DIA
DA MATRÍCULA
Eu achei estas anotações, perdidas, e vi que não estavam no blog. Provávelmente eu postei no Face. Mas isso não pode ficar fora deste blog, e portanto aqui está!
Sexta-feira, 22 de
Agosto, foi o dia da matrícula aqui na Kansas State University, para todos os
estudantes estrangeiros e para muitos americanos também.
Pelo que eu entendi,
era o dia da matrícula dos “freshmen”, os calouros.
Muitas coisas chamaram
a minha atenção, e eu resolvi escrever este pequeno texto para
partilhá-las. Afinal, estou aqui para
aprender e partilhar o conhecimento, e isso não apenas no que se refere a
conteúdo acadêmico mas também quanto à
cultura americana.
Um dia especial para a
matrícula. Nada de entrar no site da
faculdade e se matricular, nada de “semana de matrículas” onde cada um por si
vai na secretaria e se matricula. E porque
fazem assim? Porque “se matricular” não
é simplesmente escolher uma lista de disciplinas. É ser apresentado ao “espírito da
faculdade”. E “ser um aluno” não é
simplesmente assistir aulas, é participar de uma comunidade!
Após um check-in,
fomos todos para um auditório. E ali
passamos mais de duas horas assistindo a palestras e vídeos. Falou o vice-reitor, falaram coordenadores de
áreas de estudo, falaram representantes dos estudantes, falou até o
representante da torcida organizada dos times da faculdade!
Pra vocês terem uma
idéia do envolvimento deles com a KSU: a
cor da KSU é púrpura, e o carro do vice-reitor é púrpura! Aliás, eu o reconheci quando ele veio ao
palco – na semana passada, eu estava andando pelo campus com um mapa na mão, e
ele parou o tal carro púrpura para perguntar se eu precisava de ajuda!
Quando saímos do
auditório e fomos efetivar a matrícula, cada um dos candidatos teve uma reunião
com um professor orientador. Haviam dois
ou três para cada área – Engenharia Civil, Engenharia Mecânica, Ciências da
Computação, Sistemas de Informação, etc.
Eles revisavam o curriculum da high school de cada calouro – e da
universidade anterior se era transferência – e sugeriam matérias (“courses”,
eles chamam aqui o que nós chamamos de “cadeiras” ou “disciplinas” na ULBRA – o
que causa certa confusão ao ouvir pela primeira vez). Cada aluno tinha toda a liberdade de
argumentar e pedir alternativas.
Feita a matrícula,
cada um saindo com sua grade horários na mão, fomos todos a um almoço de
boas-vindas. E, vejam só – durante o
almoço o gerente do refeitório também fez uma palestra, dizendo como eles
trabalhavam, dizendo que se esforçavam para nos servir comida saudável e
saborosa, e que se punha à disposição para reclamações e sugestões. Que se alguém tivesse alguma receita nova,
principalmente os estrangeiros, ele teria o maior prazer em tentar preparar!
Uma coisa que me
chamou a atenção aqui é que os “funcionários de nível superior” realmente
“botam a mão na massa”! A pessoa que
está arrumando a mesa para uma palestra pode ser uma vice-reitora; quem vem
falar contigo quando a recepcionista pede ajuda com uma dúvida pode ser a
Coordenadora de Relações Internacionais.
A impressão que eu tive é que a divisão de tarefas entre “subalternos” e
“chefes” é muito mais fluida do que no Brasil!
Me deixem tentar
passar a essência da impressão que eu tive apresentando a vocês alguns “lemas”
que eu pincei das diversas palestras que assistimos.
GET
INVOLVED! IT´S FAMILY!
Isso nos foi dito
vezes e vezes sem conta! “A KSU é a sua nova
família!” Envolvam-se, desenvolvam
relacionamentos, criem vínculos! Sua
época aqui vai marcar a Universidade e vai marcar as suas vidas pra sempre!
“Nós estamos aqui para
ajudar. O custo da educação nos Estados
Unidos é alto, mais alto do que nos outros países. Mas isto tem um retorno: os professores tem tempo para estar à
disposição, de vocês, para ajudar todos a ter sucesso. Os estudantes veteranos também estarão à sua
disposição para ajudar – vocês vão ter “tutores”, que podem inclusive assistir
á aula com vocês e ajudar nas dificuldades específicas que estiverem
enfrentando. O interesse de todos aqui é
que todos tenham sucesso. It´s
family!”
IT´S UP
TO YOU!
Essa é outra nota tônica! Ficou claro que ter um bom
desempenho acadêmico é responsabilidade do estudante, é nossa
responsabilidade. Todos estarão à
disposição para ajudar, mas cada um tem de ser proativo, trabalhar duro, pedir
ajuda quando necessário.
Os professores esperam
que cada aluno trabalhe, por sua conta, no mínimo duas horas para cada hora em
sala de aula – em algumas disciplinas, três horas de trabalho “de casa” para
cada hora em sala de aula. Ninguém vai
fiscalizar; simplesmente quem não fizer
isso não vai ter a menor possibilidade de sucesso acadêmico.
Isso pra nem falar na
frequencia às aulas e na pontualidade.
Sabem aquele esqueminha de não ir à primeira aula do ano, coisa que às
vezes a gente faz no Brasil, “porque o professor só vai explicar o conteúdo da
disciplina e passar o cronograma, e isso já está no Moodle mesmo”? Pois então, neguinho, te atrasa DOIS MINUTOS
pra primeira aula aqui, e o professor já pode ter te “dropado”, te excluído da
lista de alunos, e dado a tua vaga pra outro!
Tem que se apresentar pro jogo, senão já era!
E já nos avisaram que
as aulas são essencialmente participativas, que muito poucas vezes “assistir
aula” vai se limitar a ouvir explanações do professor!
CAT
COMMUNITIES – DON´T “OVER SPECIALIZE”
Quanto a isto, primeiro
um pouco de contexto: um estudante de
graduação (“undergraduate”, eles dizem aqui, o que também causa um bocado de
confusão, no início, aos brasileiros) se gradua em um “major” – ou seja, no que
chamamos no Brasil um “curso superior” ou “bacharelado”. Mas pode também já sair do bacharelado com
uma especialização, ou “minor”. Por
exemplo, um bacharel em Sistemas de Informação com uma especialização em
Administração. Mas – e aí há uma grande
diferença em relação ao Brasil – a “minor” não precisa ser relacionada à área
da “major”! Tanto quanto eu entendi, um
Analista de Sistemas pode perfeitamente cursar as cadeiras necessárias para ter
um “minor” em História, por exemplo!
Eles acreditam que
isso evita “super-especialização”, que forma pessoas capazes de ter uma visão
de mundo mais abrangente e – igualmente importante – de entender pessoas de
outras áreas!
“Cat Communities” são
grupos de estudantes que se encontram em salas de aula e grupos de estudo que não
pertencem – e muitas vezes não tem a menor conexão aparente – com a área de
estudos do seu “major” (da sua graduação).
Não é raro ver, por exemplo, um estudante de Engenharia fazendo um curso
de Psicologia. Ou um estudante de
Literatura fazendo um curso de Matemática.
Ou músicos fazendo Matemática e vice-versa. E muitas outras “variações” que seriam vistas
como muito estranhas no Brasil – se chegassem a ocorrer.
IT´S NOT
JUST ABOUT GRADES
“Ter bom desempenho
acadêmico”, aqui, foi-nos deixado claro, não se resume a ter boas notas. É preciso participar da vida da comunidade
universitária. Pode ser como atleta,
como tutor de calouros, como membro de um dos vários clubes de estudos – mas é
preciso mostrar que se é capaz de desenvolver relacionamentos produtivos, de
contribuir para o grupo, de trabalhar harmonicamente com todos os tipos de
pessoas, de conviver com opostos.
Porque eles acreditam
nos valores humanos da tolerância e da boa-vontade? Sim, mas também porque é isso que teremos de
fazer na vida profissional, e é isso que as empresas, os futuros empregadores,
vão procurar – pessoas capazes de trabalhar eficazmente, harmonicamente, em
equipe! O curriculum acadêmico tem que
mostrar isso, ou a colocação no mercado vai ficar mais difícil!
CARA, ELES SENTEM AMOR POR ESTE LUGAR, E SE
ORGULHAM DE PERTENCER A ESTA UNIVERSIDADE!
Isso foi uma coisa que
eu senti de maneira muito forte, e me impressionou!
O amor que os
professores, os estudantes veteranos, os ex-alunos, sentem pela KSU é uma coisa
que salta aos olhos, que impressiona, que emociona! O entusiasmo com que eles se empenham em
promover o sucesso da Universidade, seja nos esportes, seja em atividades
acadêmicas, é uma coisa para a qual eu – infelizmente – quase que só vejo
paralelo no Brasil no alienante, estúpido e improdutivo fanatismo das torcidas
de futebol! Ah, se ao menos
“torcêssemos” no Brasil pelas nossas
Universidades como torcemos pelos clubes de futebol... Mas há outra comparação que me ocorre, menos
amarga felizmente – a dos ex-militares! Pode-se dizer que o companheirismo, o vínculo
que persiste pela vida afora e a forte ligação com a sua unidade que eu vejo
nos colegas que serviram o Exército é semelhante à relação que eles mostram com
a Universidade aqui.
O orgulho que eles tem
pelos sucessos da Universidade! Não
importa a área; os estudantes das Exatas celebram uma premiação da Agronomia,
por exemplo, da forma como se festeja o sucesso de um parente – não um irmão,
um primo talvez, mas um primo de quem gostamos muito!
“It´s family!”
SÃO SÓ PRIMEIRAS IMPRESSÕES, EU SEI!
Pessoal, eu sei que
são só primeiras impressões, e que podem mudar, quase certamente vão mudar!
Mas eu quis escrever
exatamente assim, ainda sob o efeito deste primeiro impacto.
Partilhar com vocês as
impressões do meu “olhar virgem”.
Veremos o que nos
aguarda!
Abraço saudoso a todos
vocês, caros colegas, caros professores!
Termino com o lema que
está na entrada da biblioteca daqui, e cujo espírito eu acredito que nos une:
“LET THE LOVE OF LEARNING RULE HUMANITY!”
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