O texto abaixo foi um post de Facebook no primeiro de janeiro de 2015.
Reli, achei que valia preservar no blog.
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Meia noite do primeiro do ano. Ninguém na rua. Ninguem. Ainda há pouco ouvi umas poucas explosões. Não pareciam fogos de artifício. Disparos em Fort Riley, talvez? Muito longe pra saber. Estou em casa. Talvez deva dizer "no lugar onde vivo". Sózinho aqui. Sabe a tristeza que isso me traz? Nenhuma!
:-) Estou perfeitamente bem com isso! Bom, tive a impressão que meu bebê Ana Valéria Ribeiro Pereira estava triste por eu não estar lá com ela hoje. Isso sim, incomoda. Mas com certeza já sentimos mais saudades um do outro do que hoje. Sentimento não tem data marcada. A vida não tem data pra acontecer. É por isso que não me importo de não estar no meio de uma festa hoje. Graças a um Poder Superior, graças à Energia do Universo, a minha vida tem acontecido. Que tal como Ano Novo o 13 de agosto, quando troquei o Brasil pelos Estados Unidos? Ou o primeiro de Setembro, meu primeiro dia de aula na Kansas State? Ou a noite em Outubro em que chorei chorei chorei de saudade dos meus bebês e acabei fazendo as pazes com a minha dor, e nos tornamos bons roommates? Que tal pensar no Primeiro do Ano que aconteceu lá por meados de 2013, quando eu decidi que ia parar de insistir em relacionamentos que só me traziam dor - e parei, e isso me transformou radicalmente? Ou vamos voltar bem no tempo, pro Primeiro do Ano de 13 de maio 1996, quando eu admiti pra mim mesmo e pros meus irmãos de coração que não sabia viver, e pedi ajuda porque não aguentava mais a dor - e eu não sabia, mas estava morrendo e renascendo das cinzas, uma nova vida estava começando? Caray, esses foram Primeiros do Ano! E tantos outros, tantos outros! Os Primeiros do Ano em que meus filhos nasceram, meus netos nasceram! O Primeiro do Ano em que pela primeira vez fiz meu trabalho voluntário preferido! Sou muito grato por tudo isso! E espero, sei que muitos outros grandes Primeiros do Ano virão! Em Agosto eu volto ao Brasil! Uma nova vida vai começar! Mas, deixa eu contar uma coisa pra vocês, falar um pouco do Yin desse Yang. Há uns anos atrás, no tempo em que eu estava indo regularmente em uma casa de meditação zen-budista, eu tinha o hábito - bom hábito, sábio hábito - de, várias vezes durante o dia, pensar: "Estás vendo a tua sombra, Pedro? Pois não esquece, a tua morte é como a tua sombra, te segue todo o tempo, faz parte de ti". Não, não é um pensamento triste nem mórbido. Não é assim que eu sentia, que eu sinto. Eu "sei", claro, que a vida tem fim. Mas eu tendo a colocar esse "saber" em um canto da mente. Não precisa ser assim, não deve ser assim. Examinar a minha finitude de forma bem real, como se fosse um objeto na palma da minha mão, ou um animal na minha frente - só que esse animal sou eu! - ao contrário, faz a vida brilhar intensamente, magicamente! Sei que em algum momento direi, como Hamlet: "Had I but time (as this fell sergeant, Death, Is strict in his arrest)"! É muito bom saber disto, a consciência da finitude traz junto a percepção de que cada dia, cada momento, é Primeiro do Ano! A cada momento eu tenho a responsabilidade e a liberdade de dizer aos duendes chamados desânimo, medo e tédio: "My will is as strong as yours, and my kingdom as great; You have no power over me"! E mesmo meu fim, mesmo meu fim... não é o fim!
:-) Não, não estou falando de nenhuma religião. Isso eu não sei, penso que não há como saber, e não vou perder meu tempo cantando bem alto no escuro pra fingir que não tenho medo. Vou descobrir quando chegar a hora e não esquento muito com isso. Não, o que estou dizendo é que quando chegar a hora de eu dizer "I have seen things you people wouldn't believe… ... Time to die...", eu NÃO direi "All those moments will be lost in time, like tears in rain"! Porque tenho filhos, e netos, e amigos, e viverei nos Primeiros do Ano deles! Como sempre que eu falo em morte as pessoas pensam que estou triste, esclareço: não estou triste. Só estou vendo o Yin e o Yang. São complementos, não são opostos. Estou bem. A mente calma. O velho coração batendo com um ritmo e uma potência que me espantam. Estou consciente do meu Qi, estou em paz. E voltemos a ler artigos científicos, que no momento essa é a minha profissão!Feliz Primeiro do Ano, pessoal!
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