O nível de qualidade oscila drasticamente ao longo do texto. É visível que alguns trechos são um (mau) trabalho escolar, com coisas escritas para cumprir a demanda do professor.
Mas em outros eu coloco de maneira bastante clara algumas idéias próprias - o conceito que faço da ciência, por exemplo. Até mesmo as afirmações a respeito da interação da ciência com a história, as condições sociais, os costumes e a moral não são despropositadas, embora sejam muito limitadas - como não poderia deixar de ser no contexto de um trabalho de graduação. Mas as proposições são feitas de boa-fé, e não são absurdas. Já é alguma coisa.
Faço até mesmo o esboço do que eu considero a "minha versão do estruturalismo", ou seja, o conceito de que há uma natureza humana, que a plasticidade do homem, embora imensa, não é infinita. Que, embora falar do "normal" seja complicado, falar do "saudável" talvez seja um caminho melhor orientado em direção ao conhecimento: o homem pode viver em quase quaisquer condições, mas não pode ser feliz em quaisquer condições. E sendo homem e sociedade inextricavelmente unidos, tanto o homem quanto a sociedade podem ser saudáveis ou doentes. Sociedades doentes produzirão massas de neuróticos, enquanto sociedades saudáveis favorecerão a saúde e o bem-estar dos indivíduos. Não, a idéia não me veio do nada, baseio-me nas obras de Erich Fromm, que considero um gênio, e a cujas idéias ouso esperar algum dia acrescentar algo significativo. E onde faço estas "declarações do estruturalismo antropóide" (nome provisório, cunhado agora! :-) ) no texto abaixo? Bem, em lugar nenhum, mas se derem uma olhada na questão 5, verão que há algo a respeito de "natureza humana", da mesma forma que em parte da resposta à questão 6.
Aproveitando a oportunidade, comento ainda que meu "estruturalismo antropóide" tem de incluir uma boa dose de etologia. As Ciências Humanas focam muito "o que torna o homem único entre todos os animais" - e quase não falam no fato de que somos animais! Acredito que não é possível fazer sociologia ou antropologia sem levar em conta que somos animais, grandes primatas mais precisamente, e muitas vezes nosso comportamento só pode ser explicado a esta luz. Nesta área o meu paradigma é Jane Goodall, a famosa primatologista e antropologista. O livro "The Third Chimpanzee", de Jared Diamond, também foi uma grande influência.
E, na questão 7, faço minha "declaração de fé" não-relativista. :-)
Esclareço que sei que há um viés no meu "absoluto"; este viés é inerente à circunstância de ser humano. Mas não posso esperar, para me posicionar perante a vida, pela certeza de ser detentor da verdade última. A verdade é um ideal, e a vida tem demandas imediatas! Tampouco posso aceitar a posição relativista de que "não há certo nem errado, não há bem nem mal, tudo é uma questão de ponto de vista". Se assim fosse, nós mesmos nada seríamos, e a história da humanidade se reduziria a uma piada de humor negro.
Não, acredito que devemos agir cientificamente e nortear nossas ações em função do melhor conhecimento que temos até o momento.
Acredito também que temos com nossos antepassados, que conduziram e passaram às nossas mãos a chama da existência e da evolução da espécie, a responsabilidade de encarar os desafios que a vida nos coloca, como indivíduos e como espécie, com assertividade, com coragem e com sabedoria - com a melhor sabedoria que a limitação humana permitir; errando e acertando, mas sem nunca perder de vista que há certo e errado, bem e mal, e que, mesmo que a verdade não possa ser alcançada, jamais deve deixar de ser buscada!
Bem, vamos então ao bendito "Trabalho de Epistemologia das Ciências Sociais".
(editado: talvez queiram também dar uma olhada no post "A Constante do Essencialismo Hominal"...)
-x-x-x-x-x-x
UFRGS
IFCH
HUM04052 –
EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
2018/1
Professora Lorena
C. Fleury
ATIVIDADE NÃO
PRESENCIAL
25.abril.2018
Aluno: Pedro
Francisco B. Pereira – 00290300
1. De maneira
recorrente, afirma-se que o método científico começa com "a observação
fiel da realidade" (Bernard, 1856). Você concorda com essa
afirmação?
O texto referenciado usa a expressão
“o método científico parte da
observação fiel ...”. Se usarmos a
expressão “parte da observação”, em lugar de “começa na observação”, concordo
com a afirmação, uma vez que a indução e a dedução interagem, em ciclos infinitos,
na construção da ciência.
2. Qual a
relação entre ciência e senso comum?
O senso comum se assemelha à ciência
– pelo menos à “ciência aplicada” – no seu sentido utilitário, de resolução de
questões da vida diária.
Mas são radicalmente diferentes no
que se refere à validação. O senso
comum, caracteristicamente, não é questionado, pois é “o que todo mundo sabe” e
portanto é assumido como evidente. De
uma forma geral, o senso comum nunca será questionado enquanto não falhar em
resolver as questões práticas do dia-a-dia, e mesmo que falhe, não se segue que
seja inevitavelmente e imediatamente questionado. Essa é sua natureza.
A ciência, entretanto, na visão do
racionalismo crítico conforme proposto por Popper, avança através de tentativas
sistemáticas de falsear as afirmações que faz.
Neste sentido, ciência e senso comum são opostos.
Pode-se dizer também que “a ciência
se propõe a investigar a verdade e o senso comum se dedica apenas à resolução
de casos práticos”. E, acrescento eu,
como consequência desta ambição limitada, o senso comum muitas vezes falha até
mesmo na sua modesta proposta de resolução dos casos práticos.
E entre ciência, erro e verdade?
Apesar de modesto acadêmico sem
graduação, ouso tentar uma definição de ciência em poucas palavras: a ciência é
um método epistemológico; é um processo de obtenção e validação de
conhecimento.
A verdade... essa é um ideal que não
existe – ou que ainda não foi nunca atingido - no mundo real. Seria o conhecimento último, absoluto, que
prescinde de aprofundamento, de acréscimo, de evolução, porque já chegou à
perfeição. A verdade, entretanto, pode
ser vista como um norte para a ciência; um ideal na direção do qual a ciência
avança, sem entretanto jamais tê-lo atingido; um horizonte, que se move à
medida que avançamos...
E o erro é parte não só inevitável
como desejável desta caminhada de avanço do conhecimento. São os erros constatados na aplicação dos
conceitos teóricos da ciência, na experimentação baseada nestes conceitos, que
permitem a depuração das teorias científicas e a evolução do conhecimento.
3. Qual é,
para Karl Popper, o "problema da demarcação"?
O “problema da demarcação”, para
Popper, consiste em encontrar um critério de avaliação que permita definir o
que é ciência – ou seja, definir a fronteira, ou demarcação, entre ciência e
não-ciência, entre ciência e pseudociência, entre ciência e filosofia, entre
ciência e religião.
Como o solucionou?
O requisito básico de Popper para que
uma teoria seja científica é a falseabilidade. Ou seja, é característica intrínseca da
ciência fazer afirmações que sejam falseáveis.
Estas afirmações, portanto, devem fazer declarações positivas que possam ser demonstradas como falsas por
experimentos – sejam estes exequíveis e viáveis ou apenas concebíveis.
Você vê limites nessa solução? Se
sim, quais?
As ciências biológicas, em função da
constante transformação dos seus objetos de estudo e da complexidade da
interação dos seres vivos uns com os outros e com o ambiente, coloca desafios
especialmente complexos à experimentação.
Tratando-se de seres vivos, temos
também os limites da ética.
E quanto às Ciências Sociais, à
Psicologia e outras ciências “humanas”, além dos limites mencionados acima
temos o fato de que o cientista estará fatalmente sendo “reflexivo”, ou seja,
estudando a si mesmo, e isto torna a objetividade, a ausência de viés – ou
melhor: a consciência de que forçosamente há
um viés - ainda mais difícil do que em outros ramos do estudo.
4. Qual a
influência e/ou relevância do contexto histórico-social para uma descoberta
científica?
O contexto histórico-social tem uma
influência muito grande na marcha da ciência.
Alguns dos fatores principais são:
·
Os cientistas são homens, ipso facto
são seres sociais, moldados pela sociedade em que cresceram;
·
Para além deste processo de
socialização, grande parte da formação especificamente científica ocorre de
forma tácita, pela vivência do ambiente acadêmico;
·
Cada sociedade, em cada momento
histórico específico, tem necessidades econômicas específicas. Atender estas necessidades influencia a
prioridade dada ás diferentes áreas científicas.
·
O avanço de cada área da ciência não
acontece independentemente das outras áreas e nem desconectado do que foi feito
anteriormente. Avanços em uma área podem possibilitar o avanço em outra – por
exemplo, os Raios X sendo usados para diagnóstico médico ou, mais recentemente,
a radioatividade sendo usada no tratamento do câncer; os paradigmas existentes
influenciam a marcha da ciência, seja porque servem como base para a criação de
novos paradigmas que os aperfeiçoam, seja porque é preciso derrubá-los para
adotar um novo enfoque mais apropriado.
Por todos estes motivos práticos, a
ciência “possível” é limitada pelo contexto histórico-social.
Mas acima do utilitarismo prático, há
a Ética, há a Moral e os costumes, há a Religião. Todos estes fatores pairam
acima da sociedade, regulando todas as suas atividades, para o bem ou para o
mal. São “fatos sociais”. E se, para
avançar, a Ciência precisar contrapor-se a eles, enfrentará uma resistência não
no contexto da própria ciência, mas uma resistência social. Desta forma, as condições sociais influenciam
profundamente a atividade científica.
5. Para você,
quais são as etapas necessárias para o progresso da ciência?
Creio que o impulso de buscar o
conhecimento está enraizado profundamente no ser humano, que ele foi
primeiramente uma necessidade evolutiva, um fator de sobrevivência, e se
tornou, digamos, um instinto humano. O que impulsiona o homem a fazer ciência é portanto,
a meu ver, primeiramente uma necessidade de conhecer, compreender e explicar o
mundo em que vive, de forma a poder – principalmente por razões utilitárias –
prever e/ou controlar seu comportamento.
A evolução incutiu isto tão profundamente no ser humano, que a motivação
utilitária se tornou uma necessidade de conhecimento pelo conhecimento. Talvez esse “espírito filosófico” (uso
“filosófico” aqui no sentido etimológico) não esteja grandemente desenvolvido em
todos os membros da espécie, mas pertence à espécie, e se manifesta
espetacularmente em alguns seres especiais, que marcaram as épocas em que
viveram com gigantescos progressos científicos.
Dadas estas premissas – as
motivações, as forças motoras do avanço científico – o progresso acontecerá na
medida das condições históricas, sociais, tecnológicas, etc., existentes,
conforme já foi mencionado na resposta à questão anterior.
E para
Thomas Kuhn?
Thomas Kuhn foi o homem que cunhou a
expressão “mudança de paradigma”. Ele
declarou que a ciência passa por mudanças de paradigma periódicas, em lugar de
apenas avançar em uma linha contínua, e que estas mudanças de paradigma abrem
espaço para novas abordagens que permitem compreender conceitos que os
cientistas jamais considerariam válidos antes disto.
Kuhn também declarou que a verdade
científica não pode ser estabelecida apenas através de critérios objetivos,
sendo em vez disto definida pelo consenso de uma dada comunidade científica, e
que paradigmas rivais são frequentemente não apenas irreconciliáveis, mas
também impossíveis de comparar (incomensuráveis, no sentido filosófico), por
não usarem a mesma ontologia.
Portanto, para Kuhn a compreensão da
ciência jamais pode basear-se completamente apenas na objetividade. A ciência precisa levar em conta perspectivas
subjetivas também, porque todas as conclusões objetivas são, em última análise,
fundadas sobre o condicionamento e a visão de mundo – subjetivos – dos
pesquisadores que as elaboraram.
6. O que é
ciência, afinal?
A meu ver, a ciência não é um substantivo, é um
verbo. Não é uma coisa, é um
processo. Como disse em outro ponto
deste texto, “apesar de modesto acadêmico sem
graduação, ouso tentar uma definição de ciência em poucas palavras: a ciência é
um método epistemológico; é um processo de obtenção e validação de
conhecimento”.
Certamente podemos também designar
como “ciência” o produto deste
método, o conjunto de conhecimento obtido e validado através do método
científico. Mas o processo é mais
constante que o seu produto; o estado da ciência se transforma continuamente.
E também podemos dizer que a ciência
é corporificada nas instituições onde ela acontece.
E o que há de formidável a seu respeito?
O que
há de formidável a seu respeito é que – como foi dito na resposta à questão 5 –
o homem, como indivíduo e como espécie, tem a necessidade de fazer ciência; se não o fizer, não será humano. A ciência é necessária para que o homem seja.
Essa
forma de existir peculiar dá ao homem um poder também peculiar – o de não
apenas entender o mundo, mas transformá-lo.
A evolução, nas outras espécies, transformou as características
biológicas. No homem, a biologia se
mantem: o que ele transforma é o ambiente.
A ciência dá ao homem o poder de criar ou eliminar sofrimento; a ciência
dá ao homem o poder de transformar o mundo em céu ou inferno.
All deities reside in the human breast.
William
Blake
7. Como
devemos usar as ciências, e quem decide a questão?
Creio
que a resposta adequada a estas duas questões seria... “Eu não sei” e “Eu não
sei”.
Para
saber como usar as ciências, seria necessário saber o que elas nos trarão no
futuro, e isto nem mesmo os pesquisadores de vanguarda tem o poder de antever.
Consigo,
contudo, dar uma resposta bem ampla: a
ciência deve ser usada para o bem maior.
Quando estudei nos Estados Unidos, as referências ao “bem maior” eram
relativamente frequentes. Os colegas
falavam deste “greater good” or “greatest good” como se fosse um substantivo
comum, um objeto bem definido, à disposição numa prateleira – era só ir buscá-lo. E os professores aceitavam este uso. Confesso que após um espanto inicial comecei
a ficar irritado com isto. Agora, no
entanto, esta é a minha resposta. A
Ciência deve ser usada para o bem maior.
E como sei que ele não é um objeto à disposição em uma prateleira, darei
dele a minha visão o mais resumida e genérica possível:
- · Sou um ser vivo. Nasci, vivo, e morrerei, numa existência fugaz como uma fagulha na noite. A efemeridade não tira nada do valor da vida, nem da sua beleza, talvez mesmo seja o que os cria. Como ser vivente, a vida é um valor para mim. Tudo que cria e preserva a vida – não só dos indivíduos, mas das espécies de todos os reinos, do planeta, de toda a vida no Universo, se vida houver fora da Terra – faz parte do bem maior para mim.
- · Nenhum ser vivo quer sofrer. A dor, entretanto, é inerente à vida. E é por isto mesmo, pelo fato de a dor ser inevitável e tão abundante no mundo, que tudo que diminua a dor de algum ser faz parte do bem maior!
- · Evitar o sofrimento não é tudo; os seres vivos buscam também a felicidade, a alegria – e uma das condições de ser feliz é realizar plenamente o seu potencial, fazer “o que se nasceu para fazer”. Portanto, tudo que conduza à realização de todos os seres sencientes faz parte do bem maior.
E quem
decide? Bem, ninguém decide, essa é a
resposta. O Estado não deve controlar a
ciência. A Religião não deve controlar a
ciência. O Exército não deve controlar a
ciência. A “maioria” não deve controlar
a ciência. Saber, seja o que for, nunca
é errado.
Quanto
aos métodos usados e quanto às aplicações da ciência, bem, aí a
questão é outra!
A
Ciência tem de atuar nos limites da Ética.
Mas isso, em princípio, nem seria necessário dizer, porque tudo na sociedade humana deve se ater
aos limites da ética.
A
ciência deve ser aplicada, também, dentro dos limites da prudência. A “prudência” é uma virtude raramente citada
hoje em dia; para quem desejar uma definição do termo como o uso aqui, indico a
leitura do capítulo correspondente no livro “Pequeno Tratado das Grandes
Virtudes”, de André Comte-Sponville. Mas
seu contrário, é fácil saber o que é: a imprudência na aplicação da ciência, dado
seu poder, pode levar a consequências catastróficas e irreversíveis, e isto
tem de ser sempre considerado, dando opção a todos os que serão potencialmente afetados.
8. Paul
Feyerabend, em "Contra o método", chegou a afirmar que, em uma
descoberta científica, "tudo vale" em termos de metodologias. Essa
posição implica em um relativismo epistemológico? Explique.
Bem,
se levarmos ao pé da letra a afirmação de que “tudo vale”, entendo que sim,
isso é relativismo. Se “tudo vale”, não
há verdade, tudo depende de ponto de vista.
Sugiro aos defensores desta escola que experimentem ter o ponto de vista
que “consigo voar apenas com o poder do pensamento e portanto posso me jogar de
um prédio de 15 andares”. Depois
conversaremos...
Críticos
à obra de Feyerabend, contudo – e, supostamente, o próprio Feyerabend – alegam
que não foi isto o que ele quis
dizer (porque dizer uma coisa quando se quer significar outra é coisa que não
entendo). Que o verdadeiro sentido é
“tudo vale no sentido de uma maior flexibilidade metodológica, sem desprezar o
conhecimento existente na área onde se está trabalhando”.
Isto
“desenquadraria” Feyerabend como relativista.
Pode ser. Mas a proposição está,
a meu ver, incorreta.
Fico
com Kuhn, que acredita em períodos de crescimento periodicamente transformados
por quebras de paradigma. Se nos
ativermos demasiadamente ao conhecimento existente, como ocorrerá a quebra de
paradigma? Não, todo conhecimento pode e
deve ser questionado. Essa é a essência
do método científico! Nada é sagrado na
ciência, o sagrado pertence á religião!
Mas o
método, ah, este sim! – é um patrimônio da ciência!
Muitas
vezes é dito que a criação da Teoria da Relatividade foi um ato de “criação
poética”, uma revolução não só no conhecimento que enuncia como no método pelo
qual foi obtido. Admito que não sou
físico, sequer bom matemático, mas várias descrição acessíveis a leigos,
facilmente encontráveis (na Wikipedia, por exemplo, ou no artigo “Einstein's
Theory of General Relativity”, no site https://www.space.com/17661-theory-general-relativity.html ) mostra que Einstein
construiu sua teoria usando (genialmente) Matemática e Física dentro do conceito do racionalismo crítico
– sua teoria faz declarações positivas e é demonstrável – ou falseável –
experimentalmente.
É dito
também que “muitas das grandes descobertas foram feitas por acaso”. Um exemplo clássico é a descoberta da
penicilina. Posso citar também a
descoberta dos Raios X, que foi um “acidente” em um processo de pesquisa. Mas
ainda aqui o método científico – experimentação controlada, observação
meticulosa, análise lógica – foi o elemento fundamental. As experiências não saíram como previamente foi imaginado pelos pesquisadores, isto é verdade. Mas se não estivesse em curso uma experiência
pelo método científico racional, Fleming jamais teria tido condições de notar
que algumas placas de Petri não desenvolviam bactérias, nem Röntgen teria
percebido os efeitos da radiação em filmes fotográficos.
Parece-me
ver implícito nos trabalhos dos “defensores do caos” a premissa de que o
trabalho metódico implica em falta de imaginação, em rigidez, em sisudez
mesmo. Mas creio que ninguém além deles
exige isto dos cientistas “racionalistas” – que o diga a famosa foto de Einstein,
todo despenteado, mostrando a língua!
QUESTÕES
“EXTRAS”, QUE EU RESPONDI ANTES DE ME DAR CONTA QUE NÃO PRECISAVA:
O que é uma "observação fiel da
realidade"?
Se “fiel” for entendido como “todos
os detalhes de todos os aspectos”, essa observação simplesmente não
existe. Certamente que ela seria uma
ferramenta valiosa para a construção e validação do conhecimento científico,
mas é impossível observar e controlar todos os aspectos físicos – inclusive a
nível sub-atômico; químicos – inclusive de organismos vivos; etc., do(s)
objeto(s) de estudo e do ambiente em que a observação está sendo feita. O cientista tem de usar, portanto, uma
“observação tão acurada quanto possível embora incompleta”, isto é, uma
observação atenta, minuciosa e controlada, focada nos aspectos relevantes para a teoria em que está
trabalhando, referentes tanto ao objeto da análise quanto às circunstâncias e
ambiente da observação.
Quais os
seus limites?
a) Dificuldade
de estabelecer, a priori, o que é relevante ou não para a teoria ou hipótese.
b) Limitações
tecnológicas dos instrumentos de medição.
c) Limitações
inerentes ao processo de observação – Princípio da Incerteza de Heisenberg, por
exemplo.
Além destas limitações objetivas,
temos a limitação subjetiva que resulta da “humanidade” do cientista;
limitações causadas por idéias religiosas, por ideologias ou filosofias que
siga, e que o impeçam de usar certos procedimentos ou mesmo de, pela sua
“configuração mental/emocional/ideológica”, se tornar consciente de alguns
fatos embora os mesmos estejam disponíveis – com todas as implicações que isto
acarreta na formação e validação de teorias.
Qual a relação entre ciência e
observação da realidade?
Como não vejo razão para abandonar o
racionalismo crítico segundo o modelo em que foi definido por Karl Popper,
acredito que a observação da realidade influencia todos os momentos da produção
científica, desde a definição de interesse de pesquisa, passando pelo momento
de formulação de hipóteses e indo até a etapa de testes que irão validar
as hipóteses.
No comments:
Post a Comment