ramos do estudo.


4.   Qual a influência e/ou relevância do contexto histórico-social para uma descoberta científica?
O contexto histórico-social tem uma influência muito grande na marcha da ciência.  Alguns dos fatores principais são:
·         Os cientistas são homens, ipso facto são seres sociais, moldados pela sociedade em que cresceram;
·         Para além deste processo de socialização, grande parte da formação especificamente científica ocorre de forma tácita, pela vivência do ambiente acadêmico;
·         Cada sociedade, em cada momento histórico específico, tem necessidades econômicas específicas.  Atender estas necessidades influencia a prioridade dada ás diferentes áreas científicas.
·         O avanço de cada área da ciência não acontece independentemente das outras áreas e nem desconectado do que foi feito anteriormente. Avanços em uma área podem possibilitar o avanço em outra – por exemplo, os Raios X sendo usados para diagnóstico médico ou, mais recentemente, a radioatividade sendo usada no tratamento do câncer; os paradigmas existentes influenciam a marcha da ciência, seja porque servem como base para a criação de novos paradigmas que os aperfeiçoam, seja porque é preciso derrubá-los para adotar um novo enfoque mais apropriado.
Por todos estes motivos práticos, a ciência “possível” é limitada pelo contexto histórico-social.

Mas acima do utilitarismo prático, há a Ética, há a Moral e os costumes, há a Religião. Todos estes fatores pairam acima da sociedade, regulando todas as suas atividades, para o bem ou para o mal.  São “fatos sociais”. E se, para avançar, a Ciência precisar contrapor-se a eles, enfrentará uma resistência não no contexto da própria ciência, mas uma resistência social.  Desta forma, as condições sociais influenciam profundamente a atividade científica.


5.   Para você, quais são as etapas necessárias para o progresso da ciência?
Creio que o impulso de buscar o conhecimento está enraizado profundamente no ser humano, que ele foi primeiramente uma necessidade evolutiva, um fator de sobrevivência, e se tornou, digamos, um instinto humano.  O que impulsiona o homem a fazer ciência é portanto, a meu ver, primeiramente uma necessidade de conhecer, compreender e explicar o mundo em que vive, de forma a poder – principalmente por razões utilitárias – prever e/ou controlar seu comportamento.  A evolução incutiu isto tão profundamente no ser humano, que a motivação utilitária se tornou uma necessidade de conhecimento pelo conhecimento.  Talvez esse “espírito filosófico” (uso “filosófico” aqui no sentido etimológico) não esteja grandemente desenvolvido em todos os membros da espécie, mas pertence à espécie, e se manifesta espetacularmente em alguns seres especiais, que marcaram as épocas em que viveram com gigantescos progressos científicos.
Dadas estas premissas – as motivações, as forças motoras do avanço científico – o progresso acontecerá na medida das condições históricas, sociais, tecnológicas, etc., existentes, conforme já foi mencionado na resposta à questão anterior.

E para Thomas Kuhn?
Thomas Kuhn foi o homem que cunhou a expressão “mudança de paradigma”.  Ele declarou que a ciência passa por mudanças de paradigma periódicas, em lugar de apenas avançar em uma linha contínua, e que estas mudanças de paradigma abrem espaço para novas abordagens que permitem compreender conceitos que os cientistas jamais considerariam válidos antes disto.
Kuhn também declarou que a verdade científica não pode ser estabelecida apenas através de critérios objetivos, sendo em vez disto definida pelo consenso de uma dada comunidade científica, e que paradigmas rivais são frequentemente não apenas irreconciliáveis, mas também impossíveis de comparar (incomensuráveis, no sentido filosófico), por não usarem a mesma ontologia.
Portanto, para Kuhn a compreensão da ciência jamais pode basear-se completamente apenas na objetividade.  A ciência precisa levar em conta perspectivas subjetivas também, porque todas as conclusões objetivas são, em última análise, fundadas sobre o condicionamento e a visão de mundo – subjetivos – dos pesquisadores que as elaboraram.


6.   O que é ciência, afinal?
A meu ver, a ciência não é um substantivo, é um verbo.  Não é uma coisa, é um processo.  Como disse em outro ponto deste texto, “apesar de modesto acadêmico sem graduação, ouso tentar uma definição de ciência em poucas palavras: a ciência é um método epistemológico; é um processo de obtenção e validação de conhecimento”. 
Certamente podemos também designar como “ciência” o produto deste método, o conjunto de conhecimento obtido e validado através do método científico.  Mas o processo é mais constante que o seu produto; o estado da ciência se transforma continuamente.
E também podemos dizer que a ciência é corporificada nas instituições onde ela acontece.

E o que há de formidável a seu respeito?
O que há de formidável a seu respeito é que – como foi dito na resposta à questão 5 – o homem, como indivíduo e como espécie, tem a necessidade de fazer ciência; se não o fizer, não será humano.  A ciência é necessária para que o homem seja.
Essa forma de existir peculiar dá ao homem um poder também peculiar – o de não apenas entender o mundo, mas transformá-lo.  A evolução, nas outras espécies, transformou as características biológicas.  No homem, a biologia se mantem: o que ele transforma é o ambiente.  A ciência dá ao homem o poder de criar ou eliminar sofrimento; a ciência dá ao homem o poder de transformar o mundo em céu ou inferno.
All deities reside in the human breast.
William Blake


7.   Como devemos usar as ciências, e quem decide a questão?
Creio que a resposta adequada a estas duas questões seria... “Eu não sei” e “Eu não sei”.
Para saber como usar as ciências, seria necessário saber o que elas nos trarão no futuro, e isto nem mesmo os pesquisadores de vanguarda tem o poder de antever.
Consigo, contudo, dar uma resposta bem ampla: a ciência deve ser usada para o bem maior.  Quando estudei nos Estados Unidos, as referências ao “bem maior” eram relativamente frequentes.  Os colegas falavam deste “greater good” or “greatest good” como se fosse um substantivo comum, um objeto bem definido, à disposição numa prateleira – era só ir buscá-lo.  E os professores aceitavam este uso.  Confesso que após um espanto inicial comecei a ficar irritado com isto.  Agora, no entanto, esta é a minha resposta.  A Ciência deve ser usada para o bem maior.  E como sei que ele não é um objeto à disposição em uma prateleira, darei dele a minha visão o mais resumida e genérica possível:
  • ·         Sou um ser vivo.  Nasci, vivo, e morrerei, numa existência fugaz como uma fagulha na noite.  A efemeridade não tira nada do valor da vida, nem da sua beleza, talvez mesmo seja o que os cria.  Como ser vivente, a vida é um valor para mim.  Tudo que cria e preserva a vida – não só dos indivíduos, mas das espécies de todos os reinos, do planeta, de toda a vida no Universo, se vida houver fora da Terra – faz parte do bem maior para mim.
  • ·         Nenhum ser vivo quer sofrer.  A dor, entretanto, é inerente à vida.  E é por isto mesmo, pelo fato de a dor ser inevitável e tão abundante no mundo, que tudo que diminua a dor de algum ser faz parte do bem maior!
  • ·         Evitar o sofrimento não é tudo; os seres vivos buscam também a felicidade, a alegria – e uma das condições de ser feliz é realizar plenamente o seu potencial, fazer “o que se nasceu para fazer”.  Portanto, tudo que conduza à realização de todos os seres sencientes faz parte do bem maior.
 Para isto devemos usar a Ciência.

E quem decide?  Bem, ninguém decide, essa é a resposta.  O Estado não deve controlar a ciência.  A Religião não deve controlar a ciência.  O Exército não deve controlar a ciência.  A “maioria” não deve controlar a ciência.  Saber, seja o que for, nunca é errado.
Quanto aos métodos usados e quanto às aplicações da ciência, bem, aí a questão é outra!
A Ciência tem de atuar nos limites da Ética.  Mas isso, em princípio, nem seria necessário dizer, porque tudo na sociedade humana deve se ater aos limites da ética. 
A ciência deve ser aplicada, também, dentro dos limites da prudência.  A “prudência” é uma virtude raramente citada hoje em dia; para quem desejar uma definição do termo como o uso aqui, indico a leitura do capítulo correspondente no livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, de André Comte-Sponville.  Mas seu contrário, é fácil saber o que é:  a imprudência na aplicação da ciência, dado seu poder, pode levar a consequências catastróficas e irreversíveis, e isto tem de ser sempre considerado, dando opção a todos os que serão potencialmente afetados.


8.   Paul Feyerabend, em "Contra o método", chegou a afirmar que, em uma descoberta científica, "tudo vale" em termos de metodologias. Essa posição implica em um relativismo epistemológico? Explique.
Bem, se levarmos ao pé da letra a afirmação de que “tudo vale”, entendo que sim, isso é relativismo.  Se “tudo vale”, não há verdade, tudo depende de ponto de vista.  Sugiro aos defensores desta escola que experimentem ter o ponto de vista que “consigo voar apenas com o poder do pensamento e portanto posso me jogar de um prédio de 15 andares”.  Depois conversaremos...
Críticos à obra de Feyerabend, contudo – e, supostamente, o próprio Feyerabend – alegam que não foi isto o que ele quis dizer (porque dizer uma coisa quando se quer significar outra é coisa que não entendo).  Que o verdadeiro sentido é “tudo vale no sentido de uma maior flexibilidade metodológica, sem desprezar o conhecimento existente na área onde se está trabalhando”.
Isto “desenquadraria” Feyerabend como relativista.  Pode ser.  Mas a proposição está, a meu ver, incorreta. 
Fico com Kuhn, que acredita em períodos de crescimento periodicamente transformados por quebras de paradigma.  Se nos ativermos demasiadamente ao conhecimento existente, como ocorrerá a quebra de paradigma?  Não, todo conhecimento pode e deve ser questionado.  Essa é a essência do método científico!  Nada é sagrado na ciência, o sagrado pertence á religião!
Mas o método, ah, este sim! – é um patrimônio da ciência!

Muitas vezes é dito que a criação da Teoria da Relatividade foi um ato de “criação poética”, uma revolução não só no conhecimento que enuncia como no método pelo qual foi obtido.  Admito que não sou físico, sequer bom matemático, mas várias descrição acessíveis a leigos, facilmente encontráveis (na Wikipedia, por exemplo, ou no artigo “Einstein's Theory of General Relativity”, no site https://www.space.com/17661-theory-general-relativity.html ) mostra que Einstein construiu sua teoria usando (genialmente) Matemática e Física dentro do conceito do racionalismo crítico – sua teoria faz declarações positivas e é demonstrável – ou falseável – experimentalmente.

É dito também que “muitas das grandes descobertas foram feitas por acaso”.  Um exemplo clássico é a descoberta da penicilina.  Posso citar também a descoberta dos Raios X, que foi um “acidente” em um processo de pesquisa.  Mas ainda aqui o método científico – experimentação controlada, observação meticulosa, análise lógica – foi o elemento fundamental.  As experiências não saíram como previamente foi imaginado  pelos pesquisadores, isto é verdade.  Mas se não estivesse em curso uma experiência pelo método científico racional, Fleming jamais teria tido condições de notar que algumas placas de Petri não desenvolviam bactérias, nem Röntgen teria percebido os efeitos da radiação em filmes fotográficos.

Parece-me ver implícito nos trabalhos dos “defensores do caos” a premissa de que o trabalho metódico implica em falta de imaginação, em rigidez, em sisudez mesmo.  Mas creio que ninguém além deles exige isto dos cientistas “racionalistas” – que o diga a famosa foto de Einstein, todo despenteado, mostrando a língua!




QUESTÕES “EXTRAS”, QUE EU RESPONDI ANTES DE ME DAR CONTA QUE NÃO PRECISAVA:

O que é uma "observação fiel da realidade"? 
Se “fiel” for entendido como “todos os detalhes de todos os aspectos”, essa observação simplesmente não existe.  Certamente que ela seria uma ferramenta valiosa para a construção e validação do conhecimento científico, mas é impossível observar e controlar todos os aspectos físicos – inclusive a nível sub-atômico; químicos – inclusive de organismos vivos; etc., do(s) objeto(s) de estudo e do ambiente em que a observação está sendo feita.  O cientista tem de usar, portanto, uma “observação tão acurada quanto possível embora incompleta”, isto é, uma observação atenta, minuciosa e controlada, focada nos aspectos relevantes para a teoria em que está trabalhando, referentes tanto ao objeto da análise quanto às circunstâncias e ambiente da observação.

Quais os seus limites? 
       a)    Dificuldade de estabelecer, a priori, o que é relevante ou não para a teoria ou hipótese.
       b)    Limitações tecnológicas dos instrumentos de medição.
       c)     Limitações inerentes ao processo de observação – Princípio da Incerteza de Heisenberg, por exemplo.
Além destas limitações objetivas, temos a limitação subjetiva que resulta da “humanidade” do cientista; limitações causadas por idéias religiosas, por ideologias ou filosofias que siga, e que o impeçam de usar certos procedimentos ou mesmo de, pela sua “configuração mental/emocional/ideológica”, se tornar consciente de alguns fatos embora os mesmos estejam disponíveis – com todas as implicações que isto acarreta na formação e validação de teorias.

Qual a relação entre ciência e observação da realidade?
Como não vejo razão para abandonar o racionalismo crítico segundo o modelo em que foi definido por Karl Popper, acredito que a observação da realidade influencia todos os momentos da produção científica, desde a definição de interesse de pesquisa, passando pelo momento de formulação de hipóteses e indo até a etapa de testes que irão validar as hipóteses.



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