Tuesday, October 30, 2018

Comentários sobre ser um Motorista de Aplicativo - uma Observação Participante como Observador Completo


(NOTA: o título usa o conceito descrito na obra "Participant Observation" - Spradley, J. P. (1980).  Encontrei um PDF disponível em https://www.uio.no/studier/emner/sv/sai/SOSANT4110/h17/pensumliste/spradley_doing-participant-observation.pdf .
Uma breve descrição da técnica de Observação Participante pode ser encontrada no artigo "Os dez mandamentos da Observação Participante", de Licia Valladares, na Revista Brasileira de Ciências Sociais (vol.22 no.63, 2007) (ver http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092007000100012 ).


Tirando um dia de folga.  E “folga” não significa “não fazer nada”, mas sim “fazer o que quero”.  E o que quero é parar e pensar.  Pensar sobre as transformações na minha vida.  Ou “a” transformação: como tantos outros profissionais “intelectuais” – engenheiros, advogados, administradores, ... – estão tendo que fazer hoje em dia no Brasil, estou tentando ganhar a vida como motorista de aplicativo. 

É claro que há um baque emocional.  “Como assim não posso mais fazer o que fiz toda a vida?  Há um mês eu era um profissional e agora não sou nada?  Qual foi este encanto que me transformou de príncipe profissional em sapo sem trabalho?”   Mas o tempo cura tudo, e a dor vai passar.  Não é disto que quero falar aqui.   Quero falar das descobertas que a mudança está me proporcionando.  Fui despojado da oportunidade de exercer minha profissão, mas conservo a formação profissional.  A mente analítica do desenvolvedor de sistemas não foi apagada.  E ainda sou um estudante de Ciências Sociais!  É sobre isto que eu quero escrever.

Como é dirigir um carro de aplicativo?  É ficar oito, doze, catorze horas por dia ao volante, seguindo o mapa no GPS.  Isto exige um certo tipo de “destreza”:  todas as habilidades de um bom motorista (que estou ainda no processo de aperfeiçoar), raciocínio rápido para quando o GPS dá uma indicação errada, percepção do "barbeiro" que vai cortar meu caminho ou do motorista de ônibus maluco que vai tocar por cima de mim... Há também as situações críticas: manobras difíceis em ruas estreitas, onde mal passa o carro, num piso esburacado, de terra, na chuva, no escuro...   E, sim, tudo isso junto!  Aguardar um passageiro, de madrugada, com o carro parado em uma encruzilhada às escuras no meio de uma “comunidade”, os olhos varrendo os espelhos, o pé esquerdo pronto pra afundar na embreagem e a mão direita pronta pra engrenar a primeira, alerta como um gato que entra num pátio onde ele sabe que pode ter um cachorro, só não sabe se o cachorro está ali...  É intenso.  Envolve uma aptidão e uma destreza.  Falhas, decisões erradas, tem consequências imediatas, que podem ser graves, até fatais!  Mas não é “intelectual”.  Inclusive acredito que, se for usar o raciocínio nessas situações extremas... vai morrer!

O próprio conhecimento das ruas da cidade, embora inevitavelmente aconteça, é prejudicado pelas longas horas de trabalho e principalmente pela forma como o trabalho é executado - automaticamente, por reflexos condicionados.  Chega-se (pelo menos eu chego) a um ponto em que não se tem mais uma noção clara de onde se anda, se estamos na Zona Sul, na zona Oeste ou se já é Alvorada ou Cachoeirinha.  Me torno uma máquina a mais, a máquina que conecta o GPS ao carro.  Blim-blom blim-blom toca a chamada e automaticamente aperto “Aceitar”.  “Navegar”.  “In two hundred meters, take the first left, signs to Aeroporto”, diz a Michelle.  E eu obedeço.  Michelle é o nome que eu dei à voz feminina do meu GPS, eu converso com ela, agradeço e reclamo.  E ela fala em inglês, porque todo o meu celular estava já em inglês (não entendo as péssimas traduções que fazem dos aplicativos) e porque descobri que isso me ajuda a não esquecer o inglês, além de divertir os passageiros.

Como se está, após oito, doze, quatorze horas disto?  Fisicamente exausto, é claro.  Nos primeiros dias tinha dores, principalmente na mão direita (a da mudança) e no joelho esquerdo (o da embreagem).  Mas o corpo vai se adaptando.  Já não dói.  Cansa, sempre cansa.  Saio do carro com as pernas dormentes.  Mas nem só as pernas adormecem.  A mente também!
Máquina, zumbi, algoritmo, instinto...  Sinto que qualquer dessas palavras se aplica ao meu estado mental.  O que definitivamente não se aplica é “pensamento criativo”.  Considerando que dirigi quatorze horas não para mim diretamente, mas vendendo um serviço, poderia se dizer que me tornei um “instrumentum vocale”, a expressão que os romanos usavam para designar os escravos – uma ferramenta que fala.   

E então, como vai ser o meu lazer?  Ora, descobri que a tendência natural é continuar fazendo alguma coisa que mantenha minha mente embrutecida!  Ver um filme idiota, ler um romance barato, alguma coisa que me permita relaxar o corpo e manter a mente em estupor!  Não bebo, não faço uso de nenhuma substância que altere meu humor ou meu comportamento, se fizesse, provavelmente faria uso abusivo destas substâncias!  Esta é a tendência!

Eu resisto a essa tendência?  Sim, resisto, geralmente faço alguma das leituras recomendadas pela faculdade, ou vejo um filme que tenha algum conteúdo, que faça pensar.  Mas é necessário um esforço!  Um esforço que eu só percebo que é necessário porque esta vida é nova pra mim!  Se nunca tivesse tido outra profissão, se nunca tivesse tido a chance de estudar coisas que me empolgam, pensaria que a vida é isso – trabalhar mecanicamente para garantir a sobrevivência e gozar prazeres embrutecedores sempre que possível!

É assustador.  Por quanto tempo eu vou resistir?  É possível resistir pra sempre?  Meu refúgio é a faculdade.  Mas a exaustão física é um obstáculo terrível pra me manter na faculdade.  Acordar ás cinco e quinze da manhã, estar dentro do carro das seis da manhã às cinco da tarde, assistir aula das seis e meia até às dez da noite, dormir às onze e meia, meia-noite... e tudo de novo na manhã seguinte, dia após dia...  As aulas começam a acontecer numa névoa, o Pedro que não calava a boca um segundo fazendo perguntas e questionamentos agora simplesmente luta pra se manter acordado e entender alguma coisa do que está acontecendo...  Os trabalhos, as atividades à distância, são feitos mal e porcamente, ou não são feitos...  Nunca fui assim.  Me dói ser assim.  Mas, com o melhor dos esforços que venho fazendo, isso é tudo que estou conseguindo.   Eu sempre trabalhei e estudei.  E sempre foi difícil.  Mas pelo menos eu tinha os fins de semana pra estudar.  Agora, viro as noites de sábado pra domingo dirigindo, é o dia de ganhar um dinheirinho a mais.  Estou me tornando razoavelmente bom nesta profissão de motorista, mas a profissão de motorista está expulsando tudo o mais da minha vida!   

Enfim, tenho de sobreviver, tenho de prover à minha família, portanto menos mal que tenho este trabalho de motorista.  Quem sabe, à medida que o tempo passa, eu não vou achando uma acomodação?  É preciso ter esperança e fé...

E não me entendam mal, este trabalho de motorista, em si, não é ruim!  E não é, pra mim, “apenas” um meio de sobreviver.  Desenvolvi uma certa ética e um certo orgulho profissional!  Mantenho o carro limpo, me mantenho limpo e bem apresentado.  Sou cortês.  Lembro que as pessoas estão colocando as vidas delas nas minhas mãos, e me esforço para agir de forma a ser digno desta confiança.  Peguei passageiros saindo de hospitais, recém-operados, gemendo de dor.  Eles confiam que vão ser conduzidos não apenas em segurança, mas com cuidado – e assim faço.  Transportei meninas, á noite, meninas com medo de ser largadas em frente a um prédio fechado numa rua deserta.  Jamais o faria, tomo conta delas como quero que tomem conta da minha filha!  Não, eu não sou um instrumentum vocale!  Sou humano, e a minha humanidade aparece nesses gestos!  E não me custa agir assim, porque não é unilateral.  Os passageiros são humanos também.  Há exceções, claro.  A PROCERGS e o Centro Administrativo do Estado parecem ser ninhos de arrogância, prepotência e descortesia.  É preciso, quando topamos com indelicadeza, criar uma "bolha de isolamento" e não deixar que isto nos afete.  Vestir uma "máscara profissional".  Mas no geral as pessoas são agradáveis, no mínimo corteses.  Algumas vezes, tocantes, como a família humilde que me pediu pra deixá-los, tarde da noite, em uma avenida onde só haviam prédios comerciais fechados.  Ante a minha estranheza, explicaram que “A gente mora ali na vila, mas não queremos que o senhor entre ali, vamos andar o resto do caminho”.  E ainda me instruíram: “Se alguma vez o senhor precisar entrar ali, vá bem devagar e acenda a luz de dentro do carro.  Aí eles vêem que é aplicativo e não atiram”.  Policiais, tanto civis quanto militares, são surpreendentemente gentis.  Já dois caras que entendi, pelo que falavam entre eles, serem membros de uma facção criminosa (estavam saindo do Forum), não foram grosseiros, mas me deixaram atônito com o grau de egocentrismo.  Eles eram o centro de tudo que faziam e diziam.  Faz sentido, né?  Criminosos não podem ter empatia...

Nesse sentido, o carro é um excelente campo de estudos de Ciências Sociais.  Professores, vendedores, empresários, transporto gente de todas as profissões, ricos e pobres, jovens e velhos...  e quase todos partilham alguma coisa.   A profissão mais estranha que encontrei talvez seja a de um rapaz colombiano que é de circo!  Caminha naquelas rodas gigantes de equilibrismo...  Trabalhou na África do Sul – me mostrou vídeos do número dele; na China – me mostrou fotos de uma boate chinesa...  Conversamos em inglês e em espanhol, mudando de língua ao sabor do assunto...  J   Levei um travesti que se portou como uma mocinha assustada e recatada.  Levei um casal gay que se portou como o estereótipo do casal gay, falando de perfumes e de desfiles de moda em Paris...  Nossa, os passageiros dariam um livro! 
Talvez dêem...  ;-)  Ou pelo menos mais alguns posts...

Valeu pessoal!
Obrigado a quem me leu até aqui!
Abraços!
Até a próxima!

1 comment:

Anonymous said...

Concordo com os orientais quando dizem que crise e oportunidade tem a mesma vibração. Quando a vida nos desafia, o convite ao despojamento pode ser muito doloroso. Afinal, nosso sistema de crenças permanece ativo nas nossas ações e forma de ver e sentir o mundo. Mesmo que afirmemos que todas as atividades e profissões são dignas, somos levados a acreditar que aquelas que nos desafiam intelectualmente são mais importantes e menos embrutecedoras. Em nossa civilizada arrogância esquecemos que o cotidiano é sagrado, que todo ato que nos conecta com os outros é sagrado. A inteligência tem um forte elo com a contemplação e a contemplação tem o poder de abrir nossa compreensão em níveis mais sutis. Caminhar, dirigir, experimentar o poder da gentileza e do cuidado com aqueles sob a nossa responsabilidade, conversar, compreender vários universos pessoais... Que riqueza poderes testemunhar isso agora, na tua maturidade existencial, e sorver da sabedoria que aceita, compreende, planeja e continua a sonhar. Obrigada por partilhar deste teu momento!