Friday, October 09, 2015

DIA DA MATRÍCULA NA KSU - 22 de Agosto de 2014

DIA DA MATRÍCULA
Eu achei estas anotações, perdidas, e vi que não estavam no blog.  Provávelmente eu postei no Face.  Mas isso não pode ficar fora deste blog, e portanto aqui está!

Sexta-feira, 22 de Agosto, foi o dia da matrícula aqui na Kansas State University, para todos os estudantes estrangeiros e para muitos americanos também.  
Pelo que eu entendi, era o dia da matrícula dos “freshmen”, os calouros.
Muitas coisas chamaram a minha atenção, e eu resolvi escrever este pequeno texto para partilhá-las.  Afinal, estou aqui para aprender e partilhar o conhecimento, e isso não apenas no que se refere a conteúdo acadêmico mas  também quanto à cultura americana.

Um dia especial para a matrícula.  Nada de entrar no site da faculdade e se matricular, nada de “semana de matrículas” onde cada um por si vai na secretaria e se matricula.  E porque fazem assim?  Porque “se matricular” não é simplesmente escolher uma lista de disciplinas.  É ser apresentado ao “espírito da faculdade”.  E “ser um aluno” não é simplesmente assistir aulas, é participar de uma comunidade! 
Após um check-in, fomos todos para um auditório.  E ali passamos mais de duas horas assistindo a palestras e vídeos.  Falou o vice-reitor, falaram coordenadores de áreas de estudo, falaram representantes dos estudantes, falou até o representante da torcida organizada dos times da faculdade! 
Pra vocês terem uma idéia do envolvimento deles com a KSU:  a cor da KSU é púrpura, e o carro do vice-reitor é púrpura!  Aliás, eu o reconheci quando ele veio ao palco – na semana passada, eu estava andando pelo campus com um mapa na mão, e ele parou o tal carro púrpura para perguntar se eu precisava de ajuda!
Quando saímos do auditório e fomos efetivar a matrícula, cada um dos candidatos teve uma reunião com um professor orientador.  Haviam dois ou três para cada área – Engenharia Civil, Engenharia Mecânica, Ciências da Computação, Sistemas de Informação, etc.  Eles revisavam o curriculum da high school de cada calouro – e da universidade anterior se era transferência – e sugeriam matérias (“courses”, eles chamam aqui o que nós chamamos de “cadeiras” ou “disciplinas” na ULBRA – o que causa certa confusão ao ouvir pela primeira vez).  Cada aluno tinha toda a liberdade de argumentar e pedir alternativas. 
Feita a matrícula, cada um saindo com sua grade horários na mão, fomos todos a um almoço de boas-vindas.  E, vejam só – durante o almoço o gerente do refeitório também fez uma palestra, dizendo como eles trabalhavam, dizendo que se esforçavam para nos servir comida saudável e saborosa, e que se punha à disposição para reclamações e sugestões.  Que se alguém tivesse alguma receita nova, principalmente os estrangeiros, ele teria o maior prazer em tentar preparar!

Uma coisa que me chamou a atenção aqui é que os “funcionários de nível superior” realmente “botam a mão na massa”!  A pessoa que está arrumando a mesa para uma palestra pode ser uma vice-reitora; quem vem falar contigo quando a recepcionista pede ajuda com uma dúvida pode ser a Coordenadora de Relações Internacionais.  A impressão que eu tive é que a divisão de tarefas entre “subalternos” e “chefes” é muito mais fluida do que no Brasil!

Me deixem tentar passar a essência da impressão que eu tive apresentando a vocês alguns “lemas” que eu pincei das diversas palestras que assistimos.


GET INVOLVED!  IT´S FAMILY!
Isso nos foi dito vezes e vezes sem conta!  “A KSU é a sua nova família!”  Envolvam-se, desenvolvam relacionamentos, criem vínculos!  Sua época aqui vai marcar a Universidade e vai marcar as suas vidas pra sempre!
“Nós estamos aqui para ajudar.  O custo da educação nos Estados Unidos é alto, mais alto do que nos outros países.  Mas isto tem um retorno:  os professores tem tempo para estar à disposição, de vocês, para ajudar todos a ter sucesso.  Os estudantes veteranos também estarão à sua disposição para ajudar – vocês vão ter “tutores”, que podem inclusive assistir á aula com vocês e ajudar nas dificuldades específicas que estiverem enfrentando.  O interesse de todos aqui é que todos tenham sucesso.  It´s family!”

IT´S UP TO YOU!
Essa é outra nota tônica!  Ficou claro que ter um bom desempenho acadêmico é responsabilidade do estudante, é nossa responsabilidade.  Todos estarão à disposição para ajudar, mas cada um tem de ser proativo, trabalhar duro, pedir ajuda quando necessário. 
Os professores esperam que cada aluno trabalhe, por sua conta, no mínimo duas horas para cada hora em sala de aula – em algumas disciplinas, três horas de trabalho “de casa” para cada hora em sala de aula.  Ninguém vai fiscalizar;  simplesmente quem não fizer isso não vai ter a menor possibilidade de sucesso acadêmico.
Isso pra nem falar na frequencia às aulas e na pontualidade.  Sabem aquele esqueminha de não ir à primeira aula do ano, coisa que às vezes a gente faz no Brasil, “porque o professor só vai explicar o conteúdo da disciplina e passar o cronograma, e isso já está no Moodle mesmo”?  Pois então, neguinho, te atrasa DOIS MINUTOS pra primeira aula aqui, e o professor já pode ter te “dropado”, te excluído da lista de alunos, e dado a tua vaga pra outro!  Tem que se apresentar pro jogo, senão já era!
E já nos avisaram que as aulas são essencialmente participativas, que muito poucas vezes “assistir aula” vai se limitar a ouvir explanações do professor!

CAT COMMUNITIES – DON´T “OVER SPECIALIZE”
Quanto a isto, primeiro um pouco de contexto:  um estudante de graduação (“undergraduate”, eles dizem aqui, o que também causa um bocado de confusão, no início, aos brasileiros) se gradua em um “major” – ou seja, no que chamamos no Brasil um “curso superior” ou “bacharelado”.  Mas pode também já sair do bacharelado com uma especialização, ou “minor”.  Por exemplo, um bacharel em Sistemas de Informação com uma especialização em Administração.  Mas – e aí há uma grande diferença em relação ao Brasil – a “minor” não precisa ser relacionada à área da “major”!  Tanto quanto eu entendi, um Analista de Sistemas pode perfeitamente cursar as cadeiras necessárias para ter um “minor” em História, por exemplo!
Eles acreditam que isso evita “super-especialização”, que forma pessoas capazes de ter uma visão de mundo mais abrangente e – igualmente importante – de entender pessoas de outras áreas!
“Cat Communities” são grupos de estudantes que se encontram em salas de aula e grupos de estudo que não pertencem – e muitas vezes não tem a menor conexão aparente – com a área de estudos do seu “major” (da sua graduação).   Não é raro ver, por exemplo, um estudante de Engenharia fazendo um curso de Psicologia.  Ou um estudante de Literatura fazendo um curso de Matemática.   Ou músicos fazendo Matemática e vice-versa.  E muitas outras “variações” que seriam vistas como muito estranhas no Brasil – se chegassem a ocorrer. 

IT´S NOT JUST ABOUT GRADES
“Ter bom desempenho acadêmico”, aqui, foi-nos deixado claro, não se resume a ter boas notas.  É preciso participar da vida da comunidade universitária.  Pode ser como atleta, como tutor de calouros, como membro de um dos vários clubes de estudos – mas é preciso mostrar que se é capaz de desenvolver relacionamentos produtivos, de contribuir para o grupo, de trabalhar harmonicamente com todos os tipos de pessoas, de conviver com opostos. 
Porque eles acreditam nos valores humanos da tolerância e da boa-vontade?  Sim, mas também porque é isso que teremos de fazer na vida profissional, e é isso que as empresas, os futuros empregadores, vão procurar – pessoas capazes de trabalhar eficazmente, harmonicamente, em equipe!  O curriculum acadêmico tem que mostrar isso, ou a colocação no mercado vai ficar mais difícil!


CARA, ELES SENTEM AMOR POR ESTE LUGAR, E SE ORGULHAM DE PERTENCER A ESTA UNIVERSIDADE!
Isso foi uma coisa que eu senti de maneira muito forte, e me impressionou!
O amor que os professores, os estudantes veteranos, os ex-alunos, sentem pela KSU é uma coisa que salta aos olhos, que impressiona, que emociona!  O entusiasmo com que eles se empenham em promover o sucesso da Universidade, seja nos esportes, seja em atividades acadêmicas, é uma coisa para a qual eu – infelizmente – quase que só vejo paralelo no Brasil no alienante, estúpido e improdutivo fanatismo das torcidas de futebol!  Ah, se ao menos “torcêssemos”  no Brasil pelas nossas Universidades como torcemos pelos clubes de futebol...  Mas há outra comparação que me ocorre, menos amarga felizmente – a dos ex-militares!  Pode-se dizer que o companheirismo, o vínculo que persiste pela vida afora e a forte ligação com a sua unidade que eu vejo nos colegas que serviram o Exército é semelhante à relação que eles mostram com a Universidade aqui.
O orgulho que eles tem pelos sucessos da Universidade!  Não importa a área; os estudantes das Exatas celebram uma premiação da Agronomia, por exemplo, da forma como se festeja o sucesso de um parente – não um irmão, um primo talvez, mas um primo de quem gostamos muito!
“It´s family!”

SÃO SÓ PRIMEIRAS IMPRESSÕES, EU SEI!
Pessoal, eu sei que são só primeiras impressões, e que podem mudar, quase certamente vão mudar!
Mas eu quis escrever exatamente assim, ainda sob o efeito deste primeiro impacto.
Partilhar com vocês as impressões do meu “olhar virgem”.
Veremos o que nos aguarda!

Abraço saudoso a todos vocês, caros colegas, caros professores!
Termino com o lema que está na entrada da biblioteca daqui, e cujo espírito eu acredito que nos une:

“LET THE LOVE OF LEARNING RULE HUMANITY!”

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